Apesar de toda a euforia em torno do desempenho da economia brasileira, as estradas do país continuam em situação de miséria. Segundo dados do Ministério da Saúde, morrem todos os anos, em média, 38 mil pessoas nas rodovias brasileiras. Boa parte dessa mortandade é provocada por má conservação das estradas, falta de fiscalização, infraestrutura precária, desrespeitos às leis de trânsito, entre outros. O resultado é uma equação devastadora.
Hoje, o Brasil tem uma proporção de uma morte para 690 veículos, enquanto na França é de 1 para 3.000, Suíça 1 para 3.600, Alemanha 1 para 4.200, Estados Unidos 1 para 5.300, Japão 1 para 5.600 e Suécia 1 para 6.900. "Para mudar esse quadro são necessários recursos e empenho político. Só assim o Brasil vai encontrar progresso na área de trânsito", explica J. Pedro Corrêa, especialista em segurança no trânsito e membro do Programa Volvo de Segurança no Trânsito (PVST). Grande parte dos acidentes fatais ocorre pelas más condições e falta de infraestrutura das estradas. É comum trafegar em vias esburacadas e de mão dupla, as mais perigosas. As mudanças, apesar de urgentes, acontecem a passos lentos.

Em 2008, para se ter uma ideia, o governo usou apenas 15,5% dos R$ 3,3 bilhões destinados a manter e recuperar as pistas federais, segundo informou a Confederação Nacional de Transporte (CNT). O resultado da falta de investimentos reflete nas estatísticas. Enquanto a frota brasileira ganhou 24 milhões de carros entre 2001 e 2009 - um aumento de 76% -, as mortes nas estradas brasileiras subiram 47% nos últimos sete anos, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal.
Imprudência. O motorista também tem parcela de culpa nesta média elevada de mortes no trânsito. "Uma das maiores razões dos acidentes nas estradas ainda é o excesso de velocidade", analisa André Horta, analista de segurança viária do Cesvi Brasil. A imprudência dos motoristas que não respeitam os limites de velocidade e as falhas da fiscalização deixam as estradas ainda mais perigosas. "Andar mais devagar é uma meta para diminuir não só o número, mas também a gravidade dos acidentes", alerta Nereide Tolentino, consultora do Programa Volvo de Segurança do Trânsito.
Motoristas precisam adotar uma "cultura de obediência"
Outro ponto crucial, e nem sempre levado em consideração, é o carro do brasileiro. Além de algumas das estradas mais seguras do mundo, a Europa tem carros mais bem equipados no quesito segurança. Por lá, quase 100% dos veículos saem de fábrica com ABS, airbags frontais e laterais e controle eletrônico de estabilidade. Já no Brasil, equipamentos de segurança são tratados como opcionais de luxo. Os motoristas têm de escolher e pagar por eles. Com isso, estimativas do Denatran apontam que apenas 4% dos 49 milhões de carros do Brasil tenham airbag e só 15% contem com ABS. Só em 2009 a Câmara dos Deputados aprovou a lei que obriga todos os modelos nacionais a terem bolsas frontais - mas apenas a partir de 2014. "As fabricantes de veículos também têm sua quota de responsabilidade", alerta Eric Howard, do Banco Mundial. Mudar o cenário catastrófico de milhares de mortes anuais das ruas e estradas brasileiras é algo que demanda tempo. Mas a melhoria da infraestrutura das vias brasileiras e a construção de uma "cultura de obediência" às leis deve começar desde já. "Sem uma cultura de trânsito será impossível mudar esta realidade", conclui J. Pedro Corrêa, do Programa Volvo de Segurança no Trânsito.
O TEMPO
Da redação do Plox
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