A música para crianças está “bombando” em Minas. Músicos, educadores, folcloristas e pesquisadores vêm construindo discoteca que amplia e renova, de forma notável, o repertório infantil. Como quem compra discos são os pais, é preciso agradar a eles também. As férias do meio do ano, o mês do folclore (agosto) e a proximidade de outubro, quando se comemora o Dia da Criança, fazem crescer eventos e apresentações voltados para a nova música popular para os baixinhos.

Recentemente, veio para Belo Horizonte o troféu de melhor álbum infantil concedido pelo respeitado Prêmio da Música Brasileira. O vencedor foi o disco Quando eu crescer, do grupo Éramos Três. Foi gravado com equipamentos caseiros, bancado por banda cujos integrantes não têm a música como atividade principal. O disco inteiro foi disponibilizado no endereço www.eramostres.com. “Nosso único compromisso é com a qualidade estética”, afirma o instrumentista Eduardo Borges, produtor musical e gerente de programas de software.
Fazer disco para crianças nem era projeto do Éramos Três. Encantados com as composições de Fernanda Sander, que assina todas as faixas, eles encararam o desafio. “A ideia é criar trabalho musicalmente rico, que valorize a inteligência das crianças. Somos contra o bobinho, o mastigadinho”, afirma a compositora, contando que arranjos, timbres e a seleção das músicas foram caprichados. “São canções para crianças de até 100 anos. Feitas junto com elas e a partir do interesse delas. No disco estão os hits das escolas”, conta Fernanda.

Duo Rodapião está no mercado há oito anos e lançou quatro discos
Os palhaços Frajolla e Mariola, atores e músicos de Salinas, no Vale do Jequitinhonha, moram em Curvelo. Em suas apresentações, eles colocam no palco para brincar de roda não as crianças, mas os pais. Se o show é numa escola, vão os professores lá para a frente. “A criançada delira mais do que quando está no palco”, garante Frajolla. A dupla trabalha o resgate de canções e brincadeiras tradicionais. Já lançou três CDS e dois DVDs (o mais recente é Ao vivo no circo). Mês que vem eles se apresentam em BH.
“A família precisa se conscientizar de que é preciso tirar as crianças do computador, oferecendo a elas esporte, cultura e passeios”, defende Frajolla . “Ninguém, até os 10 anos, precisa de computador. Pelo menos no interior”, garante ele. Os discos da dupla trazem caderno para colorir. Nas apresentações, são vendidos brinquedos educativos e bonecos de mestre Rolim. Ao comentar obras para crianças que dialogam com a cultura popular, Frajolla recomenda aos pais os discos de Rubinho do Vale.
O Duo Rodapião, formado por Miguel Queiroz e Eugênio Tadeu, existe há oito anos. Tem quatro discos: Dois a dois (1997), Pandalelê: brinquedos cantados (2000), Murucututu (2001) e Nigun (2006). Os dois vão ganhar especial da TV Minas. Contam que, “desde os clássicos” (Arca de Noé, de Vinicius de Moraes, e Advinha o que é?, do MPB-4), muita água rolou até se chegar ao Palavra Cantada – formado por Paulo Tatit e Sandra Peres –, referência da música popular para baixinhos contemporânea. “O mérito é buscar caminho diferenciado que respeite a criança, sem infantilização da música, dos arranjos ou das interpretações”, explica Miguel.
O repertório infantil contemporâneo, conta Eugênio Tadeu, vem de três focos: músicos que, ao se tornar pais, compõem canções para os filhos; o pessoal envolvido com educação artística; e pesquisas musicológicas (vários autores têm recriado, com enfoque infantil, material para outros públicos). Essa produção – paralela ao circuito comercial – ganhou público, espaço e respeito atuando junto às escolas.

Paulo Santos chama a atenção para o boca a boca na escola
NA RÁDIO ”Vale a pena ampliar a discoteca, porque há muita coisa nova e de qualidade”, avisa Miguel Queiroz. É ele quem faz o programa Serelepe – uma pitada de música infantil para a Rádio UFMG. Exemplos da discografia mineira vêm dos grupos Catibrum e Curupaco, além dos álbuns Zeropeia, com vários artistas, e Música de brinquedo, do Pato Fu.Também se destacam Cecília Cavaliere, Saulo Sabino, Ana Cristina e Tereza Castro, entre outros. Fora de Minas, chamam a atenção a gaúcha Viviane Beinecker, a baiana Lydia Hortèlio e o pernambucano Antônio Madureira. Na verdade, o fenômeno é nacional.
Projeto Curupaco
O grupo Uakti, importante nome do instrumental brasileiro, também tem o seu “lado B” infantil. O projeto Curupaco já está gravando o terceiro disco. “Como criança não combina com cara fechada e baixo astral, fazer música para elas é ótimo. Comecei quanto nasceu minha filha e fui continuando. É trabalho solto, aberto, carinho que, naturalmente, dá certo. Você acompanha a meninada crescendo”, conta Paulo Santos, parceiro de Décio Ramos no projeto Curupaco.
“Estica e dobra é disco mais infantil, tem aquele clima de pai no parque ensinando a brincar com balanço. O voo do pterodáctilo remete ao momento em que elas começam a aprender palavras difíceis, como pterodáctilo, helicóptero. É a música tomando caminho mais inteligente, mais artístico, deixando de tratar a criança como boba. Como tem o boca a boca na escola, os educadores divulgam e o trabalho acaba ganhando repercussão enorme”, conclui Paulo.
Uai
Da redação do Plox
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