sexta-feira, 08/07/2011

Era dos ônibus espaciais chega ao fim em 2011

Em 1981, o Columbia realizava o voo de estreia do Programa Ônibus Espacial e se tornava o primeiro veículo reutilizável a viajar para o espaço. Tinha início uma nova era na exploração espacial, marcada por inúmeros avanços científicos e pioneirismos tecnológicos, entre eles o lançamento de mais de 70 satélites, incluindo o telescópio Hubble, e a construção da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).

A poucos meses de completar 30 anos e após executar mais de 130 missões, o fim dessa era se aproxima. Quando o programa for extinto, a Nasa ficará sem um veículo próprio para levar seres humanos ao espaço. A partir de então, o transporte de astronautas da agência para a ISS será feito a bordo dos foguetes russos Soyuz. Pela primeira vez em décadas, os EUA dependerão da Rússia para fazer viagens espaciais tripuladas.
Decisão

A decisão de aposentar o ônibus espacial foi tomada em 2004 pelo então presidente dos EUA, George W. Bush, um ano após o acidente com o Columbia - nave que se desintegrou no ar durante a reentrada na Terra, matando a tripulação de sete astronautas. Ironicamente, o mesmo ônibus que havia feito o voo inaugural do programa contribuía para sentenciar seu fim.

Mas, segundo Duília de Mello, pesquisadora brasileira do Centro de Voo Espacial Goddard da Nasa, os ônibus espaciais já estavam na mira da agência antes mesmo do desastre com o Columbia devido aos altos custos de se manter a frota em operação. Para se ter uma ideia, cada missão do ônibus custa em média U$ 500 milhões, o equivalente ao dobro do orçamento anual do Programa Espacial Brasileiro e à metade do indiano. "A explosão do Columbia foi apenas a gota d'água que faltava para cancelarem o programa", conclui Mello, ressaltando que não fala em nome da Nasa.

O acidente de 2003 foi o segundo da história do ônibus espacial. Em 1986, o Challenger explodiu segundos após o lançamento e matou os sete astronautas que estavam à bordo. Além das vidas, o desastre custou à Nasa uma revisão minuciosa do programa, modificações nas naves para garantir maior segurança nos vôos e U$ 1,7 bilhão para construção de uma nova nave, Endeavour, em substituição a que fora destruída.
Questão financeira

O projeto do Programa Ônibus Espacial foi anunciado em 1972, no contexto da Guerra Fria e da corrida espacial. O homem pisara na Lua pela primeira vez havia três anos a bordo do foguete americano Apollo e a Nasa buscava novas formas de permanecer à frente da União Soviética na exploração do espaço.

Naquele momento, a agência optou por investir em uma nave reutilizável, capaz de viajar rotineiramente para a órbita terrestre e de concretizar tanto projetos civis, como os do Hubble e da ISS, quanto militares. A expectativa era que um veículo reutilizável reduzisse os custos de cada lançamento.

Contudo, os ônibus acabaram se mostrando pouco competitivos em termos financeiros. José Bezerra Pessoa Filho, tecnologista sênior do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), explica que isso aconteceu devido à complexidade da estrutura dos veículos e aos elevados requisitos de desempenho, já que eles são os únicos capazes de transportar astronautas e cargas massivas ao mesmo tempo.

“São máquinas complexas e provas vivas da engenhosidade humana. No entanto, com o passar das décadas, a manutenção e operação delas as tornou inviável”, afirma Pessoa Filho. Essa também é a opinião de Mello: “O ônibus espacial é o veículo mais complexo inventado até hoje; o grande problema é que manter uma frota em funcionamento custa muito caro”.

Para efeitos de comparação, basta considerar que cada missão do Ariane 5 - foguete da Agência Espacial Europeia que transporta cargas pesadas, mas sem tripulação a bordo - custa em torno de U$ 180 milhões, pouco mais de um terço do valor necessário para lançar um ônibus.

“Em tempos de crise econômica, enorme déficit nas contas públicas, elevada taxa de desemprego e sem um inimigo de porte à vista, fica cada vez mais difícil justificar o custo do Programa Ônibus Espacial”, diz Pessoa Filho.
Outros foguetes

O pesquisador do IAE ressalta que os EUA possuem vários outros foguetes confiáveis para colocar satélites em órbita da Terra, como o Delta, o Atlas e o Titan. “Por isso não é absurdo afirmar que o programa foi morrendo aos poucos e, sob o ponto de vista da engenharia, a sua vida útil foi levada ao limite. Novos ônibus poderiam ser fabricados, mas a Nasa, a cada dia, tinha mais dificuldades para justificá-los. Seu ciclo de vida se encerrou e há meios mais baratos para se levar seres humanos ao espaço”, conclui.

Da redação do Plox


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