Defasagem do diesel da Petrobras chega a 74% e pode inviabilizar importações, aponta análise

Mesmo após reajuste de 11,6% em 13 de março de 2026, preço nas refinarias seguiria perto de 70% abaixo do custo de importação, elevando risco de desabastecimento no período de maior demanda

20/04/2026 às 17:07 por Redação Plox

O diesel vendido nas refinarias da Petrobras custa R$ 2,52 por litro a menos do que sairia para qualquer empresa importar o mesmo combustível no mercado internacional. Essa diferença — a defasagem — chegou a 74% no pico de março de 2026 e, mesmo após o reajuste de 11,6% promovido pela estatal em 13 de março, permanece em torno de 70%.

É a partir desse dado que Drew Crawford, sócio-gestor da Austral Continental, constrói uma análise sobre o que considera um ponto pouco observado por investidores internacionais ao avaliar ações brasileiras.


Defasagem do diesel: dilema para a Petrobras com petróleo em alta.

Foto: Divulgação / Petrobras


O que é a defasagem do diesel e por que ela pesa no mercado

O Brasil produz mais de 3,6 milhões de barris de petróleo por dia, mas a capacidade de refino do país não passa de 1,8 milhão de barris. Como o refino não dá conta da demanda interna por diesel — especialmente durante a safra de soja, entre março e junho — o país precisa importar entre 25% e 30% do combustível que consome.

O problema, segundo a análise, é que quando a Petrobras mantém preços domésticos abaixo da paridade de importação, importadores privados não conseguem trazer o produto e revendê-lo no Brasil sem prejuízo. Com isso, as importações privadas de diesel despencaram na comparação com o mesmo período do ano anterior.

O combustível que move cada caminhão, trator, ônibus e colheitadeira da oitava maior economia do mundo está sendo fornecido por uma única empresa, vendendo abaixo do custo, seis meses antes de uma eleição presidencial

Drew Crawford

A política de preços da Petrobras mudou em 16 de maio de 2023, quando o governo Lula abandonou a fórmula de paridade de importação adotada na gestão anterior. No modelo atual, Crawford descreve uma “estratégia comercial” baseada no “custo alternativo do cliente” e no “valor marginal para a Petrobras”, sem uma fórmula publicada, sem mecanismo de gatilho público e sem transparência sobre como ou quando os ajustes ocorrem.

Brent em disparada e reação com pacote emergencial

Quando o Brent saltou de US$ 65 para US$ 130 entre o fim de fevereiro e meados de março de 2026, a Petrobras manteve os preços congelados. Nesse período, a defasagem do diesel chegou a R$ 2,68 por litro.

O governo reagiu com um pacote emergencial que incluiu reajuste de R$ 0,38 por litro, zeragem do PIS/Cofins sobre o diesel importado (R$ 0,32 por litro) e subsídios estaduais de até R$ 1,20 por litro. No total, o alívio foi de R$ 1,52 por litro, pouco mais da metade da defasagem apontada.

O presidente da Abicom, Sérgio Araújo, avaliou as medidas como “insuficientes” e alertou para risco de “desabastecimento”. Crawford também destaca uma contradição na resposta: enquanto o governo subsidiava preços artificialmente baixos, a ANP puniu distribuidoras por cobrarem valores acima do tabelado.

Três caminhos para a Petrobras — e o peso da eleição

Crawford aponta três saídas possíveis, todas com custos relevantes. A primeira seria a Petrobras reajustar os preços. Do ponto de vista corporativo, ele cita que a empresa gerou US$ 42,5 bilhões de EBITDA em 2025, mantém dividend yield em torno de 5% e tem meta de redução de dívida de US$ 65 bilhões em cinco anos. Mas, com eleições em 4 de outubro de 2026, o analista afirma que elevar o diesel entre 60% e 70% em ano eleitoral seria politicamente inviável.

A CEO da Petrobras, Magda Chambriard, descartou novos reajustes após o ajuste de março. Para Crawford, isso indica que novos aumentos não devem ocorrer antes de outubro.

O segundo caminho seria ampliar subsídios para cobrir o restante da defasagem, o que implicaria custo adicional de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões por mês. Nesse cenário, ele menciona a dívida bruta em torno de 96% do PIB e o acompanhamento da Moody’s sobre o país, a um passo do grau do investimento.

A terceira opção, descrita como a que o governo parece ter escolhido, seria contar com uma queda do petróleo e absorver a compressão de margem. Na sexta-feira, 17, esse cenário ganhou força quando o Irã declarou Ormuz “completamente aberto”, o Brent caiu 11% e ficou abaixo de US$ 90. No sábado, Teerã recuou: a Guarda Revolucionária reassumiu o controle do estreito, atirou contra um navio-tanque, e os EUA apreenderam uma embarcação iraniana no Golfo de Omã. Na segunda-feira, o Brent voltou a US$ 95. O cessar-fogo expira nesta semana.

Impacto na inflação, nos juros e no apetite do investidor

O Copom se reúne nos dias 28 e 29 de abril, com alta probabilidade de corte de juros precificada pelo mercado. Crawford, porém, ressalta que o comitê não pode reduzir juros de forma agressiva se as expectativas de inflação estiverem desancoradas pela incerteza nos preços dos combustíveis.

O Boletim Focus desta segunda-feira trouxe nova revisão para cima do IPCA e passou a ver a Selic terminando 2026 em 13%, ante 12,5% nas projeções anteriores.

Ainda assim, o analista diz não descartar o Brasil. Ele lembra que o Ibovespa acumula alta de 23,29% no ano, com 18 recordes históricos, e que as ações brasileiras negociam abaixo de 11 vezes o lucro projetado, justamente por fricções estruturais como a dinâmica dos combustíveis.

Na leitura de Crawford, os ativos físicos permanecem: reservas provadas de 12,1 bilhões de barris no pré-sal, com custo de extração abaixo de US$ 35 o barril; safra de soja de 108,2 milhões de toneladas em 2025, recorde mundial; e o maior estoque de nióbio do planeta, em um contexto de restrições de exportação entre EUA e China que tornam minerais críticos mais estratégicos.

No centro do debate está a defasagem do diesel — uma variável que, na visão do analista, pode definir o humor do mercado nos próximos meses.

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