Anvisa alerta para riscos do excesso de cúrcuma em suplementos e possíveis lesões no fígado
Compostos antioxidantes e anti-inflamatórios podem ter efeito contrário em altas doses; abuso de curcumina também pode causar irritação gastrointestinal e interações medicamentosas
16/04/2026 às 22:40por Redação Plox
16/04/2026 às 22:40
— por Redação Plox
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Conhecida por dar cor, aroma e sabor aos pratos, a cúrcuma também reúne compostos com ação antioxidante e anti-inflamatória. O problema começa quando a busca por esses efeitos leva ao consumo em excesso, especialmente em suplementos com altas doses de curcumina, principal componente do tempero. Nesses casos, o efeito pode ser o inverso do esperado e favorecer processos inflamatórios, sobretudo no fígado.
É por isso que agências reguladoras de diversos países passaram a acompanhar com mais atenção o uso indiscriminado desses produtos. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou comunicado chamando a atenção para o abuso da substância. Órgãos de países como Itália, França, Alemanha, Austrália e Canadá também já emitiram alertas sobre os riscos do consumo indiscriminado de suplementos contendo curcumina.
Fígado no centro do risco
Entre os órgãos mais afetados está o fígado, responsável por funções essenciais que vão da digestão à síntese de colesterol e à reserva de energia. Também cabe a ele eliminar toxinas e metabolizar medicações e suplementos, sejam fitoterápicos ou não.
A curcumina, quando ingerida em altas doses, pode causar lesões hepáticas, mas os mecanismos por trás disso ainda não estão completamente elucidados
Fernando Pandullo
Segundo o hepatologista Fernando Pandullo, do Einstein Hospital Israelita, uma das hipóteses é que o sistema imunológico esteja envolvido nesse processo, ao provocar uma reação inflamatória. O risco pode aumentar com o uso prolongado de cápsulas com grande concentração da substância, especialmente em pessoas com cirrose e esteatose, além de indivíduos com obesidade, hipertensão e consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
Sinais como icterícia — com mucosas e olhos amarelados —, cansaço e perda de apetite podem indicar hepatite. De acordo com Pandullo, o quadro costuma regredir em poucas semanas após a suspensão do suplemento.
Imagem ilustrativa
Foto: Pixabay
Efeitos também podem atingir o trato gastrointestinal
O problema não se limita ao fígado. Em doses elevadas, a curcumina pode irritar a mucosa do trato gastrointestinal, com sintomas como náuseas, dores abdominais e diarreia, que constam entre os sintomas listados pela Anvisa.
O nutrólogo Diogo Toledo, também do Einstein, ressalta ainda a possibilidade de interação medicamentosa, sobretudo com anticoagulantes. Para ele, a ideia de que tudo o que é “natural” é automaticamente seguro pode ser perigosa, especialmente quando o consumo ocorre por conta própria.
Curcumina em alta concentração e fórmulas que aumentam a absorção
Apesar de a cúrcuma ter ação anti-inflamatória, há quem recorra às cápsulas sem orientação, buscando alívio para condições como artrite e inflamações intestinais. Além do risco ligado à alta concentração de curcumina, o texto destaca que existem formulações vendidas fora do Brasil com recursos que aumentam a absorção da substância, como a nanotecnologia.
Outra combinação que pode potencializar efeitos é a curcumina com piperina, substância da pimenta-do-reino, associada ao aumento da biodisponibilidade, conforme aponta a nutricionista e fitoterapeuta Vanderlí Marchiori, conselheira da Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT).
Na culinária, uso tende a ser seguro
A curcumina integra os compostos fenólicos e é responsável pela coloração amarela intensa do tempero. O pó é obtido do rizoma da Curcuma longa, planta asiática também chamada de açafrão-da-terra — e que não deve ser confundida com o açafrão (Crocus sativus), obtido de outra planta, originária da região do Mediterrâneo, apesar da semelhança na cor.
Para o preparo, a raiz é fervida ou aquecida no vapor d’água e depois desidratada, embora também possa ser encontrada fresca. Como tempero, a cúrcuma tem baixa biodisponibilidade, e o texto recomenda combiná-la com azeite, outros óleos vegetais ou manteiga e aquecer, já que o calor melhora o aproveitamento e ajuda a liberar compostos aromáticos.
Na cozinha — inclusive como ingrediente do curry, ao lado de pimenta, gengibre, canela, cravo e coentro —, o consumo é considerado seguro. Ainda assim, o texto reforça que os benefícios dependem de integração com outros hábitos saudáveis, como acontece com qualquer alimento.
O alerta vale para outros suplementos, como vitaminas
O material também chama atenção para o uso indiscriminado de vitamínicos. Segundo Diogo Toledo, existe a percepção de que o excesso de vitaminas “vai embora pela urina”, o que é verdadeiro no caso da vitamina C, por ser hidrossolúvel.
Já as vitaminas lipossolúveis — A, D, E e K — podem se acumular no organismo e atingir níveis tóxicos quando usadas por tempo prolongado e em doses altas. A orientação é que a suplementação ocorra apenas em caso de deficiência confirmada por exames, na quantidade correta e por um período determinado, com acompanhamento médico.