Temporada de gripe começa mais cedo e casos graves por influenza quase dobram no Brasil em 2026
Levantamento aponta alta entre janeiro e meados de março; mais de 800 mortes por vírus respiratórios já foram registradas, e Contagem decretou emergência
Uma parcela significativa dos conteúdos sobre saúde mental publicados nas redes sociais é enganosa — e o TikTok aparece como a plataforma com os piores indicadores, segundo uma revisão da Universidade de East Anglia. O alerta é que vídeos populares podem disseminar informações imprecisas com rapidez, influenciando principalmente jovens que recorrem à internet para interpretar sintomas e buscar possíveis diagnósticos.
A pesquisa analisou mais de 5 mil postagens em redes como YouTube, TikTok, Facebook, Instagram e X (antigo Twitter), com temas que incluíam autismo, TDAH, depressão, ansiedade e outros transtornos. Em alguns recortes, a desinformação chegou a 56% do conteúdo analisado.
Publicado no The Journal of Social Media Research, o trabalho é descrito como a primeira revisão sistemática a comparar, em larga escala, a qualidade das informações sobre saúde mental e neurodivergência em diferentes plataformas.
Imagem ilustrativa
Foto: Freepik
Entre as redes avaliadas, o TikTok foi identificado como o ambiente com maior volume de informações imprecisas ou sem base científica. Em recortes por tema, os pesquisadores encontraram índices elevados de erro: 52% dos vídeos sobre TDAH eram imprecisos, e 41% dos conteúdos sobre autismo continham informações incorretas.
Na comparação, o YouTube apresentou cerca de 22% de desinformação, enquanto o Facebook registrou menos de 15%.
Segundo os autores, os algoritmos — especialmente os do TikTok — favorecem conteúdos com alto engajamento em pouco tempo, o que contribui para a viralização de informações incorretas.
O estudo aponta que o problema vai além da circulação de conteúdos imprecisos. Muitos jovens usam as redes sociais como principal fonte para entender sintomas e buscar possíveis diagnósticos, o que pode levar à interpretação equivocada de comportamentos comuns como transtornos, atrasar diagnósticos corretos e reforçar estigmas e medo em relação a doenças mentais.
Os pesquisadores também alertam que conselhos sem comprovação científica podem atrasar intervenções eficazes e agravar quadros clínicos, além de dificultar a busca por tratamento adequado.
A análise comparou conteúdos produzidos por profissionais de saúde com os de influenciadores e usuários comuns. A diferença foi expressiva: apenas 3% dos vídeos feitos por profissionais continham erros, enquanto entre não profissionais o índice chegou a 55%.
Apesar disso, conteúdos confiáveis ainda representam uma parcela pequena do material disponível nas plataformas.
Outro ponto destacado pela revisão é o funcionamento dos algoritmos. Quando um usuário demonstra interesse por um tema, passa a receber conteúdos semelhantes em sequência, o que cria as chamadas “câmaras de eco” e pode reforçar informações falsas ou exageradas — cenário descrito no estudo como uma “tempestade perfeita” para a disseminação da desinformação.
Entre os ambientes analisados, o YouTube Kids apareceu como um ponto fora da curva. A plataforma não apresentou desinformação sobre ansiedade e depressão e registrou 8,9% de conteúdo impreciso sobre TDAH, resultado atribuído a regras mais rígidas de moderação.
Já o YouTube tradicional foi considerado inconsistente, com variação de acordo com o tema e o criador.
Os pesquisadores defendem que profissionais de saúde e instituições ampliem sua presença nas redes sociais com conteúdos baseados em evidências. A revisão também sugere a melhoria na moderação das plataformas, a criação de ferramentas para avaliar a qualidade das informações e definições mais claras sobre o que é desinformação em saúde mental.
Médicos afirmam que o autodiagnóstico incorreto tem sido discutido exaustivamente em encontros, simpósios e congressos ligados à saúde mental. Ao g1, a psiquiatra Izabela Souza afirmou que, ao mesmo tempo em que cresce o interesse pelo tema, também aumenta a circulação de sites, blogs e entrevistas com pessoas que desconhecem o assunto — incluindo conteúdos usados para autopromoção ou interesses pessoais, além de informações falsas ou levianas.
Essas informações errôneas impactam desastrosamente a vida de pessoas com transtornos mentais e seus familiares, quando banalizam ou glamurizam condições que trazem sofrimentoIzabela Souza
Segundo Souza, esse tipo de conteúdo induz a diagnósticos e tratamentos errados e contribui para visões preconceituosas ou distorcidas sobre condições médicas bem documentadas e estudadas. Ela cita como exemplo uma entrevista divulgada com um suposto médico que teria “descoberto” o TDAH e afirmava que a condição não existia, além da circulação de curas milagrosas para pessoas com TEA.
A psiquiatra também avalia que a banalização de transtornos mentais sérios é um retrocesso. No caso da depressão, por exemplo, ela aponta que há risco de confundir tristezas e frustrações inevitáveis da vida com uma doença grave — o que pode levar a pessoa a não buscar uma abordagem correta, atribuir tudo ao diagnóstico e se frustrar quando não melhora.
Souza menciona ainda que a banalização do diagnóstico pode invalidar demandas de famílias que buscam acomodação específica para crianças com transtorno de aprendizado e pode afetar famílias de pessoas com autismo, gerando sentimento de fracasso e dificultando a obtenção de direitos.
Entre os riscos apontados por Souza estão o atraso ou impedimento de um diagnóstico, com impacto na qualidade de vida e no prognóstico; diagnósticos errados que levam a abordagens e tratamentos inadequados; além de “fórmulas mágicas” sem evidências de eficácia ou segurança, que podem provocar consequências e efeitos colaterais indesejados.
A médica também alerta para o risco de indução e glamourização de comportamentos que colocam a vida do paciente em perigo. Ela menciona casos em que pacientes jovens viram em vídeos ou postagens que a automutilação poderia ajudar a diminuir a dor do momento.
Especialistas recomendam que, ao buscar informações sobre saúde mental, o público verifique quem está postando o conteúdo, procure páginas de associações reconhecidas e artigos científicos e busque um profissional de saúde de confiança para orientar o caminho até o diagnóstico e o tratamento.
As orientações incluem ainda não acreditar cegamente em modismos e checar a formação de quem divulga a informação. Souza acrescenta que postagens levianas e falsas devem ser denunciadas aos órgãos competentes para investigação e apuração da veracidade do que é divulgado.