segunda-feira, 12/09/2011

Temporais no Sudeste do Brasil vão duplicar

Apesar de Minas Gerais, o Distrito Federal e oito estados terem recebido alerta esta semana do Instituto Nacional de Meteorologia sobre a baixa umidade relativa do ar, que ficou em torno de 20%, por causa da seca e da ausência de chuvas, as trombas d’água de verão podem vir com tudo nos próximos 60 anos. É o que atestam cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), depois de constatarem que o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, nos últimos 20 anos, está aumentando consideravelmente a formação e a intensidade de chuvas, raios, vendavais e granizo.

Nova Friburgo é invadida pelas águas da chuva em janeiro: cena que pode se repetir caso esses locais não se preparem para aumento das tempestades (MARCOS DE PAULA /AE)

E não é só o Rio de Janeiro, que no início do ano enfrentou uma das maiores tragédias causadas por temporais no Brasil, que corre perigo. Todo o Sudeste deverá sofrer com, pelo menos, o dobro de temporais, em relação aos que atualmente atingem a região mais populosa do país. A previsão é de que tais eventos se intensifiquem a cada década, triplicando no litoral e duplicando no interior. Os resultados do estudo, porém, podem ajudarao país a se planejar e minimizar as consequências desses eventos.

A nova pesquisa, realizada em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), traz ainda respostas que os cientistas havia muito tempo buscavam. Não se sabia, por exemplo, por que, no Sudeste, em alguns anos há mais tempestades que em outros. Segundo o trabalho, os temporais em terras paulistas e fluminenses aumentam drasticamente quando ocorre uma conjunção específica entre as temperaturas dos oceanos Atlântico e Pacífico.

Passo a passo

Para chegar a essa conclusão, o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Inpe analisou dados meteorológicos das últimas seis décadas, obtidos das anotações feitas pelas torres de controle dos aeroportos do Rio e de São Paulo. Depois, o grupo contabilizou mês a mês a temperatura média das águas do Pacífico e do Atlântico. As tempestades se concentram nos períodos em que a região do Pacífico próxima à costa do Chile se resfria enquanto o Atlântico registra um comportamento inverso. “Quando esses fenômenos ocorrem simultaneamente, a incidência de tempestades no Sudeste aumenta. Entretanto, quando atuam isoladamente, seus efeitos não são tão significativos”, explica Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat e da pesquisa.

De acordo com o engenheiro eletrônico, entre 1990 e 2010, o Atlântico teve um aquecimento médio da ordem de 0,60C, acompanhando o aumento de temperatura do planeta, da ordem de 0,80C. “Se a temperatura do Atlântico continuar subindo na taxa atual e o Pacífico mantiver sua temperatura – o que é esperado, a partir dos dados existentes –, estimamos que, em 2070, o número médio de tempestades no Sudeste será duas vezes maior em relação ao número atual, sendo que nas regiões litorâneas deverá ser três vezes maior”, prevê Pinto Júnior.

Nas três cidades estudadas, São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas, a mesma tendência de aumento das tempestades para essa combinação das temperaturas dos oceanos foi verificada com um grau de confiabilidade superior a 99%. Em Campinas, no mesmo período de tempo em que os dados sobre o aquecimento do Atlântico foram obtidos – nos últimos 20 anos –, o número de temporais subiu 30%. “Um índice considerado altíssimo e que pede estudos mais específicos sobre os oceanos”, afirma Hilton Silveira Pinto, diretor do Centro de Pesquisas Meteorológicas para a Agricultura da Universidade Estadual de Campinas.

Efeito estufa

Embora ainda haja cientistas que veem as mudanças climáticas como um fenômeno natural, sem influência da ação humana, os dados existentes sugerem que as águas superficiais do Atlântico estejam se aquecendo em um ritmo maior por conta do efeito estufa. “Se as emissões de gases de efeito estufa continuarem como estão, o Atlântico vai se aquecer bem mais cedo do que as previsões feitas em nosso estudo”, alerta Earle Williams, do MIT.

A equação é bem simples: mais calor sobre o oceano faz com que a água se evapore mais rapidamente e com maior intensidade, provocando um número maior de nuvens pesadas. O resultado são temporais mais intensos e frequentes. Na prática, porém, as coisas são bem mais complicadas, já que a massa de água que recobre 71% da Terra forma conexões complexas com a atmosfera ainda não compreendidas totalmente pela ciência. Os modelos climáticos utilizados no mundo estão longe de reproduzir a realidade que ocorre no planeta. “É como se estivéssemos usando uma pedra para cortar carne, em vez de uma faca. Ainda precisamos de décadas para desenvolver modelos climáticos que tragam a realidade dessas conexões”, esclarece Pinto Júnior.

Contudo, o coordenador do Elat enfatiza que os resultados da pesquisa comprovam a relação entre o aumento de temperatura das águas do Atlântico e a ocorrência das tempestades. “Não importa a causa. O que importa, agora, é tomar decisões que possam evitar maiores danos futuros”, aponta. E a prevenção é necessária. O cenário futuro, segundo os especialistas, não é nada animador. No Rio de Janeiro, as tempestades dependem dos humores do oceano. Se, por um lado, o mar tende a minimizar o problema das enchentes, por outro, a intensidade da chuva e sua frequência provocam tragédias nas regiões de encostas desmatadas. “O resultado será o triplo de temporais na região, por influência direta do mar”, diz Pinto Júnior.

No estado de São Paulo, a situação é agravada pela poluição. As altas emissões de CO2 e outros gases tóxicos provocam o aumento de nuvens pesadas. O resultado é um volume maior de chuva em menos tempo e alta incidência de raios. “No caso de São Paulo, o crescimento da cidade torna difícil apontar o responsável pelos temporais”, acrescenta. “De qualquer maneira, essas tempestades são provocadas pela ação do homem”, ressalta Pinto Júnior. Até 2012, o estudo deve ser estendido para o restante do país.

Estado de Minas

 

Da redação do Plox


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