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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) — O Banco Central autorizou Daniel Vorcaro a assumir o controle do Banco Máxima, instituição que deu origem ao Master, após concluir que ele demonstrou capacidade econômica para ser acionista controlador e comprovou a origem dos recursos, segundo autoridades com acesso a documentos do órgão.
A decisão foi tomada em 14 de outubro de 2019, durante a gestão de Roberto Campos Neto, no governo do presidente Jair Bolsonaro. O aval ocorreu oito meses depois de o BC ter rejeitado a mesma operação, quando o órgão era presidido por Ilan Goldfajn. Nos dois episódios, a deliberação da diretoria colegiada foi unânime.
De 2017 a 2019, Vorcaro apresentou ao menos duas vezes a chamada "declaração de propósito" para a compra do Máxima
Foto: crédito: Foto: Divulgação/Master
De 2017 a 2019, Vorcaro apresentou ao menos duas vezes a chamada declaração de propósito para comprar o Máxima, com alterações na estrutura de controle proposta. Naquele período, ele já era participante qualificado da instituição, com ao menos 15% do capital total.
No pedido que acabou rejeitado, a equipe técnica do BC apontou falhas no processo. A principal incerteza do regulador estava na origem dos recursos, considerada nebulosa.
Na tentativa que não prosperou, Vorcaro apresentou, entre outros elementos, a distribuição de resultados da Viking Participações — empresa conhecida por deter três aeronaves que o banqueiro costumava usar, além de terrenos e fundos de investimento. Segundo relato de um interlocutor ouvido pela reportagem, técnicos do BC passaram a suspeitar de “circularização” de recursos, isto é, de que o próprio Máxima estaria financiando a operação.
Essa foi a principal barreira à compra naquele momento. A negativa foi noticiada pelo jornal Valor Econômico e confirmada pela reportagem em conversas com pessoas envolvidas no processo de aquisição do Máxima pelo Master.
Como Vorcaro não atendia aos requisitos econômicos, o BC não chegou a analisar a condição de reputação ilibada. A recusa foi relatada por Sidnei Corrêa Marques, então diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central.
À época, o Máxima — então controlado por Saul Dutra Sabbá — enfrentava dificuldades financeiras e estava próximo de ser liquidado pelo Banco Central. A compra por Vorcaro era vista como uma solução de mercado para enfrentar a crise.
Por causa do quadro do banco, que incluía desenquadramento de regras prudenciais, a diretoria de Fiscalização foi consultada. Segundo uma fonte com conhecimento do caso, não há indícios de interferência dessa área no processo.
Outro interlocutor recorda que Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor de Fiscalização, afirmou aos colegas que eventuais problemas futuros com Vorcaro poderiam ser enfrentados pela supervisão. Paulo Sérgio esteve à frente da diretoria de Fiscalização entre 2017 e 2023 e, conforme citado no texto, é alvo da Polícia Federal, sob suspeita de ter prestado consultoria informal a Vorcaro.
Em trecho de mensagem encontrada pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, ele escreveu a um destinatário identificado como Paulo que estava havia dois anos sendo rechaçado e humilhado e pediu ajuda para que Sidnei aprovasse a operação antes de sair.
Eu fiz todas as mudanças e concessões. Ate (sic) hoje não consegui iniciar o trabalho efetivamente por conta do imbroglio (sic) do capital. Precisamos resolver isso, precisamos de sua ajuda para que o Sidnei aprove agora, antes da sua saída Mensagem atribuída a Daniel Vorcaro, encontrada pela Polícia Federal
A suspeita mencionada no texto é que a mensagem se referisse a Paulo Sérgio e a Sidnei Corrêa Marques. A comunicação é do início de fevereiro de 2019, pouco antes da rejeição da operação. No mês seguinte, a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução passou ao comando de João Manoel Pinho de Mello.
Procurada, a defesa de Paulo Sérgio afirmou, em nota, que ele não se recorda do teor e do contexto da mensagem, mas lembra que, no caso do Máxima, havia problema relacionado à comprovação de capacidade econômica. A nota também disse ser usual que a área de supervisão subsidie a área de Organização, mas que a decisão de encaminhar voto para deliberação é sempre da Diorf (Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução).
A defesa de Vorcaro foi procurada por WhatsApp em 14 de abril, às 9h38, mas não se manifestou por meio da assessoria de imprensa até a publicação da reportagem.
O recurso de Vorcaro foi desenhado com a orientação de escritórios especializados, entre eles o Warde Advogados. Parte do processo teve assessoramento jurídico-regulatório de Isaac Sidney, atual presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).
Após pedir exoneração do BC e cumprir quarentena, Sidney passou a integrar o escritório que tinha o Máxima como cliente; o Warde Advogados também trabalhou para o Master e para Vorcaro. Entre o fim de outubro de 2018 e abril de 2019, ele atuou na análise regulatória e jurídica do processo de capitalização do Máxima e na alteração do controle acionário.
Segundo o relato no texto, Sidney disse à reportagem que sua atuação foi técnica e regulatória, sem caráter decisivo, e que deixou o vínculo com o escritório dois meses após o indeferimento. Ele entrou na Febraban em maio de 2019 e afirmou que não houve tratativas ou atuação sua no caso após o ingresso na entidade.
Depois da negativa, um novo pedido foi apresentado ao BC em abril de 2019. Dessa vez, Vorcaro entrou ao lado de Armando Miguel Gallo Neto e Felipe Wallace Simonsen, por intermédio da 133 Investimentos e Participações. Segundo um interlocutor, pendências apontadas anteriormente foram resolvidas e novos documentos foram apresentados.
De acordo com relatos de duas pessoas, Vorcaro entregou, por exemplo, balanço auditado da Viking Participações, com demonstração de fluxo de caixa e perspectiva de resultados, fez ajustes nas declarações de Imposto de Renda e teria conseguido empréstimo para aportar recursos. Além disso, os novos acionistas compraram letras financeiras subordinadas, instrumento que permite captação com conversão para capital do banco.
Com o novo conjunto de informações, a equipe técnica concluiu que Vorcaro conseguiu demonstrar capacidade econômica para ser acionista do Máxima e comprovar a origem dos recursos.
Como Vorcaro já era participante do Máxima, o Banco Central entendeu que o requisito de capacidade técnica estava atendido. Em relação à reputação ilibada, o texto afirma que, até então, não havia inquérito policial ou ação criminal contra ele que impedisse a operação.
Na cúpula do BC, havia a percepção de que Vorcaro era um vigarista e havia quem defendesse prolongar as tratativas com novas exigências. Ainda assim, pesou o entendimento de que ele cumpria os requisitos objetivos avaliados pelo órgão — e que uma recusa poderia trazer problemas jurídicos ao Banco Central.