Um misto de imprudência de motoristas e de precariedade em sinalização de alerta transformou os 1.666 cruzamentos da malha ferroviária mineira em travessias de alto risco. Uma semana depois do acidente que matou três pessoas e feriu mais de 30 na cidade de Entre Rios de Minas, na Região Central, onde um ônibus escolar foi atingido por um trem de minério quando cruzava os trilhos, especialistas sustentam que a simples presença da placa cruz de Santo André à beira da ferrovia indica perigo. Mas, como a responsabilidade pela instalação de itens de segurança – cancelas, sinais eletrônicos e placas – é do município, muitas vezes essa omissão custa a vida de inocentes. As concessionárias alegam que só o trabalho conjunto entre a empresa, o poder público e com quem está por trás dos volantes pode evitar esse tipo de acidente.

Estudioso do tráfego urbano, o professor do Departamento de Engenharia de Trânsito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ronaldo Guimarães Gouvêa afirma que cruzamentos como esses são, por natureza, áreas de risco. “Toda passagem de nível é perigosa, independentemente do fluxo de veículos. O ideal é que cada uma delas fosse sinalizada com cancela, aviso sonoro e luminoso. A cruz de Santo André é um componente. É insuficiente por si só, mesmo na área rural. Ela é o indicador final e deve estar instalada a 500 metros da ferrovia para o motorista saber: chegamos”.
A Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) lista 1,2 mil passagens de nível em ferrovias de Minas Gerais (áreas urbanas e rurais) e indica cerca de 25 pontos críticos, por questões de visibilidade e quantidade de veículos que circulam pelo local. Quinze cruzamentos, como os de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e Itaúna, no Centro-Oeste de Minas, ganharam sinalização audiovisual, com pisca-pisca ininterrupto em amarelo e vermelho e alerta sonoro que começa a soar quando o trem está a 300 metros. Em Itaúna, onde a via férrea corta a cidade, com impactos no trânsito local no horário do rush, um plano já foi elaborado para transpor os trilhos para a zona rural.
“O trem não para imediatamente. Mesmo acionando o freio de emergência, ele ainda leva mil metros para parar. Se o motorista tiver um pouco mais de prudência e cuidado, se seguir a orientação das placas de cruz de Santo André e parar, olhar e escutar, não haverá mais acidentes. Posso afirmar que em todos os casos que tivemos e investigamos rigorosamente os maquinistas avistaram os veículos e cumpriram os procedimentos, mas não conseguiram evitar os acidentes por imprudência dos motoristas em 100% dos casos”, sustenta o gerente de Segurança Operacional da FCA, Wellington Amaral.
O gerente de Concessão e Arrendamento da MRS Logística, concessionária da ferrovia onde houve o acidente com o ônibus escolar, também credita ao “motorista imprudente” a causa para os choques. Sérgio Carrato lembra que as composições são longas e pesadas – cada locomotiva tem 200 toneladas – e diz que neste ano foram cinco acidentes desse tipo. Somente em Entre Rios de Minas houve mortos.
“Eles (motoristas) não respeitam a sinalização e insistem em passar antes do trem. Pelo que já apuramos, no caso do ônibus escolar, infelizmente o motorista faleceu, mas ele deveria ter tido mais cautela na transposição da via. Ele conhecia a passagem de nível, trafegava ali havia cinco anos, e pode ter se guiado pela autoconfiança. É comum neblina e falta de visibilidade ao longo do percurso”, argumenta.
ESTADO DE MINAS
Da redação do Plox
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