segunda-feira, 22/08/2011

Patrimônio queimado em cachimbos de crack

Apesar de barato - uma pedra custa R$ 10 -, o crack tem um alto poder de destruição financeira. Acaba com economias e extermina o poder de compra de usuários que, antes do vício, eram acostumados a consumir bens caros e frequentar ambientes sofisticados. Na ânsia de sustentar o vício, pessoas de classe média têm queimado todo seu patrimônio em cachimbos improvisados nas "bocas" espalhadas pela cidade.

Casos de gente rica e bem-nascida que acaba atolada no vício do crack chegam às clínicas e comunidades terapêuticas todos os dias. São médicos, advogados, universitários e empresários que, por motivos diversos, só viram saída para o tormento que o crack provoca após se internarem em clínicas que podem cobrar até R$ 30 mil pelo tratamento contra a dependência química. "Quem tem dinheiro vicia ainda mais rápido, porque o acesso é fácil, tem até mototáxi que entrega na porta de casa", afirma o pastor Gervásio Agostinho, 44, ex-usuário que montou uma comunidade terapêutica em Moeda, na região Central. "Temos filhos de empresários e de ocupantes de altos cargos", diz Júlia Pimenta, dona de uma clínica em Unaí, no Noroeste de Minas.

"Nossa clientela é de classe média e alta", afirma o médico Bruno de Castro Costa, diretor da clínica Novos Rumos, em Betim, região metropolitana da capital. Com capacidade para tratar 74 pacientes contra dependência química - a maioria usuária de crack -, a clínica está com lotação máxima. "Temos uma lista de espera de 20 pessoas", diz. Na lista de pacientes internados constam médicos, advogados, farmacêutico e até um bioquímico que aproveitava seus conhecimentos técnicos para fabricar a própria droga.

É em uma dessas clínicas que Luciene Alves Liberato, 51, quer se internar. Por 12 anos, ela trabalhou em uma empresa do ramo industrial e negociava com grandes companhias do ramo. Formada em educação física e letras, chegou a liderar uma equipe no antigo emprego. Moradora de Nova Lima, na região metropolitana da capital, a vida profissional incluía a participação em eventos sociais, festas e coquetéis. Casada e com dois filhos, ela se envolveu em um caso extraconjugal e, em seguida, foi apresentada ao crack pelo amante. Desde então, nunca mais parou de fumar a pedra, o que lhe tirou tudo. "Menos a dignidade e minha filha", diz. A renda de Luciene diminuiu em três vezes, e ela já perdeu mais de R$ 100 mil.

Várias opções e pouca esperança

 

"Eu não conseguia levantar para trabalhar e abandonei o emprego", lembra. Dos bens, restou apenas a casa. Para que não precise ir à rua usar crack, convida viciados e traficantes para fumarem com ela em seu quarto. Apaixonada por literatura, Luciene aproveita o intervalo entre as cachimbadas para ler. "Adoro Manuel Bandeira, e Shakespeare é um anjo", diz. Nas paredes escuras de seu quarto - houve um incêndio acidental há poucos meses -, ela e seus colegas de vício escrevem poesias. "Tenho 3.000. Quero escrever um livro sobre o vício em crack".

O Tempo

 

Da redação do Plox


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