Inflação acelera e economia encolhe na Argentina, ampliando pressão sobre Milei

Com escândalos de corrupção, pesquisas apontando desaprovação acima de 60% e recuo da indústria, governo enfrenta o momento mais difícil; também houve tensão com a imprensa após restrições na Casa Rosada.

06/05/2026 às 18:28 por Redação Plox

O governo do ultraliberal Javier Milei atravessa seu momento mais difícil à frente da Argentina, pressionado por escândalos de corrupção, perda de popularidade e piora na atividade econômica e industrial. A inflação, que vinha sendo a principal vitrine política da Casa Rosada, voltou a acelerar no início de 2026


Governo do ultraliberal Javier Milei enfrenta o pior momento à frente da Argentina em meio a escândalos de corrupção, queda nos índices de popularidade e na atividade econômica e industrial.

Foto: Tomas Cuesta/Getty Images


Depois de reduzir a inflação mensal de dois dígitos no fim de 2023 para cerca de 2% ao mês ao longo de 2025, os preços voltaram a subir entre o final do ano passado e o começo deste ano, chegando a 3,4% em março. Diante da alta, Milei reconheceu publicamente as dificuldades:

“O dado é ruim”

escreveu em uma rede social.

Ao mesmo tempo, a economia argentina registrou retração de 2,6% em fevereiro, na comparação com janeiro, e acumula queda de 2,1% nos últimos 12 meses. A indústria apresentou um quadro ainda mais preocupante: a produção industrial caiu 4% em fevereiro e soma recuo de 8,7% no período de um ano.

Plano econômico e pressão sobre a indústria

O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Paulo Gala, avalia que o plano econômico de Milei é “simplista” e não tem sido suficiente para reverter completamente a situação herdada. Para ele, a falta de confiança no peso estimula a dolarização de contratos e torna a inflação mais sensível a choques.

As pessoas não confiam mais no peso [moeda argentina]. Elas dolarizam [cotam em dólar] os contratos, um pouco parecido com o que aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, com qualquer coisa a inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada

Paulo Gala

O governo de Milei defende a redução do tamanho do Estado, com corte de gastos e austeridade fiscal, como caminho para conter a inflação e recuperar a economia. Na avaliação de Gala, a estratégia tende a esbarrar em limites e exigiria outras medidas, como a criação de uma nova moeda.

O economista também aponta que o peso estaria sobrevalorizado, o que, segundo ele, prejudica a indústria. Ele relaciona a queda da atividade manufatureira a perdas de produtividade e de capacidade tecnológica e afirma que a abertura comercial conduzida pelo governo tem pressionado o setor industrial. Na leitura do especialista, a tendência é de desindustrialização e maior dependência do país do setor agroexportador de matérias-primas.

Gala não descarta um cenário de recessão e a possibilidade de nova crise cambial, em um contexto de endividamento em dólares. Segundo ele, a Argentina tem buscado novos empréstimos com bancos internacionais, em moeda americana, para sustentar o valor do peso.

Corrupção e popularidade em queda

Além do desempenho econômico, casos recentes de corrupção têm alimentado a queda na popularidade do governo. Um dos exemplos citados é a investigação sobre suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, que vem sendo questionado sobre viagens de luxo e compra e reforma de imóveis consideradas, na apuração, possivelmente incompatíveis com sua renda.

Pesquisas de opinião indicam piora na percepção do governo. Os levantamentos têm registrado desaprovação superior a 60%, os piores índices desde a posse, em dezembro de 2023. Um estudo da Atlas Intel, no final de abril, apontou reprovação de 63% a Milei e aprovação de 35%.

De acordo com a consultoria Zentrix, 66,6% da população avaliam que se “quebrou” a promessa “anti-casta” de combate à corrupção. A empresa afirma ainda que a corrupção aparece como principal desafio do país, inclusive entre eleitores do partido governante em 2025, à frente de temas como desemprego, inflação e salários.

O cientista político argentino Leandro Gabiati disse à Agência Brasil que Milei foi eleito com forte apoio no discurso anticorrupção, mas que esse argumento vem sendo desgastado ao longo do mandato. Ele observa que, apesar de a população reconhecer a redução da inflação, os preços continuam subindo e permanecem em um patamar elevado no acumulado anual.

Na avaliação de Gabiati, um fator que tem favorecido o governo é a desorganização da oposição e a falta de uma alternativa política clara para o eleitorado argentino. Ele pondera que a eleição presidencial de 2027 ainda está distante, mas afirma que a gestão terá de lidar com problemas mais imediatos.

Alívio no risco, mas quadro geral segue pressionado

Em um sinal positivo para o governo, a consultoria de riscos Fitch Rating elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B-, com perspectiva estável, citando melhorias na situação fiscal e na balança externa. Como consequência, a bolsa de Buenos Aires opera em alta nesta quarta-feira (6).

Para Paulo Gala, no entanto, a melhora na classificação não altera o quadro geral enfrentado pela economia argentina.

Tensão com a imprensa na Casa Rosada

Em meio ao cenário de pressão econômica e política, o governo Milei também tem direcionado críticas à imprensa. No fim de abril, a administração proibiu a entrada de jornalistas na Casa Rosada, afetando cerca de 60 profissionais que cobriam o Poder Executivo em Buenos Aires.

Algumas emissoras foram acusadas de filmar áreas do edifício sem autorização, o que foi negado pelas empresas de mídia. Após críticas à medida, apontada como violação à liberdade de imprensa na Argentina, o governo reabriu a Casa Rosada para a imprensa nesta segunda-feira (3), embora tenha mantido restrições de circulação no prédio.

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