Estudo aponta: dengue eleva em até 30 vezes o risco de Síndrome de Guillain-Barré nas primeiras semanas
Pesquisa da Fiocruz Bahia com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres analisou bases do SUS e indica maior risco de SGB após infecção por dengue; especialistas pedem inclusão da complicação nos protocolos de vigilância
16/04/2026 às 18:19por Redação Plox
16/04/2026 às 18:19
— por Redação Plox
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nUm estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz Bahia e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres aponta que pessoas infectadas pelo vírus da dengue têm um risco 17 vezes maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas seguintes à infecção. Nas duas primeiras semanas após o início dos sintomas, o risco pode chegar a 30 vezes.
Os dados foram publicados na revista científica New England of Medicine. Em números absolutos, a pesquisa estima que, a cada 1 milhão de casos de dengue, 36 pessoas podem desenvolver SGB — uma ocorrência considerada pequena, mas relevante diante das epidemias recorrentes no Brasil, segundo os autores.
Pessoas infectadas pelo vírus da dengue têm um risco 17 vezes maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré.
Foto: Reprodução / Agência Brasil
Complicação rara e potencialmente grave
A SGB é descrita no estudo como uma complicação neurológica rara e potencialmente grave. Os pesquisadores também destacam a expansão da dengue no mundo, afirmando que a doença se espalhou mais rapidamente do que qualquer outra transmitida por mosquitos, com 14 milhões de casos registrados em 2024.
Para chegar aos resultados, a equipe da Fiocruz Bahia analisou três grandes bases de dados do Sistema Único de Saúde (SUS): internações hospitalares, notificações de casos de dengue e registros de mortes. Na análise, foram identificadas mais de 5 mil hospitalizações por SGB entre 2023 e 2024. Desse total, 89 ocorreram logo após o paciente apresentar sintomas da dengue.
Recomendação para protocolos e preparo da rede
De acordo com os pesquisadores, é urgente que gestores de saúde pública passem a incorporar a SGB como complicação pós-dengue nos protocolos de vigilância.
Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue
pesquisadores
Segundo a Fiocruz, o levantamento também serve de alerta para profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e neurologistas, ao indicar que deve haver suspeita de SGB em pacientes com histórico recente de dengue — nas últimas seis semanas — que apresentem fraqueza nas pernas ou formigamento.
Diagnóstico precoce e tratamento
Os autores do estudo ressaltam que o diagnóstico precoce é fundamental. O tratamento, com imunoglobulina ou plasmaférese, tende a ser mais eficaz quando iniciado rapidamente.
O trabalho também defende o incentivo à notificação de casos de SGB pós-dengue e a comunicação à vigilância epidemiológica municipal ou estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus.
Prevenção segue como principal estratégia
De acordo com a Fiocruz, não existe atualmente tratamento antiviral específico para a dengue, e o manejo clínico se baseia em hidratação e suporte. Por isso, os pesquisadores destacam que a prevenção — com foco no combate ao mosquito Aedes aegypti e na vacinação — continua sendo a medida mais eficaz.
A vacinação contra a dengue, apontam, pode reduzir de forma significativa o número de casos e, com isso, diminuir o número absoluto de complicações graves como a SGB. Para os autores, enquanto não houver um antiviral eficaz, evitar a infecção também significa reduzir o risco de sequelas neurológicas potencialmente graves.
Brasil e o impacto das epidemias recorrentes
Na avaliação da Fiocruz, o Brasil vive epidemias frequentes de dengue. Em 2024, o país ultrapassou 6 milhões de casos prováveis. Assim, ainda que a SGB seja rara, o volume de infecções pode tornar o número absoluto de pessoas afetadas significativo, o que reforça a necessidade de preparo do sistema de saúde.
O estudo lembra ainda que a relação entre arboviroses e complicações neurológicas já havia sido evidenciada durante a epidemia de Zika em 2015 e 2016, quando o vírus foi associado à microcefalia em bebês e a um aumento expressivo de casos de SGB em adultos. A dengue pertence à mesma família do Zika.
O que é a Síndrome de Guillain-Barré
A SGB é uma condição neurológica rara em que o próprio sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos, que conectam o cérebro e a medula espinhal ao restante do corpo. O quadro provoca fraqueza muscular que geralmente começa nas pernas e pode avançar para braços e rosto, podendo, em casos graves, dificultar a respiração.
Nessas situações, o paciente pode ficar completamente paralisado e necessitar de aparelhos para respirar. A maioria das pessoas se recupera, mas o processo pode levar meses ou até anos, e alguns pacientes podem permanecer com sequelas permanentes.