População em situação de rua em Minas cresce 41% e estado vira o 3º do país
Levantamento da UFMG com dados do CadÚnico mostra salto de 23,4 mil para 33,1 mil pessoas em situação de rua em Minas Gerais entre 2020 e 2025; Belo Horizonte já é a 3ª cidade do Brasil em número de registros
14/01/2026 às 07:42por Redação Plox
14/01/2026 às 07:42
— por Redação Plox
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O número de pessoas em situação de rua em Minas Gerais cresceu de forma significativa entre 2020, início da pandemia de Covid-19, e 2025. Levantamento de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base em dados do Cadastro Único do governo federal (CadÚnico), aponta que a população em extrema vulnerabilidade saltou de 23.433 para 33.139 pessoas em cinco anos, um aumento de 41%.
Imagem ilustrativa
Foto: Pixabay
As estatísticas foram compiladas pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua e pelo programa Polos de Cidadania, ambos da UFMG. Em números absolutos, Minas Gerais é hoje o terceiro estado com mais pessoas em situação de rua no país, atrás apenas de São Paulo, que registra 150.958 pessoas, e do Rio de Janeiro, com 33.656.
No Brasil como um todo, o cenário também se agravou no período analisado. O total de pessoas em situação de rua passou de 194.824 para 365.882, um avanço de 87% em cinco anos, segundo o mesmo levantamento.
Raízes históricas e impacto da pandemia
De acordo com o pesquisador Cristiano Silva, do Polos/UFMG, a situação atual da população em situação de rua está ligada a um processo histórico de vulnerabilização social e ausência de políticas públicas estruturantes. Ele lembra que esse quadro remonta ao período pós-abolição da escravidão, quando pessoas recém-libertas foram empurradas para os morros, sem qualquer tipo de apoio do Estado.
Na avaliação de Silva, a pandemia de Covid-19 agravou a realidade de quem já vivia em condições precárias, tanto pela piora nas condições de vida quanto pela redução de políticas públicas voltadas aos mais vulneráveis. Esse cenário, segundo o pesquisador, contribuiu para o aumento do número de pessoas que passaram a viver nas ruas.
Belo Horizonte entre as capitais com mais moradores de rua
Os dados do CadÚnico mostram que Belo Horizonte é a terceira cidade do país com maior número de pessoas em situação de rua, somando 15.474 registros. A capital mineira fica atrás apenas de São Paulo, com 101.461 pessoas nessa condição, e do Rio de Janeiro, com 23.431.
Silva relaciona a maior concentração dessa população nas capitais e grandes centros urbanos a fatores como infraestrutura disponível, conflitos fundiários e efeitos da emergência climática. Ele também ressalta que pessoas que viviam em cidades menores frequentemente são pressionadas a se deslocar para centros urbanos, onde há mais serviços e abrigos, em um contexto em que o Brasil se tornou também destino de migrantes de outros países.
Interiorização e críticas às políticas em Minas Gerais
Embora a concentração permaneça nas grandes cidades, o pesquisador observa que cresce o número de pessoas em situação de rua no interior do estado. Em relação a Minas Gerais, ele avalia que políticas públicas vêm sendo encerradas ou enfraquecidas, enquanto ganham espaço discursos violentos de autoridades contra essa população, em vez de estratégias de acolhimento.
Na análise de Silva, a ausência de comprometimento do poder público tende a alimentar o aumento da população em situação de rua, na medida em que reduz alternativas de proteção social e acesso a direitos básicos.
Resposta do governo de Minas e ações em andamento
Em nota, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) de Minas Gerais afirmou manter compromisso com a promoção e garantia de direitos da população em situação de rua. A pasta informou que, desde 2019, o estado vem fortalecendo políticas voltadas a esse grupo, com foco na articulação intersetorial e no apoio aos municípios.
A secretaria ressaltou que, de acordo com a estrutura do Sistema Único de Assistência Social (Suas), cabe ao estado organizar, coordenar, monitorar e cofinanciar a política estadual de assistência social, além de prestar apoio técnico e financeiro às cidades. Já a oferta direta de serviços socioassistenciais, incluindo aqueles voltados à população em situação de rua, é responsabilidade primária dos municípios.
Segundo a Sedese, o governo mineiro atua na orientação às prefeituras sobre a proteção dos direitos dessa população, incluindo o respeito à dignidade e à integridade das pessoas e a vedação de práticas que violem direitos fundamentais, como o recolhimento indevido de pertences. A secretaria cita como exemplo o uso do Piso Mineiro de Assistência Social, que em 2025 somou R$ 130,7 milhões, além de parcerias com instituições não governamentais.
Entre as iniciativas citadas está o Projeto Piloto Moradia Primeiro, desenvolvido em Belo Horizonte em parceria com a Pastoral do Povo da Rua. Na primeira etapa, o programa prevê a reforma e melhoria de unidades habitacionais, com investimento de R$ 500 mil. A segunda fase, com previsão de R$ 5 milhões, inclui a construção de novas moradias e de um Centro de Atenção Intersetorial voltado a pessoas em situação de rua.