Guerra no Oriente Médio pode afetar um terço das exportações brasileiras de frango e milho
Escalada do conflito após ataques atribuídos a EUA e Israel contra o Irã acende alerta para rotas, fretes e seguros; região comprou 34,8% do frango e 32,4% do milho do Brasil em 2025, segundo dados citados do MDIC
03/03/2026 às 07:11por Redação Plox
03/03/2026 às 07:11
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
A escalada do conflito no Oriente Médio, após ataques atribuídos a Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, acendeu um sinal de alerta no comércio exterior brasileiro. A região concentra cerca de um terço das exportações do Brasil em dois itens estratégicos do agronegócio: carne de frango e milho, conforme dados citados a partir do MDIC. O avanço da guerra no Oriente Médio pode afetar diretamente um terço das vendas externas brasileiras desses produtos, com risco de interrupções logísticas, encarecimento de fretes, atrasos em embarques e maior volatilidade nos preços internacionais.
O Irã se consolidou como um dos principais destinos do cereal brasileiro /
Foto: Divulgação
Oriente Médio concentra fatia relevante de frango e milho do Brasil
Levantamento com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), citado em reportagem distribuída pela Folhapress, mostra que o Oriente Médio recebeu US$ 3 bilhões em carne de frango em 2025, o equivalente a 34,8% das vendas externas brasileiras do produto. No caso do milho, as exportações para a região somaram US$ 2,7 bilhões, ou 32,4% do total exportado pelo Brasil.
A mesma base de dados indica que as exportações brasileiras totais ao Oriente Médio chegaram a US$ 16,1 bilhões em 2025, o que representa cerca de 4,6% de tudo o que o país vendeu ao exterior naquele ano. O peso de frango e milho nessa balança torna o conflito especialmente sensível para o agronegócio, dada a dependência de rotas marítimas estáveis, prazos rígidos e custos de seguro administráveis.
Frango e milho formam cadeias logísticas consideradas delicadas, com contratos atrelados a janelas específicas de embarque, rotas consolidadas e estruturas de armazenagem e transporte refrigerado. Em um cenário de instabilidade regional, qualquer mudança em rotas, prêmios de risco ou seguros tende a repercutir rapidamente em prazos e preços.
Desempenho recorde do agro eleva exposição ao risco
Em balanço oficial, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que o agronegócio brasileiro encerrou 2025 com recorde de exportações, somando US$ 169 bilhões. O resultado foi acompanhado de um discurso de diversificação de mercados e produtos como estratégia para enfrentar turbulências no cenário internacional.
Do lado do setor produtivo, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) registrou que o Brasil exportou 5,324 milhões de toneladas de carne de frango em 2025, também em volume recorde. Entre os principais destinos estão Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, mercados diretamente vinculados ao Oriente Médio e, portanto, mais expostos aos efeitos do conflito.
Logística, custos e preços sob pressão
Na prática, o agravamento da guerra na região pode gerar três frentes principais de impacto sobre a cadeia de frango e milho do Brasil:
Risco de alta de custos logísticos: conflitos armados aumentam a incerteza em rotas marítimas, seguros de carga e fretes internacionais. O encarecimento desses itens tende a pressionar as margens de exportadores e tradings, sobretudo em contratos com prazos curtos de entrega.
Possíveis atrasos e renegociações: diante da escalada do conflito e de um ambiente financeiro mais tenso, importadores da região podem optar por postergar compras, reprogramar embarques ou renegociar condições de pagamento e volumes contratados.
Efeitos indiretos sobre o mercado interno: se houver dificuldade para escoar parte da produção ao Oriente Médio, uma parcela dessa oferta pode ser redirecionada ao mercado doméstico, com potencial impacto sobre preços internos. Em contrapartida, um aumento de custos com fretes, seguros e volatilidade cambial pode ter efeito oposto em determinados elos da cadeia, elevando despesas e comprimindo margens.
Estados com forte vocação exportadora, em especial na avicultura e na produção de grãos, como Paraná, São Paulo e Minas Gerais, podem sentir com mais intensidade oscilações na demanda externa, nos preços de frete e na operação de cooperativas, agroindústrias e transportadoras.
Até o momento, segundo as informações disponíveis, não há confirmação pública de suspensão formal de compras por países do Oriente Médio. O quadro atual é de risco e monitoramento contínuo, com o impacto efetivo dependendo da duração e da intensidade da crise.
Monitoramento de exportações e rotas será decisivo
Diante da incerteza, analistas e agentes do setor indicam alguns pontos de atenção. Um deles é o acompanhamento de comunicados do MDIC/Secex e do Mapa sobre o fluxo de exportações, eventuais restrições e o desempenho semanal ou mensal da balança comercial, especialmente em relação a carne de frango e milho com destino ao Oriente Médio.
Outro foco é observar posicionamentos da ABPA e de entidades ligadas à cadeia de grãos sobre embarques, contratos e custos logísticos. Alterações em cronogramas de carregamento, em prazos de entrega ou em exigências de seguro podem indicar uma transição do risco potencial para impactos concretos nas operações.
Por fim, sinais vindos do próprio mercado — como mudanças em fretes marítimos, prêmios de risco de seguro, câmbio e prêmios de exportação — serão decisivos para medir se a escalada da guerra no Oriente Médio está se traduzindo em restrições práticas ao comércio. Para o Brasil, o comportamento desse corredor comercial será determinante para preservar ou não um terço das exportações de frango e milho voltadas à região.