Ouro dispara com escalada da guerra no Oriente Médio e reforça busca por proteção

Após ataques dos EUA e de Israel ao Irã, metal acelera nos mercados; analistas citam tensões geopolíticas, expectativa de queda de juros e compras de bancos centrais

02/03/2026 às 14:43 por Redação Plox

Com a escalada da guerra no Oriente Médio após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o ouro voltou a disparar nos mercados internacionais nesta segunda-feira (2). Considerado um investimento de proteção em momentos de crise, o metal passou a ser mais procurado à medida que ações e outros ativos de maior risco recuavam.

Movimentos semelhantes já foram observados em outras grandes crises recentes, como a guerra na Ucrânia, conflitos no Oriente Médio, tensões entre EUA e Irã, a guerra comercial entre EUA e China e durante a pandemia.

Nos últimos meses, porém, a cotação do metal precioso vem alcançando patamares históricos. Desde o início de 2026, o ouro já vinha em trajetória de alta, impulsionado por incertezas políticas, dúvidas sobre os juros americanos e aumento das compras por bancos centrais.

Em janeiro, o ouro atingiu o recorde histórico de US$ 5.595 por onça, o maior valor de sua história, logo depois de superar pela primeira vez a marca de US$ 5 mil. Nos 12 meses até fevereiro, o preço acumulou valorização de mais de 85%, desempenho muito superior ao da bolsa brasileira e de outros investimentos populares.

No mesmo período, o Ibovespa subiu cerca de 54%, o índice de ações que pagam dividendos avançou quase 49% e as ações de empresas menores, as chamadas small caps, registraram alta de aproximadamente 44%.


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Foto: Freepik

Busca por proteção e cenário global sustentam a alta

Segundo analistas, a corrida por segurança explica grande parte da disparada recente. Para Thiago Azevedo, sócio-fundador da Guardian Capital, o movimento é resultado de uma combinação de fatores globais.

O ouro atingiu níveis recordes principalmente por causa da expectativa de queda dos juros nas principais economias, do aumento das tensões geopolíticas e da procura por proteção do patrimônio. Em cenários assim, os investidores costumam reduzir a exposição a aplicações mais arriscadas e aumentar a presença em investimentos considerados mais seguros.Thiago Azevedo

A atuação de bancos centrais também vem dando sustentação aos preços. De acordo com o economista Mauriciano Cavalcante, da Ourominas, vários países vêm trocando parte de suas reservas em dólar por ouro, em busca de maior proteção.

O metal tem a vantagem de não depender de nenhum país específico, ao contrário do dólar, ligado diretamente à economia dos Estados Unidos. Em períodos de guerra, sanções ou instabilidade financeira, o ouro tende a preservar valor melhor do que muitas moedas.

Segundo Cavalcante, o fator mais relevante hoje é justamente a forte demanda dos bancos centrais, que ampliam suas reservas em ouro e reduzem a dependência do dólar. Além disso, a escalada de tensões entre EUA e Irã, que culminou nos ataques do último sábado, somada às incertezas sobre a política monetária americana, reforça o movimento de valorização.

Quando cresce a expectativa de juros mais baixos, investimentos que pagam rendimento perdem atratividade, abrindo espaço para o ouro. Taxas menores tendem ainda a enfraquecer o dólar, barateando o metal para investidores de outros países.

Depois de alcançar recordes, o preço passou por ajustes pontuais, considerados naturais por especialistas. Azevedo avalia esse recuo como um movimento de realização de lucros por parte de quem entrou antes da alta, além de ajustes ligados ao fortalecimento do dólar e à oscilação dos juros americanos, um comportamento típico de ativos globais.

Para Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, o ouro funciona como uma espécie de “termômetro do medo”. Quando os piores cenários não se confirmam ou muitos investidores vendem para garantir o lucro, o preço costuma ceder. Como o metal não gera renda, seu valor depende basicamente da oferta, da demanda e do grau de incerteza dos investidores.

Ouro segue como porto seguro, mas exige cautela

O ouro continua sendo procurado como porto seguro em períodos de crise e instabilidade econômica. Investidores recorrem ao metal porque, ao contrário de ações ou títulos, ele tende a manter seu valor mesmo em momentos de forte turbulência nos mercados.

Guerras, conflitos internacionais e altas nos preços de commodities como petróleo e gás costumam aumentar a demanda pelo ouro, que atua como uma forma de “proteção” contra perdas em ativos mais arriscados.

Além disso, o metal contribui para a diversificação de carteiras: em portfólios com ações, fundos imobiliários e renda fixa, ele pode reduzir riscos e suavizar perdas quando outros ativos estão em queda.

Para Mauriciano Cavalcante, apesar das oscilações recentes, ainda há espaço para novas altas. Ele afirma que vale a pena investir em ouro diante do atual cenário geopolítico e econômico, ressaltando que o metal preserva valor ao longo do tempo. Segundo o economista, o ouro pode fazer sentido para diferentes perfis de investidor, com uma fatia do patrimônio destinada ao metal variando entre 15% e 30%, de acordo com a tolerância ao risco.

Já Thiago Azevedo enxerga o ouro principalmente como um instrumento de proteção, e não como uma aposta de curto prazo. Para ele, a questão central não é se o metal está caro ou barato, mas qual é o papel que desempenha na carteira. A orientação é começar com compras graduais, ao longo do tempo, em vez de buscar “acertar o momento”.

Ramiro Ferreira faz um alerta: o ouro não gera renda e não tem um valor justo simples de calcular. Historicamente, fica atrás de ativos produtivos, como ações, no longo prazo. Na visão dele, comprar em momentos de euforia, quando o preço está nas máximas, significa na prática “comprar o medo do mercado”.

Como o metal não rende juros, o ganho só ocorre se o preço subir. Por isso, Ferreira recomenda limitar a exposição: o ideal, segundo ele, é que o ouro não ultrapasse de 3% a 5% da carteira, para não comprometer o crescimento do patrimônio.

Formas de investir em ouro no Brasil

No mercado brasileiro, há diversas maneiras de investir no metal precioso, com graus diferentes de risco, custo e liquidez:

  • Ouro físico: compra de barras ou lâminas em empresas autorizadas, a partir de cerca de 1 grama.
  • ETFs (Exchange Traded Funds): fundos que acompanham a cotação do ouro e são negociados em bolsa, como o GOLD11, listado na B3.
  • Fundos de investimento: veículos que aplicam em ouro ou em ações de empresas ligadas ao setor.
  • Contratos futuros: negociados em bolsa, com alavancagem e maior complexidade, indicados apenas para investidores experientes.

Para Azevedo, o metal segue relevante no médio e longo prazo. Em um mundo com alto endividamento público, riscos fiscais e conflitos geopolíticos recorrentes, o ouro continua exercendo papel importante como proteção contra choques e perda do poder de compra das moedas.

A expectativa de mercado é que o preço permaneça volátil no curto prazo, mas mantenha uma tendência de alta no horizonte mais longo, caso persistam as incertezas globais e a perspectiva de cortes de juros nos Estados Unidos.

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