Casos de estupro de vulnerável sobem em São Paulo e chegam a 2.942 no 1º trimestre

Dados da SSP-SP mostram alta mês a mês em 2026; especialista cita fatores como ambiente digital, maior mobilização para denúncias e sensação de impunidade, além da ausência de delegacias especializadas previstas em lei.

06/05/2026 às 18:14 por Redação Plox

O estado de São Paulo registrou 2.942 casos de estupro de vulnerável — principalmente contra crianças e adolescentes — entre janeiro e março de 2026. Dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-SP) apontam que o total representa dez ocorrências a mais do que no mesmo período de 2025.

Ao longo do trimestre, os registros cresceram mês a mês: foram 892 casos em janeiro, 915 em fevereiro e 1.135 em março. 


O estado de São Paulo registrou 2.942 estupros de vulneráveis, principalmente de crianças e adolescentes, de janeiro a março de 2026.

Foto: Arquivo Agência Brasil


Crescimento e fatores apontados por especialista

Para Ariel de Castro Alves, advogado e membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB, há uma escalada da violência sexual contra mulheres e meninas em São Paulo e no país. Ele relaciona esse cenário ao ambiente digital, citando a atuação de fóruns misóginos que se multiplicam na internet e defendem a submissão de meninas e mulheres.

O aumento da violência sexual em São Paulo e no Brasil tem ligação com a incitação e apologia às violências sexuais por meio da internet, como fazem os chamados grupos red pills Ariel de Castro Alves

O advogado também avalia que a sociedade está mais consciente e mobilizada para denunciar esse tipo de crime.

Delegacias especializadas e sensação de impunidade

Alves destaca ainda a relação entre o aumento de casos e a sensação de impunidade, apontando que muitos crimes não são denunciados e, quando chegam às autoridades, nem sempre são investigados de forma adequada.

Ele chama a atenção para o fato de que, apesar dos números elevados, São Paulo segue como o único estado do país sem Delegacias Especializadas de Proteção de Crianças e Adolescentes (DPCA). A SSP-SP foi procurada, mas não respondeu até o fechamento da matéria.

Segundo Alves, essas unidades estão previstas em legislação desde 2017 e funcionam em estados como Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, entre outros. Ele afirma que a ausência dessas delegacias em São Paulo impacta diretamente a condução de investigações, citando como exemplo que um caso de estupro coletivo contra duas crianças na Zona Leste da capital está sob apuração do 63º Distrito Policial, enquanto um caso semelhante ocorrido em Copacabana, no Rio de Janeiro, foi investigado por uma DPCA. 


Dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-SP) apontam que o total representa dez ocorrências a mais do que no mesmo período de 2025.

Foto: Divulgação/FREEPICK


Estupro coletivo na Zona Leste de São Paulo

O estupro mencionado ocorreu em 21 de abril, no bairro Vila Jacuí, na Zona Leste da capital paulista. Um menino de 7 e outro de 10 anos foram atraídos por cinco suspeitos — um maior de idade e quatro adolescentes — após um convite para empinar pipa.

De acordo com o relato do caso, o grupo levou as crianças a um imóvel da comunidade sob o pretexto de buscar linha de pipa e tomar banho. No local, cometeram os crimes.

Um dos envolvidos, Alessandro Martins dos Santos, de 21 anos, foi indiciado nesta terça-feira (5) pela Polícia Civil, após ser transferido de Brejões (BA), onde havia sido capturado, para São Paulo. Segundo a Polícia Civil, ele confessou o crime e não demonstrou arrependimento, apenas preocupação com as consequências legais. Ele responderá por estupro de vulnerável.

Outros quatro adolescentes, com idades entre 14 e 16 anos, também foram apreendidos e confessaram participação. Eles serão encaminhados à Fundação Casa.

O caso só chegou ao conhecimento da polícia três dias após os abusos, quando a irmã de uma das vítimas reconheceu o menino em vídeos que circulavam nas redes sociais e registrou denúncia. A família teria sido supostamente pressionada a não procurar as autoridades.

As vítimas recebem acompanhamento médico e psicológico e ficarão sob proteção do Conselho Tutelar. A localização das famílias é mantida em sigilo.

Caso citado no Rio de Janeiro

O outro episódio mencionado por Alves ocorreu no Rio de Janeiro e envolveu uma adolescente estuprada por cinco homens, sendo um deles menor de idade. O mais novo foi apreendido e os outros quatro foram presos. O crime ocorreu em um apartamento em Copacabana, na zona sul da capital fluminense, em janeiro deste ano.

Ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), Alves afirma que as DPCAs contam com psicólogos e assistentes sociais, além de policiais capacitados com base nas leis de proteção da infância e juventude, o que contribuiria para um atendimento mais humanizado, qualificado e integrado à rede de proteção.

Maio Laranja reforça ações contra abuso e exploração sexual

Desde 2022, o mês de maio é dedicado a ações de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Conforme a lei que instituiu a mobilização, o Maio Laranja prevê atividades como iluminação de prédios públicos, palestras, eventos e ações educativas, além da veiculação de campanhas e da oferta de informações sobre prevenção e enfrentamento desse tipo de violência.

O movimento também inclui a divulgação intensiva de canais de denúncia, como o Disque 100. A campanha é realizada nacionalmente pelo Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e pela Rede ECPAT Brasil, em parceria com Redes Nacionais de Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes. Nos estados e municípios, a mobilização é promovida por comitês e representantes descentralizados dessas entidades.

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