Tarcísio comenta aposentadoria de tenente-coronel preso por suspeita de feminicídio em SP
Geraldo Leite Rosa Neto, indiciado por feminicídio e fraude processual, teve a inatividade formalizada no Diário Oficial com proventos quase integrais, segundo a reportagem.
02/04/2026 às 19:43por Redação Plox
02/04/2026 às 19:43
— por Redação Plox
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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comentou nesta quinta-feira (2), em Campos do Jordão, a decisão da Polícia Militar de transferir para a reserva — medida equivalente à aposentadoria — o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso preventivamente desde 18 de março por suspeita de matar a esposa, a policial militar Gisele Alves Santana. Indiciado por feminicídio e fraude processual, o oficial é investigado pela morte de Gisele, encontrada baleada na cabeça dentro do apartamento onde morava no Brás, no Centro de São Paulo. O caso ocorreu em 18 de fevereiro.
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Tarcísio critica aposentadoria e diz esperar condenação
“As instâncias são independentes. Você tem uma legislação que não pode ser vista de forma casuística. Ele vai agora sofrer o processo penal. Nosso desejo é que ele seja condenado exemplarmente, porque o que ele cometeu foi um crime bárbaro, que eu tenho certeza que a gente não vai deixar passar impune. Que a Justiça não vai deixar isso passar”
Tarcísio de Freitas
Na sequência, o governador defendeu que haja punição severa, incluindo a perda do posto e da patente. Ao comentar a consequência administrativa dentro da corporação, afirmou que, caso isso aconteça, o benefício relacionado ao tempo de contribuição passa a ter como destinatários os familiares.
Portaria oficializa ida para a reserva com proventos quase integrais
A portaria de inatividade foi publicada nesta quinta-feira (2) no Diário Oficial do Estado e passou a valer imediatamente. De acordo com o texto, Rosa Neto tem direito a proventos integrais, considerada a proporcionalidade do tempo de serviço. A publicação registra a “proporcionalidade de 58/60”, o que equivale a uma remuneração praticamente integral.
O ato foi assinado pela Diretoria de Pessoal da PM e indica que, pela lei, Geraldo Neto pode se aposentar pelos critérios proporcionais de idade, com vencimentos integrais. Mesmo na reserva, ele continuará recebendo remuneração: no mês de fevereiro de 2026, antes da prisão, o salário foi de R$ 28,9 mil brutos, segundo o site da Transparência do Governo de São Paulo.
Com os critérios de proporcionalidade da idade atual do oficial, de 53 anos, o salário de aposentado deve ficar em torno de R$ 21 mil, segundo cálculos feitos pela reportagem. O pedido de aposentadoria foi feito pelo próprio tenente-coronel à corporação.
PM diz que reserva não interrompe processo de expulsão
A Polícia Militar informou que a ida para a reserva não impede o andamento do processo de expulsão aberto pela Corregedoria contra o oficial. O texto também destaca que a aposentadoria pode ser questionada na Justiça.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que autorizou, a pedido do Comando da PM, a instauração de um conselho de justificação, que pode resultar em demissão e na perda do posto e da patente, e que a instrução segue válida mesmo após a transferência do oficial para a reserva.
A SSP acrescentou que o inquérito policial militar que apura a morte de Gisele está em fase final e será encaminhado ao Judiciário. Também informou que o oficial permanece preso preventivamente por decisão judicial, após representação da Corregedoria da PM, e que o inquérito da Polícia Civil já foi concluído e encaminhado à Justiça, com pedido de prisão já cumprido. Em seguida, a corporação declarou reafirmar o compromisso com a legalidade, a disciplina e a preservação dos valores que regem a atividade policial militar.
Defesa da família estranha rapidez para concessão do benefício
O advogado criminalista da família de Gisele Alves Santana, José Miguel da Silva Júnior, comentou a aposentadoria e disse estranhar que o benefício tenha sido obtido em pouco menos de sete dias a partir do pedido.
Segundo ele, a velocidade do processo chamou a atenção, especialmente ao comparar com relatos de policiais doentes que, de acordo com o advogado, precisariam recorrer à Justiça para conseguir o mesmo tipo de benefício, enquanto praças levariam ao menos 60 dias para a reserva.
Investigação aponta suposto apagamento de mensagens após o disparo
Uma análise de dados feita pela investigação da Polícia Civil no celular de Gisele indicou que o aparelho foi manuseado e desbloqueado minutos após o tiro e que mensagens teriam sido apagadas pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Neto.
Relatos citam episódios de agressividade e comportamento controlador
Policiais militares relataram à Polícia Civil que tiveram conhecimento de episódios de agressividade atribuídos ao tenente-coronel dentro do quartel. Uma testemunha, que atuava no Departamento de Suporte Administrativo do Comando Geral (DSA/CG), disse ter sabido de uma discussão em um corredor entre a reserva de armas e a seção de logística, na qual ele teria segurado Gisele pelos braços e a pressionado contra a parede.
Outra policial do mesmo departamento afirmou ter ouvido de colegas que câmeras de segurança do quartel já teriam registrado o oficial com as mãos no pescoço da vítima, em uma situação descrita como um tipo de sufocamento.
Há ainda relatos de que, antes do casamento, o comportamento do tenente-coronel teria motivado medidas internas. Uma policial disse que ele chegou a ser impedido de entrar no quartel após militares da guarda presenciarem uma discussão considerada mais agressiva entre o casal. O caso teria chegado ao comando, que conversou com Gisele, e o oficial foi afastado temporariamente. Depois do casamento, segundo a mesma testemunha, ele voltou a frequentar o quartel.
Os depoimentos também apontam para um padrão de comportamento descrito como controlador e marcado por ciúmes excessivos. Testemunhas relataram que Gisele demonstrava preocupação com a reação do marido até mesmo em relação ao ajuste da farda ou ao uso de itens de beleza. Colegas disseram ainda que, na presença do tenente-coronel, ela mudava de comportamento: no trabalho, descrita como extrovertida, ficava mais calada, reservada e tensa quando ele aparecia.
Ministério Público cita laudos e mensagens e descarta suicídio
Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio. Ainda de acordo com a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual.
Câmeras corporais registram embate por preservação do local
Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram um embate no dia do crime, em 18 de fevereiro, envolvendo um cabo que queria preservar o local onde Gisele foi baleada e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela. Fotos e diálogos das imagens feitas pela câmera corporal do cabo registram a disputa.
O conjunto de condutas descritas — insistir em tomar banho, entrar e circular apesar de advertências, afastar equipes, permitir limpezas e retornar para retirar itens — é apontado como um fator que fortalece a desconfiança em relação à tese de suicídio defendida por Neto e reposiciona o foco do inquérito.