Exportações aquecem mercado de carne bovina, mas alta do boi pressiona margens
Demanda chinesa impulsiona embarques e receita, enquanto custos do gado e regras de cotas e tarifas podem influenciar preços nos próximos meses
16/04/2026 às 10:31por Redação Plox
16/04/2026 às 10:31
— por Redação Plox
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O mercado de carne bovina atravessa um período de demanda externa intensa, ao mesmo tempo em que enfrenta uma pressão crescente de custos — combinação que pode reduzir a margem dos frigoríficos e influenciar os preços ao longo dos próximos meses. A avaliação é de Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercados.
Segundo Iglesias, o movimento recente do boi gordo — referência do setor para o bovino macho, geralmente com até 42 meses e pronto para abate — está ligado ao que ele chama de “super demanda”, em meio à aceleração de compras envolvendo exportadores brasileiros e importadores chineses.
Carne bovina: Em 2025, o Brasil embarcou cerca de 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura.
Foto: (Freepik)
É um contexto em que tanto os exportadores brasileiros quanto os importadores chineses aceleraram as compras para preencher a maior parcela possível da cota. Esse cenário impulsionou fortemente as negociações, resultando em um desempenho extremamente favorável nas exportações
Fernando Iglesias
Embarques avançam em abril e preços acumulam alta em 12 meses
Um relatório do BTG, divulgado na terça-feira, 14, indica que, na segunda semana de abril, os embarques brasileiros cresceram 30,7% na comparação mensal e 15% em relação ao mesmo período de 2025, chegando a 13,9 mil toneladas por dia.
O avanço veio acompanhado de valorização nos preços: alta de 4,5% no mês e ganho acumulado de 20,8% em 12 meses. No período, as vendas externas de carne bovina somaram US$ 84,5 milhões, um salto de 36,6% frente a março e de 39% na comparação anual.
Os dados reforçam a leitura de demanda internacional aquecida, mesmo com um câmbio menos favorável. A valorização do real frente ao dólar, de cerca de 11,7% em 12 meses, tende a reduzir a competitividade das exportações, mas, até aqui, não foi suficiente para desacelerar o ritmo dos embarques.
Cotas da China pressionam decisões e aumentam a volatilidade
Iglesias atribui parte importante dessa dinâmica às cotas de exportação de carne impostas pela China, anunciadas no fim de 2025. Em dezembro, o país asiático determinou tarifas adicionais de 55% sobre importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos caso os embarques ultrapassem os limites estabelecidos.
De acordo com o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), a cota total para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. O Brasil ficou com 41,1% desse volume, o equivalente a 1,1 milhão de toneladas.
No ano passado, a China manteve a liderança como principal destino da carne bovina brasileira, com 1,7 milhão de toneladas importadas e US$ 8,90 bilhões movimentados — altas de 25,5% em volume e 48,3% em valor na comparação com 2024. Já o volume embarcado pelo Brasil em 2025 ficou cerca de 600 mil toneladas acima do teto atualmente permitido.
Na leitura do analista, a corrida para ocupar a cota ajudou a elevar os embarques e a utilização das plantas. Agora, porém, ele vê mudança de postura: frigoríficos começariam a operar com mais cautela na formação de preços e nas compras, considerando o fim da cota chinesa como referência.
Embora não haja confirmação de paralisações no Centro-Oeste, fontes do mercado afirmam que JBS e MBRF deram férias coletivas a unidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Para Iglesias, o mercado tende a ficar mais instável, com picos quando a China estiver ativa nas compras e quedas mais acentuadas nos períodos de ausência.
Alta do gado pressiona spreads e comprime margens
Apesar do cenário favorável para exportações, o relatório do BTG chama atenção para o aumento de custos. Na avaliação do banco, o preço do gado continua subindo e pressionando os spreads — a diferença entre o preço de venda e o custo —, o que comprime a margem dos frigoríficos mesmo com valores de comercialização mais altos.
Os dados citados apontam que os spreads seguem em queda no curto prazo, refletindo o descompasso entre a alta do boi gordo e a capacidade de repasse ao mercado.
Dianteiro puxa reajustes e cortes nobres sobem menos
Em 2026, o mercado do boi gordo acumulou alta relevante, com destaque para o avanço do dianteiro bovino, enquanto cortes nobres tiveram reajustes mais limitados.
No primeiro dia útil de janeiro, o boi gordo em São Paulo era negociado a R$ 318,42 por arroba. O traseiro bovino estava em R$ 25,40 e o dianteiro, em R$ 17,85. Já em 14 de abril, as cotações passaram para R$ 369,78 por arroba no caso do boi, R$ 28 para o traseiro e R$ 23 para o dianteiro.
Segundo dados da Safras & Mercados, isso representa alta de 16% para o boi gordo, 10,24% para o traseiro e 28,85% para o dianteiro. Iglesias explica que o dianteiro reúne cortes de menor valor agregado, como acém, paleta e peito, enquanto o traseiro concentra cortes nobres, como alcatra, picanha e filé mignon, com maior dificuldade de reajuste por já partirem de patamares mais altos.
Pressão entre maio e outubro e incerteza com a política chinesa
Para os próximos meses, Iglesias aponta tendência de pressão sobre preços entre maio e outubro, com maior disponibilidade de produto e provável recuo nas cotações. Ainda assim, ele ressalta que o mercado segue cercado de incertezas em função da política comercial chinesa e do encerramento das cotas, que tem gerado apreensão no setor brasileiro.
Na visão do BTG, o desempenho operacional das companhias deve continuar dependendo principalmente da evolução do preço do gado, apontado como o principal limitador para a expansão de margens.