segunda-feira, 06/09/2010

Eleição tem holofotes externos

 Prognósticos são positivos e separam crescimento do país da disputa partidária

O estereótipo do samba, mulatas e Carnaval ainda existe, mas, aos poucos, a imagem do Brasil no exterior começa a ser associada também a expressões como "líder de um bloco emergente", "conciliador de conflitos" e até "potência da próxima década". E, se nos últimos anos, aumentou a participação do Brasil no cenário internacional, cresceu também a preocupação do resto do planeta sobre o que acontece em nosso país, já que, em tempos globalizados, as ações daqui também refletem lá. Com a proximidade das eleições presidenciais, a imprensa internacional apontou seus microfones em direção ao Brasil e intensificou a exposição internacional do país. Segundo pesquisa da agência de comunicação Imagem Corporativa, aumentou em 65% o número de reportagens no exterior citando o Brasil no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado - de 671 para 1.111, sendo que dessas, 82% são positivas.

De acordo com o professor de política internacional da PUC Minas Rodrigo Ghizi, a projeção internacional do Brasil é justificada pelo interesse que os países têm em ver o Brasil exercer cada vez mais a sua liderança. "Somos a democracia mais consolidada da América Latina e que garante a estabilidade política e econômica do continente. Com a perspectiva de um crescimento quase chinês para os próximos anos, a tendência é sermos cada vez mais atuantes no jogo mundial", diz. Essa também é a opinião de correspondentes estrangeiros que trabalham no país.
Para ele, há pouca diferença programática entre os dois principais candidatos à Presidência, José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), e que, independentemente do resultado das urnas, o protagonismo do país nos próximos anos é inevitável.

Mac Margolis, correspondente no Brasil da "Newsweek", está fechando para o periódico norte-americano uma matéria que analisa a atual situação política do país. Em entrevista a O TEMPO, ele disse que os riscos do resultado da próxima eleição são mais internos do que externos. "O embate ideológico entre PT e PSDB existe por razões políticas, mas não existem muitas diferenças programáticas entre os dois partidos. O grande problema desta eleição no Brasil é o fim da oposição e o risco de o Brasil ficar sem o equilíbrio das forças políticas, numa eventual vitória de Dilma Rousseff", alega.

O jornalista se disse impressionado com a capacidade do presidente Lula de transferir votos, mas afirma que é preciso também considerar a "falta de rumo" da oposição para o grande crescimento de Dilma nas pesquisas. "Sem dúvida, Lula é um político sem precedentes e com um carisma enorme, mas a oposição ficou perdida e sem identidade. Por isso, ele deve conseguir eleger sua escolhida", opinou, já considerando a vitória da petista.

Para o ex-correspondente do "The New York Times" Larry Rother, a oposição demorou a se definir e perdeu terreno importante. Em entrevista à revista "Época", Larry Rother disse que "Serra demorou demais para confirmar a candidatura. E a escolha do vice foi desastrosa". Ele considera que esse foi o 16º ano de governo FHC e que não existem mais diferenças ideológicas entre PT e PSDB. Por essa razão, segundo Mac Margolis, o mercado não teme o resultado das eleições no Brasil, "embora Dilma pareça ser um pouco mais autoritária", disse.

Emergente. O norte-americano e correspondente da rede árabe de TV Al Jazeera, Gabriel Elizondo, disse em entrevista a O TEMPO que o interesse do povo muçulmano pelas eleições no Brasil está no fato de o país ser uma liderança emergente dos países pobres.

"É um país da metade sul do mundo que ganha muita importância internacional, principalmente pelo carisma e popularidade mundial do presidente Lula", analisa o correspondente da rede árabe.

Imprensa vizinha tem opiniões diferentes

Os vizinhos latino-americanos ainda dão pouco destaque para as eleições no Brasil. O jornal argentino "Clarin" disse em recente matéria que o empresariado brasileiro quer "a garantia da continuidade da política econômica de Lula", que teria proporcionado lucros recordes para empresários e bancários.

O também argentino "La Nacion" acha que a disputa será polarizada entre o "modelo do ex-presidente FHC" e o "modelo Lula", mas enfatiza que um não poderia existir sem o outro.
O jornal direitista chileno "La Tercera" publicou recentemente uma polêmica matéria citando o passado de Dilma no período da ditadura militar. O texto lembra Dilma como militante armada, além de fazer acusações de tentativas de sequestro e de casamento com um suposto fabricante de bombas.

Já o jornal esquerdista "La Jornada", do México, exalta o governo Lula, tratando o presidente como "candidato natural ao prêmio Nobel da Paz" e dizendo que Serra significa o "entreguismo do PSDB". (PG)

ANÁLISE
Europa estuda perfil dos candidatos
As matérias da grande imprensa dos países ricos noticiam as eleições no Brasil como um embate entre um “centrista” e uma “esquerdista", embora os textos digam da similaridade programática entre os dois candidatos. O jornal inglês “Financial Times” fez uma matéria no começo de 2010 apostando em uma vitória de Dilma Rousseff, mas dizendo que, nesse caso, o ciclo de crescimento do país vai diminuir bastante nos próximos anos.

O também britânico “The Guardian” diz que Dilma passa uma imagem “dura” e “inábil”, mas que é uma administradora talentosa e conta com o grande trunfo, o Lula. Já o “The Economist” publicou artigo elogiando Serra – alguém com currículo “impressionante”. O jornal só faz uma crítica: o tucano deveria ter começado a campanha antes, sob o risco de ser lembrado como “o melhor presidente que o Brasil nunca teve”.

O espanhol “El País” acha que o voto feminino pode pesar a favor de Dilma Rousseff. O francês “Le Monde” apelidou Dilma de “dama de ferro” e diz que “a ex-guerrilheira” tem temperamento explosivo e que as mudanças de seu visual e a recente doença pela qual passou teriam servido para “adoçar sua imagem”. (PG)

Da redação do Plox

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