Atendimentos por infertilidade masculina no SUS mais que dobram em dez anos
Casos passam de 725 em 2015 para 2,5 mil em 2024; especialistas apontam quebra de tabus, piora do estilo de vida e reforçam importância do diagnóstico precoce
12/01/2026 às 09:28por Redação Plox
12/01/2026 às 09:28
— por Redação Plox
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O número de atendimentos relacionados à infertilidade masculina no Sistema Único de Saúde (SUS) mais que dobrou em dez anos, de acordo com dados do Ministério da Saúde obtidos pelo g1. Em 2015, foram 725 registros. Em 2024, o total chegou a 2,5 mil, o maior da série histórica. Em 2025, até setembro, já haviam sido contabilizados 1,5 mil atendimentos.
Os números incluem atendimentos ambulatoriais e hospitalares registrados nos Sistemas de Informações Ambulatoriais e Hospitalares (SIA e SIH). Eles não equivalem ao total de pessoas atendidas nem a diagnósticos fechados de infertilidade, já que um mesmo paciente pode passar por mais de uma consulta ou procedimento ao longo do tempo.
Infertilidade masculina: o mais importante é quebrar tabus e confirmar diagnóstico
Foto: Divulgação Nidus Medicina Reprodutiva
Infertilidade masculina: o mais importante é quebrar tabus e confirmar diagnóstico
Foto: Divulgação Nidus Medicina Reprodutiva
Mesmo com essas ressalvas, especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a curva de crescimento traduz uma combinação de fatores: mudança de comportamento, maior acesso aos serviços de saúde e aumento de condições que prejudicam a fertilidade masculina.
O aumento dos atendimentos não pode ser interpretado isoladamente como aumento direto da prevalência da infertilidade, mas ele mostra que mais homens estão chegando ao sistema de saúde e que os fatores de risco estão mais presentes
Guilherme Guimarães, urologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo
Quebrar tabus, procurar atendimento e confirmar o diagnóstico são hoje apontados como pontos centrais no enfrentamento da infertilidade masculina.
Alta de registros após a pandemia
Após oscilações ao longo dos anos, os registros passaram a crescer de forma mais consistente a partir de 2021, período que coincide com a retomada dos atendimentos depois da fase mais crítica da pandemia de Covid-19 e com a ampliação do acesso aos serviços de saúde.
Para o urologista e andrologista Rafael Ambar, especialista em Medicina Sexual e Reprodutiva do Homem pela Faculdade de Medicina do ABC e médico do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), os dados refletem o que vem sendo observado na prática clínica.
Ele avalia que o aumento não se resume a maior procura por consultas: também aponta para a maior presença de fatores que afetam a fertilidade masculina, como obesidade, sedentarismo, uso de anabolizantes, poluição ambiental e adiamento da decisão de ter filhos.
Infertilidade masculina é frequente nos casais
Na literatura médica, considera-se infertilidade quando não ocorre gravidez após um ano de relações sexuais regulares, sem uso de métodos contraceptivos. Quando a mulher tem mais de 35 anos ou existem fatores de risco conhecidos, a investigação costuma começar antes.
Estudos e a experiência em consultório indicam que o fator masculino está presente em 40% a 50% dos casos de infertilidade conjugal, seja como causa única, seja associado a fatores femininos.
Segundo o urologista Romulo Nunes, médico assistente do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp) e cirurgião geral da Clínica Sartor, a lógica da investigação mudou: deixar o homem para depois pode atrasar diagnóstico e tratamento.
A infertilidade é entendida hoje como um problema do casal, e a avaliação masculina precisa ocorrer desde o início da investigação.
Principais causas: de varicocele ao estilo de vida
A expressão infertilidade masculina funciona como um guarda-chuva para diferentes alterações clínicas. Entre as causas mais comuns, especialistas destacam:
• varicocele, dilatação das veias dos testículos, presente em até 40% dos casos e potencialmente tratável;
• alterações hormonais, muitas vezes associadas ao uso de testosterona e anabolizantes;
• infecções do trato genital, como clamídia, que podem deixar sequelas;
• obesidade, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool;
• exposição a poluentes ambientais, agrotóxicos e calor excessivo;
• efeitos tardios de tratamentos oncológicos, como quimioterapia e radioterapia.
De acordo com Guilherme Guimarães, em termos populacionais, obesidade, sedentarismo e uso de substâncias têm impacto maior do que muitos fatores genéticos, por serem muito mais prevalentes.
O excesso de gordura corporal favorece inflamação crônica e alterações hormonais, como queda de testosterona, além de aumentar a temperatura na região dos testículos — ambiente que compromete a produção de espermatozoides. Sedentarismo e consumo de álcool, tabaco e outras drogas intensificam esse efeito, elevando o estresse oxidativo e piorando a qualidade do sêmen, com redução da quantidade, da mobilidade e da integridade genética dos espermatozoides.
Idade também interfere na fertilidade do homem
Ao contrário do que o senso comum ainda sustenta, a fertilidade masculina não se mantém estável ao longo da vida. Após os 40 anos, há queda progressiva na qualidade do sêmen, com redução da contagem e da mobilidade dos espermatozoides, além de aumento de alterações genéticas.
Rafael Ambar chama atenção para a ideia, ainda disseminada, de que apenas a idade da mulher influencia a fertilidade. Ele destaca que a idade paterna avançada pode dificultar a gravidez e prolongar o tempo necessário para o casal conseguir engravidar.
Pesquisas também associam idade paterna mais elevada a maior risco de alterações genéticas e de transtornos do neurodesenvolvimento nos filhos.
Condição silenciosa e frequentemente subdiagnosticada
Na maioria dos casos, a infertilidade masculina não provoca sintomas. O homem sente-se saudável, tem função sexual preservada e só descobre a alteração após meses ou anos de tentativas de gravidez sem sucesso.
Ainda assim, alguns sinais merecem atenção e avaliação médica:
• varicocele visível ou palpável;
• dor ou sensação de peso nos testículos;
• histórico de testículo que não desceu, torção testicular ou caxumba com inflamação;
• uso atual ou prévio de testosterona ou anabolizantes;
• exposição ocupacional frequente a calor ou substâncias químicas.
Para Romulo Nunes, justamente por ser silenciosa, a condição tende a ser subdiagnosticada: muitos homens só chegam ao consultório depois de longos períodos de tentativa e frustração.
Tratamento vai além da reprodução assistida
Uma parcela significativa dos casos é reversível, sobretudo quando ligada a causas adquiridas. Nem todo quadro de infertilidade masculina leva diretamente às técnicas de reprodução assistida.
Segundo Nunes, tratamento de varicocele, correção de infecções e mudanças de estilo de vida podem melhorar parâmetros seminais. Essas intervenções, porém, levam alguns meses para surtir efeito, já que o ciclo de produção dos espermatozoides é longo.
Quando essas medidas não bastam, entram em cena as técnicas de reprodução assistida. Em cerca de 20% dos casos, entretanto, a causa exata da infertilidade permanece desconhecida.
Mitos, exames e diagnóstico precoce
Tabus e desinformação ainda atrasam o diagnóstico. Entre os mitos mais comuns estão a crença de que ter ereção e ejaculação garante fertilidade, a ideia de que homens são férteis a vida toda e a percepção de que reposição de testosterona ajuda a engravidar — na prática, costuma ocorrer o contrário.
A investigação começa com avaliação clínica e exame físico, realizados por urologista ou andrologista, para identificar alterações nos testículos, no trajeto do sêmen e a presença de varicocele.
Na sequência, o principal exame é o espermograma, que analisa quantidade, mobilidade e formato dos espermatozoides. Como os resultados podem variar, o exame costuma ser repetido.
Dependendo do caso, são solicitados exames hormonais, para avaliar produção de testosterona e outros hormônios, e ultrassonografia da bolsa escrotal, útil para detectar varicocele e alterações anatômicas. Testes genéticos ficam reservados para quadros mais graves, como ausência completa ou número muito baixo de espermatozoides.
Quanto mais cedo o homem entra na investigação, maiores as chances de encontrar causas tratáveis e evitar intervenções mais complexas.