Human Rights Watch aponta infiltração do crime organizado no Estado e cobra reformulação da segurança no Brasil

Relatório mundial de 2026 cita casos envolvendo policiais, megaoperações com alta letalidade e defende mudanças baseadas em inteligência e coordenação federativa, sem fragilizar garantias legais

04/02/2026 às 10:23 por Redação Plox

O Brasil precisa adotar novas estratégias para enfrentar o avanço do crime organizado e sua infiltração nas instituições do Estado, aponta o relatório mundial de 2026 da Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta quarta-feira (4). No capítulo dedicado ao país, a organização defende uma ampla reformulação das políticas de segurança pública, com foco no combate às facções criminosas e na redução da violência.

Placa de trânsito na RR-205, que dá acesso a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pinchada com sigla do PCC.

Placa de trânsito na RR-205, que dá acesso a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pinchada com sigla do PCC.

Foto: Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Reprodução


Em entrevista ao g1, o diretor da entidade no Brasil, César Muñoz, relatou ter ouvido de um promotor responsável por investigar facções que policiais estavam envolvidos em todos os casos conduzidos por ele. Para a HRW, esse quadro revela um problema estrutural, em que facções criminosas passam a cooptar agentes públicos e a se infiltrar no poder estatal, inclusive com participação de políticos, sobretudo em nível local.

Relatório cobra foco em inteligência e coordenação

No documento, a HRW pede que autoridades brasileiras passem a conduzir “investigações aprofundadas e baseadas na inteligência” para identificar vínculos entre criminosos e integrantes do poder público. A ONG lista ainda recomendações como adoção de políticas ancoradas em ciência e dados para desmantelar grupos criminosos, proteção dos direitos da população e dos policiais, priorização da investigação policial, independência das perícias e maior coordenação entre órgãos federais e estaduais no combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro.

Casos recentes são citados pela organização como evidência da gravidade do problema. Investigações revelaram ramificações do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de transporte público, no mercado de combustíveis e no uso de fundos de investimento da Faria Lima para lavar dinheiro, além de esquemas de fraude em contratos de prefeituras. No fim de 2025, a Justiça Militar condenou 11 policiais militares por fazerem segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Para a HRW, o episódio expôs o envolvimento de agentes públicos tanto da Polícia Militar quanto da Polícia Civil.

Crime e violência lideram preocupações da população

A segurança pública aparece hoje como a principal preocupação dos brasileiros. Pesquisa Ipsos-Ipec divulgada na segunda-feira (2) mostra que 41% da população apontam crime e violência como o maior problema do país. O tema ganhou ainda mais peso após a megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais.

Diante desse cenário, o presidente Lula (PT) enviou ao Congresso a PEC da Segurança Pública e um projeto de lei que endurece punições para integrantes de facções criminosas. As duas propostas seguem em discussão. Para a HRW, a pressão social por respostas rápidas não pode justificar estratégias que ampliem a violência ou fragilizem garantias legais.

Modelo de confronto é criticado por ONG

O relatório também faz críticas diretas ao modelo atual de enfrentamento ao crime no país. Dados do Ministério da Justiça indicam que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, alta de 4,5% em relação ao ano anterior. Segundo a entidade, por muito tempo prevaleceu um modelo de operações de caráter militar, em que agentes entram em comunidades de baixa renda atirando, o que, na avaliação da organização, não reduz a violência nem enfraquece o crime organizado, mas amplia a insegurança e coloca em risco moradores e policiais.

Para César Muñoz, essa discussão tende a ocupar posição central na disputa presidencial. Ele defende propostas baseadas em evidências, capazes de desmantelar facções e, ao mesmo tempo, proteger direitos tanto da população quanto das forças de segurança.

Outros pontos de atenção no relatório

Além da segurança pública, o capítulo sobre o Brasil aborda outros temas sensíveis. A HRW destaca a combinação entre queda geral de homicídios e aumento das mortes provocadas por policiais, a maior vitimização da população negra, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, a fraude bilionária no INSS, investigações sobre emendas parlamentares, decisões do STF sobre violência doméstica, a criação de uma lei para proteger crianças em ambientes digitais e a superlotação do sistema prisional, hoje operando cerca de 35% acima da capacidade.

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