segunda-feira, 13/06/2011

Nem todos os estabelecimentos estão aptos a fazer tatuagens

Vários são os motivos que levam uma pessoa a fazer tatuagem: chamar a atenção, homenagear entes queridos ou representar algum acontecimento importante, entre outros. No entanto, é preciso tomar cuidado antes de marcar a pele. Afinal, ela é uma lesão feita na derme e que pode causar sérios problemas de saúde se as devidas precauções não forem tomadas.

Para evitar futuros descontentamentos, o dermatologista Marcelo Brollo – membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia – recomenda que o indivíduo procure um médico especializado na saúde da pele para checar se possui predisposição a alguma complicação depois de feita a tatuagem. “O indivíduo que apresente histórico de quelóides, alergia a alguma substância presente nas tintas, doenças ou uso de medicações que alterem a coagulação do sangue deve evitar fazer”, alerta. Segundo o especialista, a tinta de pigmentação avermelhada – cuja composição é à base de mercúrio – representa a causa mais comum de reações alérgicas. As pessoas que já tiveram câncer de pele ou possuem algum caso da doença na família também devem ficar atentas. “Há alguns casos na literatura médica de tumores benignos e malignos surgindo sobre tatuagens”, relata.

De acordo com Brollo, do ponto de vista médico não há idade mínima para a pessoa se tatuar. Mas ele recomenda que a decisão aconteça a partir da fase adulta, também por causas ligadas à maturidade e possível arrependimento. “A maioria das pessoas que procuram o dermatologista para remoção de tatuagens as fez na adolescência”. Vale lembrar, também, que de acordo com a Lei Distrital 1.581/97, menores de idade em Brasília precisam de autorização dos pais para fazer tatuagem.

Além da consulta prévia, outras precauções devem ser tomadas por quem deseja pigmentar a derme. A primeira é verificar se o estabelecimento tem as condições sanitárias e estruturais necessárias. A auditora em Vigilância Sanitária da Saúde Pública brasiliense Maria das Graças Britto dá algumas dicas do que um estúdio de tatuagem deve ter. “O usuário deve observar se há separação entre a área de recepção e o local onde se tatua, espaço de atendimento com lavatório exclusivo para a lavagem das mãos, pia com bancada para reprocessamento dos artigos e equipamentos e material descartável obrigatório como os batoques – copinhos onde se fracionam as tintas”. Ele ainda lembra que o tatuador deve usar óculos de proteção, máscaras, luvas e avental.

Segundo Maria das Graças Britto, as normas foram criadas a partir de demandas surgidas no âmbito da vigilância sanitária , ou seja, da necessidade de monitorar a qualidade desses procedimentos, os quais há pouco tempo eram praticados à margem da sociedade e sem qualquer profissionalismo. A recente legislação utilizada para a realização das inspeções é o Código Sanitário do DF, Lei Distrital 4.398 de 27 de agosto de 2009 (ainda não regulamentada), Protocolo das Ações e Superfícies em Estabelecimentos de Saúde. “No Distrito Federal, a publicação da lei foi permeada por um processo de participação coletiva envolvendo os principais atores: trabalhadores da área, profissionais de vigilância sanitária, usuários e políticos”, conta.

A equipe de reportagem do Saúde Plena foi à Ceilândia e Taguatinga – cidades satélites do Distrito Federal – para verificar se os estúdios de tatuagem de lá estavam de acordo com essas normas. Apesar de grande parte dos lugares visitados estar dentro dos padrões estabelecidos pela vigilância sanitária, dois locais chamaram atenção.

Sujeira e irresponsabilidade

Situado à QNN 4– Ceilândia Sul, o estúdio fica em um prédio cuja entrada é uma porta minúscula e mal se pode ver a sinalização do estabelecimento. Ao chegar perto das escadas, o repórter é abordado por um indivíduo de longos dreadlocks, olhos vermelhos e um forte cheiro de maconha. “Opa! Sobe aí! Me espera lá em cima que eu já subo para lhe atender”, falou o rapaz. Enquanto o jornalista esperava na sala de espera, perguntou a outro funcionário do local se eles possuíam licença da vigilância sanitária para funcionar. Demonstrando-se confuso, o homem perguntou a um colega de trabalho que tatuava um cliente: “A gente possui licença da vigilância sanitária?”. Imediatamente o rapaz dentro da sala começou a gritar: “Não, não! Não é bem assim!”. Aparentando estar mais confuso ainda, o funcionário que fez a pergunta parece inventar uma justificativa sem muita coerência. “Ah, não tem ainda por causa daquele negócio lá que querem aprovar e obriga a gente ter um médico ou farmacêutico dentro do estúdio, né?”. Logo após acrescentou: “O que importa é a arte, né?”. De acordo com Maria das Graças essa afirmação está errada. Ela informou que, para um estúdio funcionar, os donos devem conseguir, sim, uma licença junto à Vigilância Sanitária. Isso está definido no novo Código Sanitário, aprovado em dezembro de 2010. Logo após, a auditora adicionou que em Brasília não há nenhuma regra que exija farmacêutico dentro do estabelecimento.

O outro estabelecimento suspeito é no centro de Taguatinga, no edifício Techmeier, ao lado do Banco do Brasil. Curioso é como este estabelecimento foi descoberto. O repórter andava pelo centro de Taguatinga, quando avistou uma placa onde estava escrito: “Tatuagem de Henna”. O jornalista resolveu perguntar a um homem que estava montando uma barraca logo em frente: “Vocês fazem tatuagem permanente também?”. Após ter recebido uma resposta positiva, foi levado até o local onde o procedimento é realizado.

As escadas estavam sujas. Os tetos mais ainda. Ao chegar ao estúdio – minúsculo por sinal - o jornalista sentou em um sofá encoberto por uma capa alaranjada, sobre a qual acumulava muita poeira. No entanto, o que chamou mais a atenção foi o fato de a cama onde o cliente se deita para fazer a tatuagem pegava sol e ficava perto de uma janela tão empoeirada e suja que mal se conseguia ver através dela. Ao ser perguntado se tinha licença para funcionar, o dono do estúdio respondeu apenas um “sim”.

Neste estabelecimento, o preço base cobrado era de R$ 70. Bastante inferior quando comparado com outros locais. De acordo com Christiano Romão - tatuador profissional há 21 anos e dono de um estúdio também em Taguatinga – preço é um indicativo de como é a qualidade do serviço de um tatuador. “Bem, preço é uma coisa que cada produto tem o seu. Se o cliente paga por um Fusca, ele não vai andar de Ferrari! Isso é claro”, comparou. O profissional explicou também que a habilidade em tatuar só vem com o tempo, e que isso também deve ser observado. “Só o tempo qualifica um tatuador. Não existe escola de tatuagem. Nem mesmo a profissão é regularizada. Tem 21 anos que faço tatuagens, e todo dia aprendo técnicas novas”, contou.

Doenças

São vários os riscos que uma pessoa corre se ela não ficar atenta aos pré-requisitos citados anteriormente. Segundo Brollo, quando as normas da vigilância sanitária não são seguidas, há risco de contaminação por doenças como HIV e Hepatite C. “Além disso, podem ocorrer cicatrizes, quelóides, infecção da ferida e processos alérgicos”, acrescentou o dermatologista.

Depois da tatuagem

Os cuidados não param depois do procedimento realizado. De acordo com Marcelo Brollo, eles devem ser os mesmos para qualquer ferida aberta. “Nos primeiros dias deve-se limpar com soluções ou sabonetes anti-sépticos, utilizar cremes antibióticos e curativos adequados. Também se deve evitar o atrito e remoção das crostas – ‘casquinhas’”, explicou o médico. Ele sugeriu ainda que, até a cicatrização estar completa, não é indicado tomar banho de mar, piscina ou freqüentar saunas, devido ao risco de contaminação. “Outro cuidado fundamental é a proteção solar constante. Nos primeiros dias utiliza-se proteção física apenas (roupas e curativos), e, após a queda das crostas, pode-se iniciar o filtro solar”, complementou. O médico informou ainda que não é indicado fumar ou tomar remédios que influenciem a coagulação do sangue, pois dessa forma a cicatrização pode ser mais demorada. Como exemplo de medicamentos, Brollo citou os seguintes: isotretinoina oral (roacutan), aspirina e outros antiinflamatórios, cumarínicos, prednisona em altas doses, entre outros.

Saúde Plena

 

Da redação do Plox

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