Violência sexual online atinge 3 milhões de crianças e adolescentes no Brasil em um ano

Relatório aponta cerca de 3 milhões de vítimas entre 12 e 17 anos, subnotificação e impactos emocionais como ansiedade e maior risco de autolesão e suicídio

04/03/2026 às 14:21 por Redação Plox

Uma em cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos no Brasil afirma ter sido vítima de exploração ou abuso sexual mediado por tecnologia. O índice de 19% representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos atingidos em um período de 12 meses.


Imagem ilustrativa

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Foto: Freepik


Os casos envolvem o uso de ferramentas digitais para produzir e divulgar conteúdo de natureza sexual, aliciar vítimas e ameaçá-las. Redes sociais, jogos online, aplicativos de mensagens e outras plataformas são usados como meio para esse tipo de violência.

Os dados constam do relatório “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia”, divulgado pela UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Foram entrevistadas 1.029 crianças e adolescentes de 12 a 17 anos, além de pais ou responsáveis, em visitas domiciliares realizadas entre novembro de 2024 e março de 2025. As respostas consideraram experiências vividas nos 12 meses anteriores à participação no estudo.

Como a violência aparece no ambiente digital

Entre as situações relatadas, 14% dos entrevistados disseram ter sido expostos a conteúdo sexual não solicitado. Em 49% dos casos, o agressor era alguém conhecido da vítima. Um terço dos jovens (34%) afirmou não ter contado a ninguém o que viveu, o que indica subnotificação e isolamento.

Uma jovem relatou que recebeu mensagens sexuais insistentes de um agressor, que também havia enviado diversas fotos. Outra entrevistada contou que tinha 12 anos quando recebeu conteúdo sexual pelo Facebook e descreveu o sentimento de estar “presa” à situação, dominada pela exposição do corpo do agressor e por uma intimidade imposta, sem que houvesse qualquer vínculo prévio entre eles.

O estudo mostra ainda o impacto emocional dessa violência. As vítimas apresentaram taxas de ansiedade 13 pontos percentuais superiores às de jovens que não sofreram abusos. Crianças vitimizadas têm 5,4 vezes mais chances de praticar autolesão e 5 vezes mais chances de ter pensamentos ou tentativas de suicídio em comparação com aquelas que não passaram por exploração ou abuso sexual.

Inteligência artificial amplia risco de abuso

O levantamento também identificou o uso de inteligência artificial na produção de imagens falsas sexualizadas. Três por cento dos participantes relataram que alguém utilizou ferramentas de IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual usando a própria imagem da vítima.

as tecnologias digitais não estão necessariamente criando formas totalmente novas de violência. Em vez disso, elas muitas vezes facilitam e ampliam formas já existentes de exploração e abusoMarium Saeed, especialista do Escritório de Estratégia e Evidência do Unicef Innocenti

Casos recentes ilustram esse movimento. Em 2023, no Rio de Janeiro, a Polícia Civil abriu inquérito após montagens com imagens nuas de alunas de um colégio na Barra da Tijuca circularem em grupos de WhatsApp. Segundo a investigação, alunos do 7º ao 9º ano são suspeitos de usar aplicativos de inteligência artificial para remover as roupas de fotos publicadas pelas próprias estudantes nas redes sociais e compartilhar as imagens adulteradas. Mais de 20 adolescentes foram ouvidas pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Em Votorantim (SP), no ano passado, dois adolescentes, de 15 e 16 anos, foram apreendidos após utilizarem inteligência artificial para produzir e divulgar imagens falsas de uma estudante nua em uma escola estadual. O caso foi registrado na delegacia da cidade. A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo informou que os alunos foram suspensos e que a vítima recebe acompanhamento psicológico.

O uso de IA também é alvo de investigações em plataformas globais. Em janeiro, uma apuração apontou que o chatbot Grok, da empresa xAI, integrado à rede social X, gerou cerca de três milhões de imagens sexualizadas de mulheres e menores em 11 dias. De acordo com o Centro de Combate ao Ódio Digital, aproximadamente 23 mil dessas imagens aparentavam representar menores.

Onde os crimes acontecem e quem se aproxima das vítimas

Em 66% dos relatos do estudo, a violência sexual ocorreu em canais online. Redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas apareceram em 64% dos casos; jogos online, em 12%.

Entre os aplicativos citados pelas vítimas, destacam-se Instagram (59%) e WhatsApp (51%). Mesmo quando o agressor era conhecido, o primeiro contato se deu, em 52% dos casos, pela internet. Também houve registros de aproximação inicial na escola (27%), na casa da criança (11%) e em espaços de prática esportiva (2%).

Pelo menos 5% das crianças disseram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou vídeos de conteúdo sexual, e 3% relataram propostas para encontros presenciais com finalidade sexual.

Repercussão pública e avanço de leis contra a ‘adultização’

O debate sobre exploração e exposição sexual de crianças e adolescentes nas redes ganhou repercussão nacional após um vídeo publicado por um influenciador, em 2025, denunciar a produção e divulgação de conteúdos envolvendo adolescentes. A reação pública levou o presidente da Câmara a pautar um projeto de lei voltado ao combate à chamada “adultização” de menores na internet.

O caso citado no vídeo resultou em investigação e, em fevereiro de 2026, a Justiça da Paraíba condenou um influenciador a 11 anos e 4 meses de prisão, e o marido dele a 8 anos e 10 meses, por produção de conteúdo sexual envolvendo adolescentes. Segundo a sentença, os jovens foram inseridos em um ambiente artificial e controlado, comparado a um “reality show”, com exposição a situações inadequadas para a faixa etária.

O projeto aprovado após essa repercussão criou obrigações específicas para provedores de serviços digitais quando houver possibilidade de acesso por crianças e adolescentes. Entre as medidas, estão a exigência de mecanismos eficazes de verificação de idade, a proibição da autodeclaração como único critério para comprovar a idade, a vinculação obrigatória de contas de usuários com até 16 anos a um responsável legal e a remoção de conteúdos considerados abusivos para esse público.

ECA Digital reforça proteção no ambiente online

Antes dessa nova legislação, o artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já previa pena de 1 a 3 anos de prisão para quem simulasse a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de montagem ou manipulação de imagem.

Posteriormente, o Congresso aprovou uma atualização do ECA, sancionada pelo presidente Lula em setembro. A norma, conhecida como ECA Digital, consolidou e ampliou regras de proteção no ambiente online.

O ECA Digital determina que plataformas monitorem e removam rapidamente conteúdos nocivos, proíbe publicidade direcionada e o perfilamento comportamental de crianças e adolescentes, exige a vinculação de contas de menores a responsáveis legais e prevê sanções que vão de advertências a multas de até R$ 50 milhões e, em casos graves, à suspensão ou proibição de funcionamento por decisão judicial.

A entrada em vigor do estatuto digital está prevista para 17 de março, marco que deve pressionar empresas de tecnologia a reforçar mecanismos de proteção e resposta a casos de violência sexual facilitada por ferramentas digitais.

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