Em artigo no New York Times, Lula critica bombardeios dos EUA na Venezuela e alerta para erosão do direito internacional
Presidente diz que ataque militar dos EUA à Venezuela é ‘capítulo da erosão da ordem multilateral’, defende soberania latino-americana e afirma que futuro do país vizinho deve ser decidido pelo próprio povo
18/01/2026 às 22:33por Redação Plox
18/01/2026 às 22:33
— por Redação Plox
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Em artigo publicado neste domingo (18) no jornal The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a atuação dos Estados Unidos na crise da Venezuela e defendeu o fortalecimento do sistema multilateral. Segundo ele, os bombardeios em território venezuelano e a captura do presidente do país, no início de janeiro, representam “mais um capítulo lamentável da contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”.
Lula critica ações dos EUA na Venezuela e defende multilateralismo
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Lula critica ações unilaterais e aplicação seletiva de normas
No texto, Lula aponta o que considera ataques recorrentes de grandes potências à autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) e de seu Conselho de Segurança. Para o presidente, “quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”.
Ele também alerta para os efeitos da aplicação seletiva das normas internacionais, que, em sua avaliação, compromete todo o sistema global. “Se as normas são seguidas apenas de forma seletiva, instala-se a anomia, que enfraquece não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo”, escreveu.
Segundo Lula, “sem regras coletivamente acordadas, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”.
Responsabilização sem intervenção externa
No artigo, o presidente reconhece que chefes de Estado ou de governo, “de qualquer país”, podem ser responsabilizados por ações que atentem contra a democracia e os direitos fundamentais. Ele ressalta, porém, que “não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça”.
De acordo com Lula, “ações unilaterais ameaçam a estabilidade em todo o mundo, desorganizam o comércio e os investimentos, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais”.
O presidente considera “particularmente preocupante” a aplicação dessas práticas à América Latina e ao Caribe, região que, segundo ele, busca a paz com base na igualdade soberana das nações, na rejeição ao uso da força e na defesa da autodeterminação dos povos.
América Latina, soberania e multipolaridade
Lula afirma que, em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos. Ele sublinha que a América Latina e o Caribe, com mais de 660 milhões de habitantes, “têm seus próprios interesses e sonhos a defender”.
Num contexto de mundo multipolar, o presidente defende que nenhum país deve ter suas relações externas questionadas por buscar a universalidade. Ao tratar da postura regional, afirma que a região não será subserviente a empreendimentos hegemônicos e sustenta que “construir uma região próspera, pacífica e plural é a única doutrina que nos serve”.
Agenda regional positiva e cooperação
No artigo, Lula propõe a construção de uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas. Ele afirma que o objetivo é atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover empregos de qualidade, gerar renda e ampliar o comércio dentro da região e com outros países.
Segundo o presidente, a cooperação é essencial para mobilizar os recursos necessários ao combate à fome, à pobreza, ao tráfico de drogas e às mudanças climáticas. Nesse contexto, ele sustenta que o futuro da Venezuela, assim como o de qualquer outro país, deve permanecer nas mãos de seu povo.
Para Lula, apenas um processo político inclusivo, liderado por venezuelanos, poderá levar a um futuro democrático e sustentável para o país.
Relação com Venezuela e Estados Unidos
Ao tratar da política externa brasileira, Lula afirma que o Brasil continuará trabalhando com o governo e o povo venezuelanos para proteger os mais de 1.300 quilômetros de fronteira compartilhada e aprofundar a cooperação bilateral.
Sobre a relação com os Estados Unidos, o presidente destaca que Brasil e EUA são as duas democracias mais populosas do continente americano e defende a convergência em torno de planos concretos de investimento, comércio e combate ao crime organizado como caminho a seguir.
Ele conclui que somente por meio da atuação conjunta será possível enfrentar os desafios que afligem um hemisfério que, nas suas palavras, pertence a todos.