Governo anuncia pacote para endurecer fiscalização do piso mínimo do frete e punir empresas infratoras

Medidas serão apresentadas nesta quarta (18) no Ministério dos Transportes, em meio à alta do diesel e ao temor de nova greve de caminhoneiros; plano prevê suspensão e cassação de registro, divulgação de infratoras e fiscalização total para reincidentes

18/03/2026 às 09:39 por Redação Plox

O governo federal deve anunciar na manhã desta quarta-feira (18), no Ministério dos Transportes, um pacote de medidas para endurecer a fiscalização do piso mínimo do frete e punir empresas que descumprirem a regra. O anúncio será feito pelo ministro dos Transportes, Renan Filho, e pelo diretor-geral da ANTT, Guilherme Sampaio. A ofensiva ocorre em meio à escalada dos preços do diesel e à preocupação do Executivo em evitar uma nova greve de caminhoneiros. Detalhes finais do pacote e a lista de empresas citadas ainda dependem do anúncio oficial.

O piso mínimo do frete é uma tabela obrigatória, criada após a greve dos caminhoneiros de 2018, que define quanto um frete precisa custar no mínimo, levando em conta tipo de carga, distância percorrida, número de eixos e outras variáveis. A política foi criada para impedir que caminhoneiros rodem “no prejuízo”.


Ministro dos Transportes, Renan Filho, durante uma coletiva de imprensa.

Ministro dos Transportes, Renan Filho, durante uma coletiva de imprensa.

Foto: TV Globo/Reprodução


Pacote prevê suspensão, cassação e lista pública de infratores

Segundo fontes do governo, o pacote em preparação inclui mecanismos mais duros contra transportadoras e contratantes que pagarem abaixo da tabela do frete.

Entre as medidas em estudo estão a suspensão imediata do registro de empresas flagradas descumprindo o piso e a cassação do registro em caso de reincidência. Também está prevista a divulgação pública, ainda hoje, dos nomes das principais empresas infratoras, além de um regime de fiscalização permanente e integral (100% das operações) para transportadoras reincidentes.

De acordo com auxiliares do Ministério dos Transportes, a avaliação interna é que a baixa efetividade da fiscalização atual facilita o pagamento de fretes abaixo do piso, alimentando uma das principais queixas de caminhoneiros autônomos. O governo quer alterar essa lógica e responder a uma reivindicação central da categoria.

Pressão do diesel e disputa em torno do ICMS

No front do diesel, o governo federal anunciou na semana passada uma desoneração de tributos federais, zerando PIS e Cofins sobre o combustível. A própria administração, porém, reconhece que o efeito prático da medida pode ser limitado se os estados não reduzirem o ICMS.

Governadores têm resistido a cortar o imposto, alegando perdas fiscais acumuladas. Ao anunciar as medidas sobre o diesel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu que os estados baixassem o ICMS dos combustíveis.

Nesta quarta-feira, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que deve se reunir com representantes dos estados para reiterar o pedido de redução do ICMS. Interlocutores da área econômica avaliam que, sem a colaboração dos estados, o preço final do diesel tende a permanecer alto, ampliando a insatisfação da categoria e o risco de uma nova paralisação.

Como funciona o piso mínimo do frete

A política do piso mínimo do frete está em vigor desde 2018 e é baseada em regras e coeficientes definidos em norma federal, com atualização periódica. O governo mantém um serviço oficial para cálculo do piso e informa que a política foi estabelecida por medida provisória convertida em lei federal.

Na esfera da fiscalização, a ANTT vem ampliando o uso de tecnologia e o cruzamento de dados. Em 2025, a agência informou ter avançado na identificação de fretes abaixo do mínimo com novas validações no MDF-e, utilizando informações declaradas em documentos fiscais para detectar irregularidades.

Reação do setor produtivo

A alta do diesel e o endurecimento sobre o piso mínimo do frete também mobilizam entidades empresariais. A CNA defende a redução temporária de tributos federais e estaduais sobre o diesel, apontando o peso do combustível nos custos de produção.

Já a CNI manifesta preocupação com o modelo de tabelamento, alegando possíveis efeitos sobre competitividade e segurança jurídica, e cita intensificação de autuações no início de 2026.

Impactos esperados para caminhoneiros, empresas e consumidores

Para caminhoneiros e transportadores autônomos, se confirmadas, as medidas podem elevar a contratação de fretes dentro do piso mínimo, reduzindo a prática de rodar com prejuízo. A efetividade, porém, dependerá da consistência da fiscalização e de como serão aplicados os critérios de reincidência e as sanções previstas.

Para embarcadores e transportadoras, o pacote amplia o risco regulatório para quem insiste em pagar abaixo da tabela, especialmente com o uso intensivo de fiscalização eletrônica e cruzamento de dados como o MDF-e. Isso pode elevar custos de frete em rotas onde o piso não vinha sendo respeitado.

Para consumidores, inclusive em estados como MG, SP, RJ e PR, o frete segue como componente relevante do preço de alimentos e outros produtos. Se o diesel continuar pressionado e o piso mínimo for aplicado de forma mais rígida, pode haver repasses ao longo da cadeia logística. Ao mesmo tempo, o governo tenta atenuar parte do choque via desoneração federal e negociações em torno do ICMS.

Próximos passos do governo

O próximo movimento será o anúncio oficial do Ministério dos Transportes e da ANTT, previsto para esta manhã de 18 de março de 2026. A expectativa é conhecer o texto final, a base legal das punições de suspensão e cassação de registros, os critérios de reincidência e se haverá efetivamente divulgação nominal das empresas infratoras.

Também será necessário acompanhar se haverá publicação de portarias, resoluções ou outros atos no Diário Oficial da União detalhando a operacionalização do pacote, inclusive a integração com sistemas como o MDF-e.

Na frente econômica, o governo deve manter a agenda de diálogo com os estados sobre o ICMS do diesel. A evolução desse embate será determinante para o humor dos caminhoneiros e para o risco de uma nova greve em meio à implementação das novas regras de fiscalização do piso mínimo do frete.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a