Álcool aumenta risco de vários tipos de câncer e não há consumo totalmente seguro, apontam estudos

Revisão científica citada por especialistas indica relação causal e classifica bebidas alcoólicas como carcinógeno do Grupo 1; risco cresce com a quantidade de etanol e pode aumentar mesmo em doses baixas

14/03/2026 às 07:50 por Redação Plox

O consumo de bebidas alcoólicas está associado ao aumento do risco de diversos tipos de câncer, segundo especialistas e estudos internacionais. Mesmo assim, a relação entre álcool e a doença ainda surpreende parte da população quando aparece em vídeos ou campanhas nas redes sociais.

Um estudo realizado por pesquisadores da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) aponta que o consumo de bebidas alcoólicas é um fator de risco importante e evitável. A estimativa é que o álcool seja responsável por cerca de 4% de todos os casos de câncer no mundo. Especialistas ouvidos pelo portal de notícias g1 explicam quais são os principais riscos, se existe uma quantidade segura de consumo e quais são as recomendações de saúde.


Imagem ilustrativa

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Foto: Freepik


Quais tipos de câncer estão associados ao álcool

O consumo de bebidas alcoólicas está associado ao aumento do risco de diversos tipos de câncer, entre eles:

  • cavidade oral
  • glândula salivar
  • faringe
  • laringe
  • esôfago
  • cólon
  • reto
  • fígado
  • mama
  • estômago

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classifica as bebidas alcoólicas como carcinógeno do Grupo 1, a categoria mais alta de risco. Isso significa que há evidências suficientes de que o álcool causa câncer em humanos.

Como o álcool pode causar câncer

Segundo as nutricionistas da área técnica do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Maria Eduarda Leão e Gabriela Vianna, o etanol presente nas bebidas alcoólicas, ao ser metabolizado no organismo, se transforma em acetaldeído, uma substância com alto potencial carcinogênico. Esse composto pode provocar danos no DNA das células.

O álcool também facilita a entrada de outras substâncias carcinogênicas no organismo, provenientes da dieta ou do ambiente. Um exemplo é a combinação entre álcool e tabaco, que pode provocar danos específicos no DNA das células, potencializados na presença do álcool. Por isso, a associação entre os dois aumenta ainda mais o risco de câncer de boca, faringe e laringe.

O álcool ainda aumenta o estresse oxidativo nas células e favorece processos inflamatórios. A inflamação crônica eleva o risco de lesões no DNA. Dependendo da forma de ingestão, também pode alterar a absorção de nutrientes importantes para o funcionamento do sistema imunológico.

Como foi feito o estudo citado

O estudo foi realizado como uma revisão científica abrangente. Isso significa que os autores não fizeram um novo experimento com pessoas, mas analisaram and resumiram as evidências que já haviam sido publicadas por outros cientistas até junho de 2021.

Entre as etapas descritas estão:

Busca em bancos de dados: os pesquisadores identificaram bibliotecas digitais de medicina em busca de estudos que mostrassem estatísticas de câncer e os processos biológicos que explicam como a doença surge.

Seleção de provas: o foco recaiu sobre metanálises (estudos que combinam resultados de centenas de outras pesquisas para dar um veredito mais confiável) e relatórios de instituições como o Fundo Mundial de Pesquisa sobre o Câncer (WCRF).

Uso da genética (Randomização Mendeliana): para reforçar a relação de causa entre o álcool e o câncer, foram analisados estudos que utilizam variantes genéticas como ferramenta para entender se o consumo está de fato ligado ao desenvolvimento de tumores, e não apenas a coincidências estatísticas.

Existe uma quantidade segura de álcool?

De acordo com os estudos citados, não existe um nível de consumo de álcool que possa ser considerado totalmente seguro em relação ao risco de câncer. Embora o risco varie de acordo com o tipo de tumor, as evidências indicam que mesmo níveis baixos de consumo podem aumentar a probabilidade de desenvolver a doença.

Um estudo estima que mais de 100 mil casos de câncer registrados em 2020 foram associados ao consumo leve a moderado de álcool, o equivalente a cerca de uma ou duas doses por dia.

As nutricionistas do INCA destacam que o fator mais importante para o aumento do risco de câncer é a quantidade de etanol consumida, em um efeito chamado de dose-resposta: quanto maior o consumo, maior o risco de alguns tipos de câncer. Elas também indicam que o aumento do risco ocorre mesmo em doses muito baixas. Por isso, não há níveis seguros de ingestão em relação ao câncer.

Todos os tipos de bebidas alcoólicas têm impacto semelhante no risco: cerveja, vinho ou destilados.

Álcool como desafio de saúde pública

O Instituto Nacional de Câncer afirma que desenvolve ações para ampliar a conscientização da população sobre os riscos associados ao consumo de álcool. Entre elas está a participação nas discussões da reforma tributária, especialmente sobre o chamado imposto seletivo, que incide sobre produtos considerados prejudiciais à saúde.

De acordo com o órgão, já existem evidências científicas suficientes de que o preço é um fator importante para o consumo, o que torna a cobrança desse imposto uma ferramenta relevante para desestimular o uso de um produto reconhecidamente nocivo à saúde.

No Brasil, estudos indicam que duas pessoas morrem por hora por causas atribuíveis ao consumo de álcool. Para o câncer, especialistas reforçam que não há níveis seguros de ingestão e que, por isso, não há coerência em promover incentivos ou benefícios à produção e à comercialização desses produtos.

Os autores do estudo citado concluem que, embora o álcool seja classificado como carcinógeno do Grupo 1 há mais de 30 anos, a conscientização pública sobre essa relação ainda é baixa. A partir dessa constatação, defendem a ampliação de políticas de controle do álcool e de estratégias de prevenção para reduzir a carga global da doença.

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