Moradores e entidades apontam violações e queda na pesca a 10 anos da inauguração de Belo Monte
Relatos em Altamira e Anapu citam redução de peixes, deslocamentos, perda de renda e piora no acesso a água; Norte Energia defende papel da usina no sistema elétrico e diz ter investido mais de R$ 8 bilhões em ações socioambientais
05/05/2026 às 16:23por Redação Plox
05/05/2026 às 16:23
— por Redação Plox
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Aos 70 anos, o pescador Élio Alves da Silva diz que a chegada da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), é uma lembrança que ele preferia apagar. Morador da comunidade de Santo Antônio, em Vitória do Xingu (PA), ele afirma que as transformações provocadas pelo empreendimento marcaram sua vida e a de outras famílias atingidas.
Pescador Élio Silva, atingido pelo desvio do rio Xingu durante a construção da usina de Belo Monte.
Foto: Élio Silva/Arquivo Pessoal
Silva conta que ouviu falar do projeto pela primeira vez no início da década de 1980, cinco anos depois de o governo brasileiro ter iniciado os Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu, voltados a mapear o potencial energético da região. Ele relata que, naquele período, equipes entraram na mata para realizar levantamentos e intervenções no território.
Chegou ali uma empresa que se chamava Cenec [Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A]. Eles entraram naquelas matas, cortaram tudo, abriram picadas, derrubaram as veredas e fizeram detonação de dinamite para ter uma certeza se a região suportava a barragem
Élio Alves da Silva
Nesta terça-feira (5), completam-se dez anos da inauguração oficial da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, planejada em meados da década de 1970. O empreendimento ganhou repercussão internacional desde que surgiu a proposta de desviar 80% do fluxo do Rio Xingu, em um trecho de 130 quilômetros, para abastecer o reservatório.
Da abundância de peixes ao deslocamento de famílias
Élio lembra que, antes das mudanças se intensificarem, havia fartura no rio. Ele cita espécies como pescada, tucunaré, filhote, dourada, pacu, jaraqui e curimatá, além de peixes ornamentais. Segundo ele, a comunidade trabalhava com mais de 20 espécies de peixes ornamentais.
Com o avanço das intervenções, relata, as explosões se intensificaram e os peixes começaram a desaparecer. Foi quando ele e outras 67 famílias receberam a informação de que precisariam deixar o local. Silva afirma que a comunidade queria ser reassentada em conjunto, mas isso não ocorreu.
Ele diz ter recebido uma pequena chácara nos arredores de Altamira (PA), no mesmo valor atribuído à antiga casa. Os cinco filhos, segundo seu relato, foram destinados a moradias em outros locais, distantes, sem assistência financeira ou produtiva. Também afirma que, nesse processo, chegou a depender de ajuda para se manter e que sua carteira de pescador foi cancelada.
Impacto na renda e na segurança alimentar
Na mesma época, Sara Lima, moradora da comunidade de Belo Monte do Pontal, em Anapu (PA), pescava no Rio Xingu com os pais. Ela conta que cresceu em uma família de pescadores e lembra de uma rotina em que a alimentação era baseada no que o rio fornecia.
Diferentemente de Élio, Sara afirma que sua família não precisou se mudar. Ainda assim, diz que a capacidade de gerar renda e a segurança alimentar sustentadas pelo Xingu foram comprometidas após as mudanças no rio. Ela relata que, onde antes havia água limpa e oferta de peixe, hoje a comunidade enfrenta dificuldades para acessar água potável e manter a alimentação como era antes.
Sara Lima, moradora da comunidade de Belo Monte do Pontal, em Anapu (PA), sente os impactos da construção da usina de Belo Monte.
Foto: Divulgação/Matsi Matxïrï
Carta aberta aponta agravamento de violações
Para marcar os dez anos de Belo Monte, a Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (Aida), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), a Diocese de Altamira, a Justiça Global, o Movimento Xingu Vivo Para Sempre, o Observatório dos Povos Indígenas Isolados (OPI) e a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) divulgaram uma carta aberta em defesa de comunidades indígenas, ribeirinhas e pescadoras artesanais do médio curso do Rio Xingu.
O documento destaca o agravamento das violações ao longo dos anos e relaciona esse cenário às mudanças climáticas. A carta menciona secas extremas na Amazônia em 2016, 2019, 2020, 2023 e 2024, afirmando que esses eventos aprofundaram impactos já existentes e expuseram fragilidades do empreendimento.
As organizações também lembram que, em julho de 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) reconheceu, em parecer consultivo, a obrigação de os países responderem à emergência climática como um direito internacional, com deveres de proteção às populações afetadas, como a garantia de ambiente saudável e a promoção de soluções legais eficazes, além de proteção e reparação contra impactos das mudanças do clima.
Petição na CIDH e avaliação de “desastre socioambiental”
A advogada do Programa de Direitos Humanos e Meio Ambiente da Aida, Erina Gomes, afirma que o parecer consultivo reforça uma petição apresentada por organizações sociais à CIDH desde 2011, que pede a responsabilização do Estado por violação de direitos fundamentais durante a construção de Belo Monte.
Segundo ela, a expectativa é que um relatório de mérito da Corte Interamericana contribua para uma jurisprudência regional voltada à Amazônia, com o objetivo de evitar impactos socioambientais semelhantes em futuros projetos de transição energética. No mesmo contexto, Erina ressalta que empreendimentos descritos como de “energia limpa” não podem ser implementados sob violações sistemáticas de direitos humanos.
Norte Energia cita investimentos e papel no sistema elétrico
Administrada pela concessionária Norte Energia, maior acionista do empreendimento desde 2010, Belo Monte é considerada pelo setor essencial para o Sistema Interligado Nacional. Em nota, a empresa afirma que a usina atende, em média, a 5% da demanda anual de energia elétrica do país, em todos os estados, e que, nos horários de pico de consumo, chega a produzir até 16% da demanda nacional.
A Norte Energia informa que mais de R$ 8 bilhões já foram investidos em compromissos socioambientais do licenciamento. Entre os resultados listados pela empresa estão a construção de três hospitais, 63 unidades básicas de saúde, reforma ou construção de 99 escolas, criação de seis bairros, reflorestamento de uma área equivalente a três mil campos de futebol e ações voltadas a comunidades indígenas nas áreas de atividades produtivas, proteção territorial, saúde e educação.
Apesar desses dados, organizações sociais e moradores atingidos afirmam que os projetos não foram concluídos e que as iniciativas implementadas foram insuficientes para reparar os danos. Para Sara Lima, medidas pontuais não compensam a perda do que o rio oferecia no dia a dia, em alimento e sustento.