Personal é filmado comendo no chão de vestiário da Smart Fit em Porto Velho e caso expõe precarização
Vídeo gravado por aluno mostra personal autônomo se alimentando no chão do vestiário masculino; após repercussão, academia expulsa frequentador que fez o registro e reacende debate sobre dignidade, regras internas e privacidade em redes de academias
18/01/2026 às 07:23por Redação Plox
18/01/2026 às 07:23
— por Redação Plox
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Um vídeo que mostra um personal trainer comendo dentro do banheiro de uma unidade da Smart Fit, em Porto Velho, viralizou nas redes sociais nesta semana e desencadeou uma série de questionamentos sobre condições de trabalho, regras internas da rede e a dignidade de profissionais que atuam em academias.
Aluno expulso da Smart Fit após divulgar vídeo do personal comendo no banheiro
Foto: Reprodução
A polêmica ganhou novo fôlego após a expulsão do aluno que registrou a cena. A decisão da academia dividiu opiniões e reacendeu o debate sobre até onde vão as responsabilidades legais das empresas e onde começam as obrigações morais relacionadas ao tratamento de trabalhadores e prestadores de serviço.
O vídeo foi gravado pelo empresário Allann França, cliente da academia, e mostra o personal trainer Guilherme Feitosa sentado no chão do vestiário masculino, se alimentando ao lado de um dos boxes de banho. Nas imagens, também aparecem alunos utilizando os urinóis, o que acentuou a discussão sobre privacidade e exposição de frequentadores do local.
Personal comendo no chão do banheiro da Smart Fit
Foto: Reprodução
Regras internas, contrato e rotina dos personal trainers
Guilherme atua como personal trainer autônomo, modelo adotado por redes como a Smart Fit. Nessa forma de contratação, profissionais firmam um contrato e pagam uma taxa mensal para utilizar o espaço e atender seus alunos matriculados, além de arcar com o uniforme exigido pela rede. No caso desta unidade, a mensalidade pelo uso da estrutura é de R$ 250.
Segundo as normas internas da Smart Fit, profissionais liberais não podem acessar os refeitórios da academia, tendo autorização apenas para circular pelas áreas de treinamento e pelos vestiários. A regra, embora prevista em contrato, passou a ser alvo de críticas após a repercussão das imagens.
Guilherme afirmou ao g1 que já conhecia essa limitação quando assinou o contrato, mas que havia recebido a promessa de que a empresa criaria um espaço adequado para alimentação dos personal trainers. Ele relata que, na prática, a solução nunca saiu do papel e que a rotina de muitos colegas passou a incluir refeições e até descanso dentro do banheiro.
De acordo com o personal, essa realidade teria sido presenciada por diversos alunos ao longo do tempo, o que gerou indignação e compaixão entre frequentadores. Após cerca de um ano atuando na academia, ele decidiu encerrar a parceria na última semana, justamente por não ver perspectiva de mudança.
Vazamento do vídeo, expulsão do aluno e repercussão
Com a decisão de sair da unidade, Guilherme expôs o motivo de sua saída aos seguidores, nas redes sociais. Alunos que já haviam registrado situações semelhantes resolveram então publicar vídeos que mostrariam a rotina de personal trainers em vestiários e banheiros, o que trouxe o tema à tona de forma mais ampla.
Um desses alunos foi o empresário Allann França, responsável pelo vídeo que circulou com mais força nas redes. Ele afirmou que a intenção era pressionar a academia a adotar medidas que garantissem melhores condições aos profissionais autônomos que atuam no local. Quando a direção da Smart Fit tomou conhecimento da gravação feita dentro do vestiário, decidiu expulsá-lo da unidade.
Em resposta ao g1, a empresa informou que existe uma proibição expressa de captação de imagens dentro dos vestiários com o objetivo de preservar a privacidade de alunos e usuários. Segundo a rede, qualquer cliente que descumpra essa norma está sujeito à expulsão.
Debate jurídico: entre o que é permitido e o que é aceitável
Especialistas em Direito do Trabalho apontam que o caso envolve diferentes camadas: o contrato firmado com personal trainers, as regras internas da academia, a proteção de dados e da imagem de clientes, e o princípio da dignidade da pessoa humana aplicado ao ambiente de trabalho.
Para o advogado Sandro de Melo Vieira, que atua na área trabalhista, é possível que empresas limitem o uso de espaços específicos, como refeitórios, por profissionais autônomos, desde que isso esteja devidamente previsto em contrato e comunicado de forma clara. Ao mesmo tempo, ele lembra que toda organização deve garantir condições básicas de saúde e higiene a quem circula ou presta serviços em suas dependências.
A advogada trabalhista Aline Silva avalia que o episódio expõe um cenário de precarização das relações de trabalho. Ela pontua que, embora o contrato firmado entre personal trainers e academia seja, em tese, apenas de uso de espaço e não configure vínculo empregatício numa análise inicial, a restrição de acesso a refeitórios e áreas de descanso pode ser interpretada como uma forma de discriminação.
Segundo a advogada, ainda que atuem como autônomos, esses profissionais pagam para utilizar a estrutura da academia e, portanto, devem ter asseguradas condições mínimas de higiene, segurança e respeito. Aline destaca que o ambiente de trabalho deve ser seguro para todos que prestam serviço ali e que não há espaço para práticas que possam ser vistas como desumanas ou discriminatórias.
No caso de Allann, o aluno expulso após divulgar o vídeo, Sandro pondera que a medida da academia pode ser juridicamente sustentada se houver norma interna clara, amplamente divulgada e aceita pelos frequentadores. Ainda assim, ele ressalta a necessidade de garantir ao cliente o direito de defesa e a possibilidade de contestar a punição.
O advogado observa que gravar dentro de um vestiário pode ser interpretado como ato ilícito, especialmente pela exposição de terceiros, mas também pode ser analisado sob a ótica da liberdade de expressão, dependendo do contexto e da finalidade da gravação. O debate, nesse ponto, gira em torno dos limites entre registrar uma situação considerada abusiva e violar a privacidade de outras pessoas.
Dignidade em foco e posicionamento da academia
Para pessoas como o empresário responsável pelo vídeo, o centro da discussão não se limita ao cumprimento da lei, mas ao que consideram um tratamento incompatível com a dignidade humana. A questão que se coloca é se uma empresa pode, ainda que amparada por normas internas e contratos, permitir que prestadores de serviço façam suas refeições dentro de um banheiro sem que isso afete sua imagem e sua responsabilidade social.
Nessa linha, a advogada trabalhista Aline Silva entende que o episódio envolve um afastamento de princípios básicos voltados à dignidade da pessoa humana, sobretudo quando um prestador de serviço acaba utilizando um espaço insalubre, como o banheiro, para se alimentar. Para ela, o cenário se agrava quando alguém denuncia a situação e é punido por isso, o que tende a gerar um efeito de silenciamento sobre outras possíveis queixas.
Procurada pelo g1, a Smart Fit foi questionada sobre a possibilidade de revisar contratos e regulamentos internos para garantir melhores condições aos profissionais independentes que atuam em suas unidades. A empresa respondeu que “está e sempre esteve atenta ao bem-estar e à segurança de seus profissionais e usuários”.
O Conselho Regional de Educação Física também foi acionado para comentar o caso, mas não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.