Serviços cemiteriais no DF sobem 3,81%; família faz vaquinha após gastar cerca de R$ 6 mil em sepultamento
Reajuste passou a valer após portaria no Diário Oficial; reportagem compara custos da cremação no Distrito Federal com outras capitais e aponta impacto da baixa concorrência e dificuldades para acessar o enterro social.
03/05/2026 às 14:19por Redação Plox
03/05/2026 às 14:19
— por Redação Plox
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Morrer nunca foi barato. No Distrito Federal, porém, o custo da despedida tem pesado ainda mais no bolso de famílias que, além de enfrentar o luto, precisam lidar com uma conta alta e imediata. Em um momento de urgência e fragilidade emocional, decisões financeiras acabam sendo tomadas em poucas horas, muitas vezes sem planejamento e com poucas alternativas.
O reajuste mais recente nos preços dos serviços cemiteriais no DF entrou em vigor na terça-feira da semana passada, após a publicação de uma portaria no Diário Oficial do Distrito Federal. De acordo com a empresa Campo da Esperança, que administra os cemitérios no DF, o aumento foi de 3,81% e segue a atualização anual prevista em contrato, com base no IPCA acumulado em 12 meses.
Imagem ilustrativa
Foto: Pixabay
Conta chega junto com a notícia
Enquanto índices e contratos seguem um calendário, a perda costuma chegar sem aviso. E, com ela, a necessidade de resolver rapidamente questões práticas: escolher serviços, assinar documentos e pagar valores que podem ultrapassar o orçamento familiar.
Foi o que viveu a técnica de enfermagem Sandra Amâncio, de 53 anos, ao perder a irmã, Valeska Barbosa, de 36, uma mulher trans encontrada morta dentro de casa no Condomínio Porto Rico, em Santa Maria. A história de Valeska foi marcada por resistência desde a infância e por uma relação de afeto com a família que a acolheu. Na hora da despedida, porém, a realidade financeira se impôs.
Sem recursos suficientes, Sandra recorreu a uma vaquinha on-line para conseguir realizar o sepultamento.
Os custos são muito altos, e a gente foi pego desprevenido. Não tínhamos R$ 6 mil para enterrá-la. Esse foi o valor gasto com serviço funerário e a compra da terra. O resto, parcelamos. Morrer hoje custa muito caro, acho um absurdo
Sandra Amâncio
Cremação chega a R$ 6,2 mil no DF
Embora os valores de sepultamento no DF estejam dentro da média nacional — variando entre R$ 480 e R$ 1.100 —, o cenário muda ao considerar outros serviços. A cremação, por exemplo, chega a R$ 6.228,75 na capital federal. O valor é mais alto do que o cobrado em São Paulo (cerca de R$ 1.851,38) e no Rio de Janeiro (em torno de R$ 3.864,88). Em Belo Horizonte, os preços variam, podendo se aproximar desses patamares, mas também com opções mais acessíveis.
Mercado com pouca concorrência pressiona valores
Para o economista Newton Marques, o problema vai além dos custos operacionais e envolve a estrutura do mercado. Ele avalia que, em geral, as empresas que administram os cemitérios são terceirizadas e cobram caro, o que leva muitas famílias a buscar ajuda de parentes para custear o sepultamento.
Na avaliação do economista, a falta de concorrência efetiva também contribui para a elevação dos preços. Ele afirma que o correto seria abrir concorrência, mas que, em geral, os serviços funcionam como quase monopólios, com poder de mercado. Segundo ele, ao comparar os valores no DF, é possível notar que os serviços funerários no Plano Piloto são muito mais altos do que em outras regiões administrativas e no Entorno.
Marques também aponta limites na atuação do poder público para aliviar esse tipo de gasto. Segundo ele, em geral, o alívio se concentra nas classes de renda mais baixa, mas não alcança as demais.
Enterro social existe, mas acesso pode virar obstáculo
Para famílias em situação de vulnerabilidade, há a possibilidade do enterro social, oferecido pelo Governo do Distrito Federal. O serviço cobre itens básicos, como urna simples, transporte do corpo e sepultamento. O acesso, no entanto, depende da comprovação de baixa renda e de um processo que, em meio à urgência da morte, pode se tornar mais uma barreira.
Além disso, existe o componente emocional: muitas famílias resistem a optar por um serviço básico por entenderem que ele não representa uma despedida à altura. O resultado é um cenário em que a morte, além de inevitável, pode se tornar financeiramente pesada e, em alguns casos, excludente.
Campo da Esperança diz que reajuste não cobre custos
A Campo da Esperança Serviços Ltda. informou, em nota, que o reajuste dos preços dos serviços cemiteriais é calculado com base na inflação acumulada nos 12 meses anteriores, considerando o mês de aniversário do contrato com o GDF, em fevereiro.
Segundo a concessionária, a recomposição anual baseada exclusivamente na inflação não cobre integralmente os custos operacionais, pois despesas com pessoal — apontadas como o principal componente do custo — costumam ter reajustes acima do IPCA.
A empresa também afirmou que o Distrito Federal mantém uma das menores tarifas cemiteriais entre as principais capitais do país e que, por se tratar de concessão pública, as atividades são fiscalizadas pelo governo local.
Sobre as formas de pagamento, a concessionária informou que os serviços podem ser quitados por cartão de crédito ou boleto bancário, com possibilidade de parcelamento conforme o valor contratado.
Por fim, a empresa reconheceu que alguns serviços operam com deficit. É o caso da taxa de sepultamento, atualmente fixada em R$ 31,97, valor que, de acordo com a nota, não cobre custos com mão de obra e materiais, como as placas usadas nos sepultamentos.