Lula se reúne com chanceler alemão em Hannover e assina acordos de cooperação

Encontro com Friedrich Merz incluiu abertura da Hannover Messe, agenda com empresários e defesa de reforma no Conselho de Segurança da ONU

20/04/2026 às 15:04 por Redação Plox

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta segunda-feira (20), em Hannover, na Alemanha, com o chanceler federal Friedrich Merz. Foi o terceiro encontro entre os dois desde 2023, em uma agenda marcada por compromissos oficiais e pela participação de Lula na abertura da Hannover Messe, considerada a maior feira industrial do mundo e que, neste ano, tem o Brasil como destaque.

Além do evento, o presidente participou de uma reunião com empresários brasileiros e alemães, na qual ressaltou oportunidades no setor de biocombustíveis. Após a conversa bilateral, Lula e Merz assinaram acordos de cooperação em diversas áreas e falaram com a imprensa sobre o cenário internacional, com críticas à guerra no Oriente Médio, à paralisia da ONU e às ameaças de intervenção militar em Cuba.


Lula assina acordos de cooperação na Alemanha.

Foto: Ricardo Sturcket / PR


Guerra no Oriente Médio e críticas à paralisia da ONU

Ao comentar o conflito no Oriente Médio, Lula afirmou que a guerra não tem justificativa e criticou a atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) na busca por soluções diplomáticas. Ele também mencionou riscos de retomada do conflito no Irã, a escalada no Líbano e a situação do povo palestino.

A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada

Luiz Inácio Lula da Silva

O presidente brasileiro citou ainda a guerra na Ucrânia e avaliou que a paz segue distante. Para Lula, a ONU volta a ficar imobilizada diante do conflito, defendendo, ao lado da Alemanha, uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança.

Questionado por jornalistas, Merz disse ter solicitado uma reunião extraordinária nas Nações Unidas para discutir medidas a serem propostas. Ele lamentou o novo fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, e apontou reflexos econômicos que extrapolam o Oriente Médio, com impacto direto nos preços do petróleo. Segundo o chanceler, a estabilidade energética global depende do fim imediato do conflito.

Cuba entra na agenda e líderes rejeitam intervenção

Ao tratar de Cuba, Merz afirmou que a Alemanha não vê base legal para uma intervenção no país caribenho e disse não enxergar ameaça a terceiros que justificasse uma ação militar. Ele voltou a defender caminhos diplomáticos.

Lula reiterou a posição contrária a intervenções unilaterais, citando Cuba e outras regiões, como Venezuela, Ucrânia, Irã e Faixa de Gaza. O presidente também criticou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba há quase 70 anos e alertou para os riscos de se adotar a “lei do mais forte” nas relações internacionais.

Acordo Mercosul-União Europeia começa a valer em maio

Na declaração à imprensa, Lula e Merz celebraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, com entrada em vigor provisória prevista para maio. Merz afirmou que o Brasil foi um defensor do pacto e avaliou que a implementação deve ampliar a cooperação em frentes como tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.

Lula afirmou que o acordo abre espaço para uma parceria mais ampla, para além do livre comércio, com valorização e proteção de trabalhadores, direitos humanos e meio ambiente. O presidente, porém, criticou medidas europeias que, segundo ele, impõem mecanismos unilaterais de cálculo de carbono e desconsideram o baixo nível de emissões do processo produtivo brasileiro baseado em fontes renováveis. Ele argumentou que o equilíbrio entre concessões é necessário para sustentar o pacto e contestou métricas que, segundo disse, não refletem a realidade e não são compatíveis com regras multilaterais.

Acordos bilaterais e peso do comércio entre os países

Lula disse que Brasil e Alemanha assinaram acordos de cooperação em áreas como defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia e pesquisa oceânica e climática.

A Alemanha, terceira maior economia mundial, é hoje o quarto principal parceiro comercial do Brasil, com intercâmbio de cerca de US$ 21 bilhões em bens e serviços, segundo números de 2025. O país também figura entre os maiores investidores diretos no Brasil, com estoque superior a US$ 40 bilhões.

Minerais críticos e biocombustíveis ganham protagonismo

Merz manifestou interesse em aprofundar a cooperação no setor de minerais críticos, considerados essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética, como baterias, painéis solares e turbinas. Ele citou o objetivo de fortalecer a relação na área de matérias-primas como base para o desenvolvimento das tecnologias do futuro.

Lula, por sua vez, reforçou que o Brasil busca ir além do papel de fornecedor, defendendo a atração de cadeias de processamento para o território nacional e a colaboração em setores intensivos em tecnologia. Para o presidente, as reservas brasileiras tornam o país um ator central no debate sobre minerais críticos, sem restringir a estratégia a exportações de commodities.

Os dois líderes também destacaram o potencial de parceria em biocombustíveis como ferramenta para descarbonizar o transporte. Lula defendeu a diversificação energética e disse que a alta recente do petróleo reforça a necessidade de ampliar alternativas, afirmando que o Brasil tem capacidade de produzir etanol e biodiesel sem comprometer alimentos e áreas de florestas, com experiência acumulada ao longo de cinco décadas.

Merz citou um caminhão movido a biocombustível exposto na feira de Hannover e afirmou que a evolução dessa tecnologia no Brasil mostra que a Alemanha também pode aprender com o país, defendendo investimentos em combustíveis renováveis para diversificar as fontes de energia.

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