sexta-feira, 19/08/2011

Chimpanzés revelam como a generosidade humana surgiu

Quando tratamos da evolução dos humanos, muito depende da bondade de estranhos. Nossa espécie é especialmente cooperativa. Rotineiramente, ajudamos uns aos outros - tanto parentes quanto desconhecidos - mesmo quando não há uma recompensa em vista. A preocupação que os humanos têm uns com os outros faz parte da fundação de sociedades complexas, desde bairros até nações.

Há muito tempo cientistas se perguntam qual foi o ponto inicial do desenvolvimento do nosso comportamento pró-social. Em uma pesquisa publicada recentemente na Academia Nacional de Ciências nos Estados Unidos, um grupo de cientistas da Emory University abordou esse tema a partir de um estudo com chimpanzés, um de nossos parentes mais próximos.

Ao contrário do que testes de laboratório haviam sugerido anteriormente, os pesquisadores da Universidade de Emory concluíram que os chimpanzés são, sim, dispostos a fazerem favores uns aos outros. Nosso comportamento pró-social pode, portanto, ter surgido há milhões de anos.

Segundo Brian Hare, antropologista na Duke University, os resultados do estudo sugerem que os chimpanzés podem ser proativos na ajuda a pares simplesmente porque eles entendem que os colegas precisam da ajuda.

Os pesquisadores da Universidade de Emory decidiram se concentrar nesse tema devido a uma contradição na literatura científica. Alguns exames de laboratório realizados com chimpanzés falharam na tentativa em mostrar a disposição em ajudar nesses animais, mas primatologistas que observaram o comportamento dos macacos em seu habitat natural presenciaram diversos exemplos de comportamento que podem ser classificados como "ajuda".

A pesquisadora e principal autora do estudo, Victoria Horner, e seus colegas suspeitaram de que as condições dos exames de laboratório poderiam ter sido complexas demais para a compreensão dos chimpanzés. "Parecia que eles não entendiam o que os cientistas pediam", afirma.

Assim, a equipe desenvolveu um teste que, acreditam, é mais simples e compreensível para os animais.

Segundo Victoria Horner, esse estudo encaixa nas pesquisas realizadas em campo, comprovando que os primatas já exibiam traços de generosidade. Ela especula que a generosidade humana tenha sido desenvolvida a partir de influências como as sofridas nesse estudo pelos chimpanzés, agora que a probabilidade de "ajuda" cresceu em nossos ancestrais. Além disso, para a pesquisadora, vale lembrar que não se deve concentrar na descrença de que os humanos tenham uma habilidade única e, sim, na variedade de situações em que essa habilidade ocorre.

 

Cientistas discordam do ato pró-social

Nova York. Diversos especialistas consideraram a pesquisa um marco nos estudos comportamentais. Segundo Christophe Boesch, primatologista no Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista na Alemanha, pela primeira vez foi possível duplicar em laboratório um comportamento já conhecido pelos pesquisadores de campo.

Entretanto, outro pesquisador do mesmo instituto, Michael Tomasello, acredita que o estudo possa ter sido mal elaborado. Ele ressalta que os pesquisadores trabalharam com o grupo de controle após o experimento inicial, e os chimpanzés poderiam estar cansados de escolher entre as fichas, o que invalida a veracidade dos resultados.

Tomasello e seus colegas publicaram um outro estudo cuja conclusão diverge, em parte, daquela elaborada pela equipe de Victoria Horner: "Os chimpanzés se entreajudam, sim, mas o que fazem não é abrir mão da própria comida para que outros possam comer", afirma o pesquisador. Portanto, "Eles são pró-sociais quando isso não gera custos para eles mesmos. Quando há penas, aí nem tanto".

 


Ajuda. Pesquisa avaliou o comportamento de sete fêmeas, que teriam a chance de ajudar seus colegas

Teste com oferta de comida

Nova york. Em um estudo anterior, os cientistas haviam treinado os chimpanzés a entregar algumas fichas coloridas em troca de comida. Para a pesquisa atual, eles utilizaram as mesmas fichas para avaliar o comportamento de sete fêmeas, que teriam a chance de ajudar seus colegas a também ganhar comida.

Em cada teste, um par de chimpanzés sentou-se próximo um a outro, podendo ver o companheiro em jaulas adjuntas. Elas receberam 30 fichas, metade em uma cor, e a outra metade de outra cor. Se a fêmea entregasse aos cientistas a ficha da cor "x", ela ganharia um pacote de comida e seu parceiro não ganharia nada. Se entregasse a ficha da cor "y", ambos receberam comida.

Se os chimpanzés não se importassem com o bem estar do próximo, eles escolheriam ambas as cores de ficha, sem preferências. Mas isso não foi o que aconteceu. Todas as primatas preferiram a ficha da cor generosa (66,7% das vezes). Os cientistas mantiveram ainda um grupo de controle, em que os animais ganhavam comida apenas para si mesmos, independentemente da cor escolhida.

O Tempo

 

Da redação do Plox

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