Seis pacientes perdem a visão após cirurgia de catarata e clínica é interditada em Salvador
Procedimentos foram realizados em 26 de fevereiro na Clivan; Secretaria Municipal de Saúde suspendeu parceria, abriu apuração e notificou MP-BA e Cremeb
04/03/2026 às 07:33por Redação Plox
04/03/2026 às 07:33
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
Seis pessoas perderam um dos olhos após passarem por cirurgia de catarata em uma unidade de saúde de Salvador até terça-feira (3). Os procedimentos foram realizados em 26 de fevereiro, na clínica Clivan, que foi interditada na segunda-feira (2) pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) depois da repercussão das denúncias.
Na terça-feira, a família de um dos pacientes, Damário Antônio da Silva, de 75 anos, registrou boletim de ocorrência contra a clínica. A queixa foi formalizada na Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati), no bairro do Engenho Velho de Brotas.
Foi desumano o que fizeram com meu avô. Então, a gente tem que ver quem vai ser responsabilizado por isso. A gente veio na delegacia para tentar resolverGleidiane Souza, em entrevista à TV Bahia
Globo ocular removido, infecção e clínica interditada: o que se sabe sobre pacientes que perderam a visão após cirurgias na Bahia
Foto: Reprodução/TV Bahia
Segundo a família, Damário sentiu fortes dores no olho operado, sangramento e perda de visão. Assim como os outros pacientes, ele precisou retirar o globo ocular. O idoso relatou que, após avaliação, foi informado de que havia perdido a visão do olho operado e que seria necessário remover a córnea para evitar agravamento da infecção.
De acordo com parentes de pacientes, ao menos 38 pessoas relataram problemas após as cirurgias. A SMS, porém, informou que conseguiu rastrear 26 pacientes que realizaram o procedimento em uma das salas da unidade. A clínica, localizada na Avenida Anita Garibaldi, mantinha parceria com a Secretaria e realizava todos os atendimentos por meio do SUS.
Quando as cirurgias foram realizadas
Relatos de pacientes indicam que as cirurgias aconteceram no dia 26 de fevereiro, na clínica Clivan, na Avenida Anita Garibaldi. A unidade tinha convênio com a Secretaria Municipal de Saúde e atendia pelo SUS.
Na segunda-feira (2), após as denúncias, a SMS suspendeu a parceria e interditou a clínica. O órgão informou que o estabelecimento estava regularmente licenciado pela vigilância sanitária municipal e com alvará válido no momento dos procedimentos.
Após o início das investigações, a pasta adotou medidas cautelares na área de vigilância sanitária:
Suspensão cautelar do alvará sanitário da clínica;
Interdição temporária dos serviços ligados aos procedimentos sob apuração;
Abertura de processo administrativo sanitário para verificar as condições de funcionamento e o cumprimento das normas;
Notificação ao Ministério Público e ao Cremeb para acompanhamento nas instâncias competentes.
Conforme apuração da TV Bahia com um funcionário da clínica que não quis ser identificado, as cirurgias foram realizadas em duas salas. Em uma delas, teriam sido feitos cerca de 110 atendimentos; na outra, 26. As pessoas que relataram infecções teriam sido operadas justamente na sala com menor volume de procedimentos.
O oftalmologista que teria realizado as cirurgias também falou com a TV Bahia por telefone, sem se identificar. Ele afirmou atuar na área desde 2013 e disse não ter vivenciado situação semelhante. O médico declarou ainda aguardar o resultado da investigação da vigilância sanitária, que pode apontar uma eventual contaminação em algum insumo ou instrumento cirúrgico utilizado.
Quantas pessoas perderam a visão até agora
Pacientes relatam que, até o momento, seis pessoas perderam a visão de um dos olhos e tiveram o globo ocular removido por causa de uma infecção.
Cinco delas passaram pela remoção do olho operado no Hospital Geral do Estado (HGE). A sexta vítima foi atendida no Hospital Santa Luzia, no bairro de Nazaré.
Sintomas relatados após as cirurgias
As vítimas relatam um quadro semelhante no pós-operatório: dores intensas, olhos lacrimejantes, perda de visão e, em alguns casos, sangramento.
Segundo os relatos, o agravamento dos sintomas levou à indicação de retirada do globo ocular em parte dos pacientes, para conter a infecção e evitar complicações mais graves.
O que se sabe sobre a causa da perda de visão
Até o momento, não há definição oficial sobre o que causou a perda de visão dos pacientes. Os casos em que foi necessária a retirada do globo ocular foram associados a um quadro infeccioso.
Familiares afirmam que não receberam explicações detalhadas sobre o tipo de infecção nem sobre a forma de contaminação.
Em entrevista à TV Bahia, a advogada Eveline Santos, representante de um dos pacientes que perdeu o olho, disse que o cliente foi diagnosticado com uma bactéria e que os médicos tentaram conter o avanço da infecção com antibióticos. Segundo ela, a remoção do globo ocular foi indicada para evitar que a bactéria se espalhasse e causasse lesão cerebral.
Órgãos que apuram o caso
Além da SMS e da Vigilância Sanitária Municipal, o episódio é investigado pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb).
Em nota enviada na terça-feira (3), a Sesab informou que o convênio com a clínica foi encerrado em dezembro de 2025 e destacou que nenhum dos pacientes com complicações foi encaminhado pela rede estadual.
A SMS, por sua vez, comunicou que notificou outros órgãos competentes, como o Ministério Público da Bahia. A pasta classificou a apuração como tecnicamente complexa, por envolver fatores como pacientes com cadastro em mais de um território, pessoas vindas do interior do estado, atendimentos pactuados entre municípios e possíveis inconsistências entre bases de dados assistenciais.
Apesar das dificuldades, a SMS afirmou que todos os pacientes identificados estão sendo acompanhados e assistidos pela rede municipal para continuidade do tratamento.
Na segunda-feira, o Cremeb informou que realizou fiscalização na clínica. Eventuais sanções ao estabelecimento serão divulgadas somente após a análise do caso ser concluída.
Posicionamento da clínica Clivan
Em nota, a clínica Clivan afirmou que todos os protocolos clínicos, técnicos e de biossegurança foram rigorosamente seguidos durante as cirurgias, desde a avaliação pré-operatória até o acompanhamento pós-cirúrgico, em conformidade com as normas médicas vigentes.
A unidade destacou que realiza mais de 8 mil cirurgias por ano e que mantém histórico de segurança, qualidade e excelência, o que, segundo a própria clínica, reforçaria o caráter pontual do episódio.
A empresa reiterou o compromisso com a saúde, o bem-estar e a transparência no atendimento aos pacientes, afirmando que permanece à disposição para esclarecimentos adicionais e garantindo que todos os pacientes continuam sendo acompanhados de forma responsável e humanizada.
Na mesma nota, a clínica reafirmou a confiança em seus profissionais, em seus protocolos e na medicina que diz praticar desde o início de suas atividades.