O filho de 30 anos da diarista Maria*, 57, está internado pela sexta vez para tentar ficar livre do vício em crack. A mãe decidiu que não quer que ele volte a morar com ela após o tratamento. Está cansada de pagar as dívidas com traficantes e ver suas coisas serem vendidas pelo caçula. A nova postura da diarista, que já perdeu as contas de quantas vezes foi buscar o filho sujo em bocas de fumo, foi anunciada por ela durante seu depoimento na reunião semanal do grupo de apoio Amor Exigente. Como ela, outras 12 mães estavam ali para buscar suporte e tentar amenizar as difíceis consequências de ter um filho viciado em crack.

Na prática, os familiares de usuários da droga têm apenas nos grupos de mútua ajuda a salvação para encarar o desamparo em que se encontram. Em Belo Horizonte, o Amor Exigente, dinâmica onde pais e mães de ex-viciados orientam as reuniões, familiares se encontram uma vez por semana para dividir experiências, discutir princípios e propor metas de mudanças. "A proposta do grupo é mudar o comportamento daquele familiar. Os sintomas de uma mãe passa a ser o mesmo do usuário. Por isso temos que resgatar o que é o amor e o que é a palavra exigência", explicou o coordenador do grupo na capital, o especialista em dependência química João Francisco Duarte.

Há dez anos à frente dos encontros, Duarte contou que a maioria dos pais chega às reuniões depois de tentar medidas desesperadas e sem obter sucesso. O crack, de acordo com ele, está presente em quase 90% das casas dos integrantes das reuniões. Pai de um ex-viciado, o especialista conta que a coragem para desabafar os problemas só acontece quando todos esgotam os recursos. "Aqui só chegam aqueles no fundo do poço", disse.
Júlia, 39, passa grande parte da reunião sem conseguir conter as lágrimas. Acompanhada de duas irmãs, a cabeleireira pega o ônibus todas as semanas e enfrenta duas horas de viagem entre Mariana, na região Central do Estado, e a capital para dividir o drama do filho viciado em crack que não vê há mais de três meses. De acordo com ela, são dez anos participando do grupo. "A última vez que ele me ligou, disse que estava morando perto da Pedreira Prado Lopes em uma pensão. Eu disse que só era para ele me ligar de novo se não fosse a cobrar. Nunca mais ele entrou em contato", afirmou Júlia. A exigência faz parte da influência das inúmeras reuniões de grupo que ensinam os pais a terem uma nova postura. João Francisco Duarte tenta acalmar a mãe sem notícias do filho após o último telefonema. "Ele nunca te respeitava quando você pedia para ele parar de usar o crack, não é? Agora ele não ligou porque você disse que não iria atender a cobrar. Você está estabelecendo uma posição e tomando as rédeas da sua vida", aconselhou.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das mães.
"É uma ajuda incrível", diz especialista
De acordo com o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considerado um dos maiores especialistas do país em drogas, os grupos de autoajuda são a principal fonte de apoio aos familiares de usuários de crack no Brasil.
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), o dispositivo público de atenção à saúde mental do governo, segundo Laranjeira, não possui o potencial de abrangência proporcionado pelas reuniões de mútua ajuda disponíveis aos familiares. "Eles (os grupos) ajudam pelo menos dez vezes mais pessoas do que o tratamento formal. São fundamentais para a estratégia de tratamento. É uma ajuda incrível", disse. (FMM)
Matou o filho em legítima defesa
O domingo de Páscoa de 2009 marcou para sempre a vida da aposentada Flávia Costa Hahn, 62, moradora de Porto Alegre (RS). Usando um revólver calibre 44 do marido, Flávia matou o único filho de 24 anos durante um surto do jovem usuário de crack. Tobias Hahn havia começado a usar a droga três anos antes da tragédia. A mãe foi vítima de vários abusos do filho, que chegou a incontáveis agressões físicas. Flávia foi inocentada pela Justiça, que entendeu que ela teria agido em legítima defesa.
Acorrentado ao pé da cama
Vários são os relatos de mães que já chegaram a acorrentar os filhos viciados em crack para impedir a continuidade da destruição. No caso da faxineira de Recife (PE) Tânia Maria da Silva, 47, a medida desesperada não adiantou. O filho Nevyson, 20, foi assassinado no Dia das Mães do ano passado por traficantes do bairro onde morava. O caso de Tânia chamou a atenção do país ao ser acusada de cárcere privado pela polícia pernambucana. Ela disse que no dia que o "libertou", nunca mais o viu.
O Tempo
Da redação do Plox
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