segunda-feira, 06/09/2010

SE: Assentados integram projeto de revitalização do rio São Francisco

Em meio à fumaça produzida pelo defumador e ao ataque feroz de milhares de abelhas, um pequeno grupo de agricultores realiza sem pressa seu trabalho diário. Abrindo cuidadosamente, uma a uma, dezenas de caixas de madeira, alimentam enxames e iniciam, aos poucos, a coleta do produto que vem ajudando a ampliar a renda familiar e a recuperar rios e matas da região.

Integrados a um trabalho implementado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) em Sergipe, o grupo assentado pelo Incra no projeto Caraíbas, em Japaratuba (distante 60 quilômetros de Aracaju ), se transformou há quatro anos em uma verdadeira brigada verde, realizando ações de reflorestamento dentro e fora do assentamento. “Nós já plantamos mais de 50 mil mudas em áreas degradadas do assentamento e de algumas fazendas aqui da região”, contou Natalino da Silva Santos, de 29 anos, membro do grupo.

Por meio do projeto Doces Matas, os agricultores foram apresentados à apicultura, receberam caixas para o desenvolvimento das colméias e equipamentos para o início da atividade produtiva e foram capacitados em cursos e oficinas oferecidas pela Codevasf e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Nós fizemos um curso de três dias e recebemos os macacões, as botas, as luvas, as caixas e todo o material para começar as criações”, contou a assentada Cândida Maria da Silva, de 49 anos.

Contrapartida ligada a preservação

Pelo projeto, integrado ao programa de revitalização do rio São Francisco, como contrapartida ao incentivo para o início do trabalho com a apicultura, os agricultores recebem noções de educação ambiental e passam a integrar equipes responsáveis pelo plantio de mudas e a recuperação de matas ciliares. “Começamos o plantio recuperando uma parte da área de reserva do assentamento, que tinha sido degradada antes da nossa chegada. Agora, já faz quatro anos que a gente vem fazendo essas ações, recuperando, especialmente, a mata da margem do rio que passa por aqui”, afirmou dona Cândida.

Integrante da bacia do São Francisco, o rio Poxim, que passa próximo ao assentamento, é o alvo principal das ações ambientais do grupo. No seu entorno, nos últimos anos, foram plantadas por meio do Doces Matas milhares de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, que, aos poucos, vão ajudando a mudar a paisagem e a combater a degradação rio. “É um trabalho que a gente faz de coração. A gente sabe que sem mata não há água, nem vida. Plantando, a gente protege os rios e isso é fundamental para as abelhas, para nós e, principalmente, para os nossos filhos”, avaliou a agricultora.

Aliança entre apicultura e meio ambiente

Além das ações de plantio de mudas, o próprio trabalho com a apicultura estimula a preservação ambiental entre os assentados. “As abelhas precisam de sombra e de mata para buscarem seus alimentos. Só assim elas conseguem produzir o mel que é tão importante para a gente”, explicou Eliene dos Santos, de 37 anos, integrante do grupo de apicultores do Caraíbas.

Com o desenvolvimento de uma atividade produtiva que exige a manutenção de áreas verdes, o grupo se transformou em referência de preservação ambiental na região. “A gente não mexe na mata e nem deixa ninguém mexer. Por isso, já fomos elogiados e recebemos até convite para fazer a recuperação de uma área em uma fazenda aqui perto”, contou dona Cândida.

Membro do grupo de apicultores desde a implantação do Doces Matas no assentamento, ela conta que além de ajudar a mudar a paisagem do local, o projeto também vem alcançando seu objetivo inicial, contribuindo para a melhoria da renda das famílias. ”É um trabalho que exige muita dedicação, mas que oferece uma chance para a gente conseguir um dinheiro a mais para colocar dentro de casa”, afirmou.

Mesmo enfrentando dificuldades, como o envenenamento de parte das colméias pelo agrotóxico empregado nas plantações de cana-de-açúcar que cercam o assentamento, na fase inicial do trabalho, em 2009, o grupo alcançou uma produção de cerca de 600 quilos de mel.

O produto, de boa qualidade, foi vendido rapidamente em feiras realizadas em Japaratuba e em outras cidades da região, gerando uma renda complementar que estimulou a continuidade dos trabalhos. “O resultado do ano passado foi bom, mesmo com os problemas que a gente teve. Agora, este ano, os enxames estão melhores e a gente espera conseguir tirar ainda mais mel”, afirmou Eliene.

A coleta do mel produzido no assentamento começa no início de setembro e se encerra em abril do próximo ano.

Apoio e planos para o futuro

Para alavancar a apicultura entre as famílias assentadas, o projeto Doces Matas implantou em agosto do ano passado uma unidade móvel para o beneficiamento do mel no próprio assentamento.

A unidade, totalmente equipada, permite que os trabalhadores realizem quase todo o processo de preparação do mel no local, facilitando a vida dos produtores. “Essa unidade de beneficiamento facilitou muito a vida da gente, porque agora a gente faz tudo aqui mesmo e só precisa sair para fazer o envasamento”, comentou Eliene.

Além da nova unidade de beneficiamento no projeto Caraíbas, os apicultores aguardam a inauguração de uma Casa do Mel, instalada no povoado de Porteiras, vizinho ao assentamento. A Casa, fechada há alguns meses para reforma, será adequada aos padrões sanitários exigidos por lei e receberá todo o mel produzido pelos assentados e demais apicultores da região. “Com a Casa do Mel renovada, nós vamos conseguir embalar o nosso produto e deixá-lo regulamentado. A partir daí, vamos poder vender para a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento)”, afirmou Santos.

Para aumentar a produção de mel e ampliar a renda familiar, ele e os companheiros de assentamento fazem planos e contam com o apoio importante da Política Nacional de Reforma Agrária. “Hoje eu tenho 19 caixas para criar os enxames, mas, se Deus quiser, espero em mais dois anos chegar a 100 caixas. Eu pretendo usar parte do dinheiro do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) para fazer essa criação crescer ainda mais”, contou.

Em todo o assentamento Caraíbas, 13 agricultores e agricultoras já aderiram ao projeto Doces Matas e outros 20 aguardam a realização de um novo curso de capacitação nos próximos meses para também se integrarem ao trabalho.

Assessoria de Comunicação Social MDA/Incra

Da redação do Plox

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