Popularização de canetas emagrecedoras reacende pressão pela magreza e alerta para riscos

Debate exibido na TV Brasil discute uso sem acompanhamento e até por pessoas sem obesidade, além de possíveis impactos sociais e na saúde, especialmente entre crianças e adolescentes.

03/05/2026 às 12:04 por Redação Plox

A popularização dos medicamentos subcutâneos para o tratamento da obesidade, conhecidos como canetas emagrecedoras, tem sido acompanhada de debates intensos. Apesar de produzirem efeitos expressivos e contarem com o endosso de diversas sociedades médicas, esses remédios também têm sido usados sem acompanhamento profissional ou por pessoas que não apresentam obesidade.

Para a professora das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Fernanda Scagluiza, parte do apelo desses medicamentos está ligada ao que ela chama de “economia moral da magreza”.


Scagluiza foi uma das entrevistadas do episódio O boom das canetas emagrecedoras, exibido pelo programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, na última segunda-feira (27).

Receita Federal/divulgação

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O que está por trás da “economia moral da magreza”

Na avaliação da professora, a ideia de economia moral ajuda a entender como determinados corpos recebem significados distintos no convívio social. Segundo ela, um corpo magro ou “sarado” tende a ser visto como sinal de virtude, esforço e autocontrole, enquanto pessoas gordas são alvo de estereótipos associados a preguiça, falta de disciplina e até ausência de higiene — interpretações que, como destaca, não correspondem à realidade.

Ela afirma ainda que essa lógica se reflete em desigualdades nas relações sociais, com impactos no trabalho, na educação e nas relações amorosas. Na visão da professora, privilégios atribuídos a um padrão corporal implicam perdas de direitos e formas de opressão para quem fica fora dele.

Padrões corporais e limites à diversidade

Scagluiza lembra que padrões de beleza existem há muito tempo e mudam conforme o período histórico. Para ela, porém, o ponto central é que a presença de um padrão sempre funciona como barreira à diversidade.

Na entrevista, a professora argumenta que, quando se impõe um ideal — seja de extrema magreza, de uma magreza considerada “saudável” ou de um corpo supermusculoso — muita gente fica automaticamente excluída. E, segundo ela, essa exclusão alimenta uma indústria que tenta vender soluções para encaixar corpos em modelos específicos.

Pressão estética e a ideia de “magreza farmacológica”

Questionada sobre a percepção de que “nunca se é magro o suficiente”, Scagluiza diz acreditar que sim e associa a questão a um sistema de violência contra pessoas gordas, definido por ela como gordofobia. De acordo com a professora, esse cenário busca empurrar essas pessoas para fora da vida social por meio de humilhação, opressão e perda de dignidade.

Ela acrescenta que a pressão pela magreza não atinge apenas quem é gordo: mesmo pessoas que não se enquadram nessa categoria sofrem com cobranças estéticas, que variam conforme contexto, gênero e classe social. Nesse ambiente, afirma, qualquer “gordurinha” pode virar motivo para buscar uma solução — agora apresentada como “magreza farmacológica”.

O retorno da magreza extrema e o impacto em crianças e adolescentes

Para a professora, houve alguma mudança a partir dos anos 2010 com o movimento de positividade corporal, que passou a defender a importância da diversidade. Ainda assim, ela avalia que esse avanço ocorreu com limitações e que os espaços conquistados, por exemplo, na moda, foram restritos a determinados tipos de corpos.

Na entrevista, Scagluiza relata a impressão de que a chegada e a difusão das canetas emagrecedoras favorecem o retorno do padrão de magreza extrema. Ela menciona um cenário que considera perigoso, especialmente para crianças e adolescentes, por serem mais influenciáveis.

Mulheres, conservadorismo e o “sedativo político” das dietas

Ao comentar os efeitos dessa febre sobre as conquistas das mulheres, a professora diz que vive um período de temor e afirma que o país é campeão em feminicídio. Segundo ela, além do machismo, há a presença constante do que define como “cis-hétero patriarcado”, somada ao avanço de um movimento conservador na política e na sociedade, citado por ela com referências a “redpill” e “tradwife”.

Nesse contexto, Scagluiza argumenta que a atenção dedicada ao tamanho do corpo — como a preocupação com a barriga ou com roupas que não servem — pode funcionar como uma forma de desvio do foco para lutas consideradas essenciais. Para ela, o cenário de busca pela magreza extrema, impulsionado pelas canetas, se torna conveniente para esse movimento.

Medicalização do corpo e efeitos sobre a relação com a comida

Scagluiza afirma que o país vive um processo de medicalização de questões sociais, quando aspectos do cotidiano passam a ser tratados como problemas médicos. Na entrevista, ela cita a alimentação como fenômeno sociocultural e diz que, mais recentemente, a comida passou a ser encarada como remédio.

Ela exemplifica esse deslocamento ao mencionar discursos em que pessoas dizem “vou comer proteína”, tratando nutrientes como se fossem o próprio alimento. Para a professora, a lógica se intensifica com o uso das canetas emagrecedoras.

Ao comentar um estudo que afirma estar submetendo a uma revista, Scagluiza relata ter encontrado o uso do termo “vacina contra fome” entre mulheres que já utilizaram as canetas, associando o medicamento à ideia de tornar a fome opcional. Ela também descreve comportamentos como restringir a alimentação ao máximo e utilizar efeitos colaterais, como náusea ou vômito, para evitar comer, avaliando que isso pode trazer riscos à saúde e afetar a vida em sociedade.

Foi esse o jeito que eu achei de fechar a boca num nível radical para conseguir emagrecer.

Fernanda Scagluiza

Para a professora, a discussão envolve também o aspecto simbólico da alimentação e seus rituais. Ela defende que alimentação saudável é um direito humano e relaciona o tema ao modo de viver, à vitalidade do corpo e à proteção contra doenças, alertando que muitas dimensões podem se perder nesse processo.

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