A gestação, o parto e os cuidados com a primeira infância preparam o ser humano para a vida. O bom desenvolvimento físico, psíquico e social da criança depende em grande parte dos cuidados dispensados nesta fase, isto é, da atenção, nutrição, estimulação adequada, acolhimento, compreensão e carinho.
Mas como dosar essa estimulação e cuidados sem perder o controle? Para ajudar os pais, convidamos Cláudia Fernanda Venelli Razuk, coordenadora do Colégio Itatiaia – tradicional escola paulistana que há 28 anos trabalha com crianças e adolescentes do berçário ao ensino fundamental, para falar um pouco mais sobre o assunto. Confira:
Em pleno século 21, quando há muita informação para as crianças e muita concorrência no mercado de trabalho, observo freqüentemente pais preocupados em estimular ao máximo seus filhos, como que preparando-os para uma vida adulta competitiva e frenética.
Os estímulos são, sim, muito importantes para a formação da criança e quanto mais, melhor. A questão é que há uma grande confusão sobre como, quanto, quando e o quê estimular. É importante o cuidado para não pular “fases”, antecipando aprendizagens, comportamentos e abreviando etapas importantes da infância, como o “brincar”.
Há uma busca pelos estímulos envolvendo “conteúdos escolares” como pais querendo antecipar a alfabetização, por exemplo, que sentam em casa com seus filhos e “brincam” de ensinar e aprender letras...
Pode até ser válido, se o interesse da criança for genuíno e se a situação não for forçada. Mas não é isso que garantirá a excelência no desenvolvimento de seu filho, visto que essa situação apenas antecipa algo que acontecerá naturalmente.
Tenham em mente, papais e mamães, que este tipo de ensino cabe à escola, que se bem escolhida, o fará com grande competência.O estímulo adequado deve enfocar “vivências” importantes, principalmente as que são menos acessíveis no dia a dia dos pequenos.

Deve-se pensar em passeios ligados à natureza para a criança que mora em apartamento. Outros envolvendo convívios sociais para o filho único ou a criança que ainda não vai à escola. Passeios a livrarias e exposições despertam a curiosidade pela leitura e pelas artes plásticas. Explorar as idas ao supermercado é excelente, quando a criança participa do processo de organização da lista, da escolha dos produtos e até, dependendo da idade, de comparação de preços.
Sentar com seu filho para a disputa de jogos de tabuleiro, que em suas variedades atingem todas as idades e objetivos pedagógicos, é muito bom, pois além do estímulo próprio de cada jogo, ainda permitem momentos agradáveis de união familiar. Que tal convidar seu melhor amigo e toda a família para um almoço em um restaurante que ofereça uma culinária diferente, como a tailandesa, por exemplo?
É uma forma de conhecer um pouco da cultura do país, além de estimular o paladar experimentando novos sabores. Viagens a lugares diferentes também oferecem muita riqueza de informações. Incentive seu filho a ter autonomia, ser independente, seguro, ter iniciativa, saber lidar com os erros, pois estes o ensinarão a acertar. A ser forte na medida certa, mas também saber aceitar quando necessitar de ajuda.
Estimule-o a participar das situações do dia a dia pensando em formas variadas de solucionar pequenos problemas: “Puxa, a torneira está pingando muito, como poderemos resolver isso? Não tem leite para colocar no bolo, e agora?”. Vivenciando essas situações, ele criará o hábito de procurar pensar de várias formas e tentar resolver as situações com praticidade, flexibilidade e criatividade – que é o que se espera de um profissional do século 21 no mercado de trabalho!
Tudo isso se faz nas situações de rotina. Na era da Internet, o conhecimento chegará naturalmente a seu filho, mas as atitudes é que o conduzirão pela vida. A própria criança vai demonstrar, no dia a dia, suas capacidades. Não a subestime, mas também não force situações.
Observe, respeite, mas não compare com outras crianças. Se necessário, pesquise sobre cada etapa de aprendizagem. Em um ambiente de amor e estímulos adequados, com pais presentes dando carinho e mensagens de incentivo, a criança evoluirá naturalmente. Escolha atividades que sejam gratificantes para toda a família, que dêem prazer, pense que deve ser algo que “faça a diferença”.

Agora pense e não esqueça: quando foi a última vez que seu filho tomou um banho de chuva em um dia de verão? E quando foi que vocês prepararam um bolo juntos? Já subiu em uma árvore ou confeccionou e soltou uma pipa? Não esqueça que seus filhos, na correria do dia a dia e na busca incessante por estímulos, podem estar perdendo momentos importantes dos primeiros anos de vida, pois eles precisam brincar! E certas brincadeiras ensinam mais que mil letrinhas!
Estimule, sim, mas sem perder de foco a beleza da infância.