Hábitos como leitura e aprender idiomas podem reduzir risco de Alzheimer, aponta estudo
Pesquisa com quase 2 mil idosos acompanhados por oito anos associou “enriquecimento cognitivo” a menor risco de Alzheimer e de comprometimento cognitivo leve, além de possível atraso no surgimento das condições
18/02/2026 às 14:57por Redação Plox
18/02/2026 às 14:57
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
Manter, ao longo da vida, uma rotina de leitura, escrita e aprendizado de idiomas pode ser uma das estratégias mais eficazes para preservar a saúde do cérebro e reduzir o risco de Alzheimer na velhice. É o que indica um estudo conduzido pelo Rush University Medical Center, nos Estados Unidos, publicado na revista Neurology em 11 de fevereiro.
O novo estudo mostra que alguns hábitos específicos que envolvem atividades cognitivas podem adiar o Alzheimer em até cinco anos
Foto: Freepik
Segundo os pesquisadores, pessoas com maior nível de “enriquecimento cognitivo” — isto é, maior exposição a atividades intelectualmente estimulantes desde a infância — apresentaram 38% menos risco de desenvolver doença de Alzheimer e 36% menos risco de comprometimento cognitivo leve.
Os dados também sugerem que o envolvimento contínuo com leitura e outras práticas relacionadas à linguagem pode retardar o surgimento do Alzheimer em até cinco anos e do comprometimento cognitivo leve em até sete anos.
Estímulo intelectual e reserva cognitiva
A hipótese dos autores é que esse estímulo contínuo fortalece conexões neurais e contribui para a formação de uma “reserva cognitiva”, tornando o cérebro mais resistente às alterações associadas ao envelhecimento.
Nossos resultados sugerem que a saúde cognitiva na terceira idade é fortemente influenciada pela exposição ao longo da vida a ambientes intelectualmente estimulantes
Andrea Zammit
Estima-se que o Alzheimer afete entre 1,2 milhão e 1,8 milhão de pessoas no Brasil, sendo responsável por 55% a 60% dos casos de demência em idosos, o que reforça a relevância de estratégias preventivas ao longo de toda a vida.
Como a pesquisa foi conduzida
O estudo acompanhou 1.939 participantes, com idade média de 80 anos no início da pesquisa, por quase oito anos. Os voluntários responderam a questionários sobre seus hábitos intelectuais em três fases da vida: aos 12 anos, aos 40 anos e na idade atual.
A partir dessas respostas, os cientistas elaboraram uma escala de enriquecimento cognitivo, uma pontuação que mede o quanto cada pessoa esteve exposta, ao longo da vida, a atividades que estimulam o cérebro. Em seguida, compararam o desempenho cognitivo entre aqueles com pontuações mais altas e mais baixas.
Para o cálculo dessa pontuação, foram considerados fatores como frequência de leitura de livros, hábito de escrever, aprendizado de línguas estrangeiras, uso de dicionários e participação em ambientes culturais, como bibliotecas e museus. Quanto maior a regularidade e o tempo de dedicação a essas práticas, maior a pontuação na escala.
Os pesquisadores também analisaram o nível socioeconômico (NSE), incluindo escolaridade, renda e acesso a recursos educacionais, para verificar se o menor risco de demência poderia ser explicado apenas por melhores condições financeiras ou maior acesso à educação formal.
O resultado das comparações mostrou que o efeito protetor do enriquecimento cognitivo se manteve significativo, indicando que o benefício vai além da condição econômica.
Entre os participantes que faleceram durante o acompanhamento, foi feita análise do tecido cerebral. Os achados apontaram que aqueles com maior estímulo intelectual na infância apresentavam sinais de maior resistência ao acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, sugerindo um possível efeito biológico dessa reserva cognitiva.
Limitações e implicações dos achados
Os cientistas destacam que, apesar dos resultados promissores, o estudo aponta uma associação forte, mas não comprova relação de causa e efeito. Isso significa que não é possível afirmar que ler livros, por si só, impedirá o desenvolvimento da doença.
Outros fatores também influenciam o risco de Alzheimer, como qualidade do sono, prática de atividade física, alimentação e condições de saúde pré-existentes. Além disso, parte das informações foi baseada apenas na lembrança dos participantes sobre hábitos mantidos décadas antes.
Ainda assim, os resultados reforçam uma orientação já difundida por especialistas em saúde: manter o cérebro ativo ao longo da vida é uma das formas mais acessíveis de preservar a cognição na velhice e reduzir o risco de demência.
Os autores defendem, também, que políticas públicas voltadas ao estímulo do aprendizado contínuo — como ampliação de bibliotecas e programas educacionais — podem ter impacto importante na redução da incidência de demência na população.