segunda-feira, 31/08/2009

Roubar na infância não faz de seu filho um criminoso

O comportamento pode parecer assustador, mas é natural; saiba o que fazer e entenda quando é preciso procurar ajuda

Quando um pai preocupado me perguntou sobre uma criança que tinha roubado algo, eu tinha algumas respostas – porque eu já tinha sido um pai preocupado e perguntado ao meu próprio pediatra.

Na nossa casa, tínhamos passado pelo processo comum, mas não tinha ideia de quão comum era. Primeiro a indagação casual: “você pegou dinheiro da minha carteira?”. Depois, o maço de notas acidentalmente descoberto no quarto da criança de 7 anos. A preocupação, as questões, a dúvida: como lidar com isso? O que isso significa? Isso nos diz algo sobre o caráter de nosso filho que não sabemos? Sobre nós mesmos? Há alguma coisa errada mesmo?

“A maioria das crianças vai pegar alguma coisa um dia”, diz a Dra. Barbara Howard, animadamente.

Howard é professora-assistente de pediatria na Faculdade de Medicina Johns Hopkins, e alguns anos após a minha crise familiar, participei de uma conversa educacional com ela para pediatras sobre comportamento e desenvolvimento. Roubar foi incluído ao lado de problemas como sono, explosão de raiva e todo o resto.

A doutora explica que uma criança de 2 anos que pega algo vai ser entendida, por qualquer pai com uma cabeça razoavelmente aberta sobre desenvolvimento infantil, como não sendo boa para compartilhar, em vez de um ladrão. Eu vejo, quero, pego, é meu.
Estabelecer limites é grande parte de tomar conta dos filhos dessa idade. O pai deve orientar que nem tudo que a criança quer se torna dela, e se apoderar das coisas dos outros não é certo.

Mas e quanto a crianças mais velhas, entre 5 e 7 anos, que sabem claramente as regras e pegam algo de outra criança, na sala de aula ou até em uma loja – a criança que faz algum esforço para esconder os itens furtados, e quando confrontada, talvez negue completamente o crime?
Isso se mostra, mais uma vez, extremamente comum. Tive uma paciente de 6 anos cuja mãe chorava ao mencionar a palavra furto na frente da filha, que tinha saído de uma loja, acredito, com um acessório de cabelo.

Mas no nível do desenvolvimento, há algo mais complexo acontecendo.

“A próxima fase é uma etapa de teste”, diz a doutora Howard. “As crianças estão tentando descobrir o que acontece quando são pegas, e um dos maiores problemas é se você não as pega. Estão tentando descobrir quais são as regras, e se ninguém as pegar e disser, ‘Isso é errado, você tem que devolver ou pagar’, elas não sentem que estão sendo supervisionadas apropriadamente”.

O Dr. Martin T. Stein, outro especialista em comportamento e desenvolvimento, e professor de pediatria da Universidade da Califórnia San Diego/Hospital Infantil Rady, usou uma frase preferida dos pediatras para as crianças de 5 a 8 anos que roubam: “É um momento de aprendizado concreto”, afirmou.
É seu papel, como mãe, conversar sobre os padrões e comportamento ético, e tornar esses conceitos reais ao pedir para que a criança se desculpe e faça a restituição. “É uma grande oportunidade”, disse Stein, “e passa a mensagem de que roubar não é um comportamento adequado e não é algo com o que concordamos”.

“Roubo simbólico”

Mais preocupante é uma criança que rouba por motivos menos óbvios. Um enfeite de cabelo que ela imagina brilhando em seu rabo de cavalo ou o brinquedo de outra criança que ela inveja – esse tipo de roubo, enquanto precisa ser discutido e corrigido, é menos perturbador que o chamado roubo simbólico.

Uma criança irritada pode roubar a posse de alguém e destruí-la – jogar uma joia da mamãe na privada, ou queimar um projeto especial do irmão. Uma criança que está preocupada com o desempenho escolar pode roubar algo da superestrela da sala.

Uma criança que continua pegando coisas é uma criança com um problema e, à medida que envelhece, tudo isso se torna bem mais sério. Se uma criança na escola está roubando dinheiro, você tem que se preocupar, desde já, com drogas e álcool e outras influências na vida dessa criança.

E quanto a comportamento realmente antissocial? Uma criança que rouba não tem a ver com o equivalente a atiçar fogo ou torturar animais ou nenhum outro prospecto assustador que passam pela mente de alguns pais no primeiro momento em que a veem roubando. Em contrapartida, um padrão de roubos sem qualquer remorso pode marcar um problema sério – e essa criança precisa de ajuda imediatamente.

Nada incomum

Mas os pais da maioria das crianças podem ficar confiantes de que roubar é um comportamento bem rotineiro. “Pode ser incomum a uma criança passar pela infância sem roubar nada, apesar de os pais não saberem”, disse Stein.

Uma vez que você descobre, afirma Howard, não é preciso fazer como alguns pais e correr para organizar um passeio “corretivo assustador” pelas instituições de correção, para mostrar a alguém de 7 anos aonde a vida do crime leva.

“Elas precisam ser impedidas, elas precisam pagar o preço e precisam se desculpar”, diz a especialista, “mas não devem ser levadas para o presídio ou tratadas como se estivessem destinadas a ser criminosas para sempre”.

Então o ônus está sobre nós – os pais – para atingir o equilíbrio certo. “Geralmente o pai fica humilhado ou envergonhado, ele não quer falar para ninguém sobre o roubo do filho”, afirmou Howard. “Fazer muito e fazer pouco é algo ruim”.

Portanto, quando achamos o dinheiro roubado, perguntei para o meu pediatra, que me disse, gentilmente, que isso era estritamente rotineiro. Ele me orientou a encarar o episódio com seriedade, falar sobre as consequências, extrair uma desculpa – mas não agir como se achasse que meu filho é um criminoso.
O que foi exatamente aquilo que disse ao primeiro pai que me perguntou isso no consultório, e a todos os pais que vieram depois.

Ig

 

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