Caneta emagrecedora do Paraguai é alvo de críticas médicas: “completo absurdo”
Caso levanta alerta sobre riscos da automedicação e do uso de canetas emagrecedoras ilegais, enquanto especialistas destacam segurança de medicamentos aprovados quando usados com orientação médica
21/01/2026 às 17:36por Redação Plox
21/01/2026 às 17:36
— por Redação Plox
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A internação de uma mulher de 42 anos em Belo Horizonte, em estado grave após usar uma caneta emagrecedora comprada no Paraguai, reacendeu o debate sobre os riscos da automedicação e do consumo de medicamentos ilegais, em especial os que imitam fármacos destinados ao tratamento de obesidade e diabetes.
De acordo com o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP), o maior perigo está justamente no conteúdo dessas canetas vendidas sem qualquer tipo de controle sanitário.
Especialistas alertam sobre caneta emagrecedora do Paraguai
Foto: Freepik
Resta saber o que tem nessa caneta que foi utilizada
Marcio Mancini
Conteúdo desconhecido e risco de falsificação
Segundo Mancini, canetas fabricadas sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) podem conter substâncias diferentes das presentes nas versões aprovadas. Isso ocorre, principalmente, porque alguns medicamentos ainda estão protegidos por patente — como o Mounjaro, recém-aprovado no Brasil — e não deveriam ter “concorrentes” fora dos canais oficiais.
O risco é concreto. O endocrinologista relembra um episódio registrado em 2024, no Rio de Janeiro, em que uma caneta falsificada com rótulo de Ozempic continha, na verdade, insulina.
A pessoa aplicou o produto acreditando usar um medicamento para emagrecimento e desenvolveu hipoglicemia grave, precisando de internação em unidade de terapia intensiva (UTI). Em vez de injetar o remédio correto, a pessoa injetou insulina, o que resultou em um quadro considerado pelo médico como um “absurdo completo”.
No caso de Belo Horizonte, há suspeita de que a paciente, identificada como Kellen Oliveira, tenha desenvolvido a Síndrome de Guillain-Barré, doença neurológica rara, grave e de origem autoimune.
A condição se manifesta quando o sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos, provocando formigamento, dormência e fraqueza muscular. Em situações mais severas, pode evoluir para paralisia, comprometendo braços, pernas, músculos da face e funções como deglutição e respiração.
Medicamentos aprovados e doenças autoimunes
Mancini é categórico ao afirmar que não há base biológica para associar medicamentos aprovados para obesidade a respostas autoimunes ou inflamatórias graves.
Ele destaca que a própria obesidade configura um estado inflamatório crônico de baixo grau. O tecido adiposo produz substâncias inflamatórias, como leptina, interleucina-6 e TNF-alfa, que elevam o risco de doenças cardiovasculares, diabetes e trombose. A perda de peso e o uso adequado dessas medicações, ao contrário, tendem a reduzir a inflamação.
O neurologista André Cleriston, membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), reforça que não há associação comprovada entre o uso de canetas emagrecedoras aprovadas e a Síndrome de Guillain-Barré. Nenhum caso foi registrado em bula de medicamentos como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro.
Segundo o especialista, há apenas um relato isolado na literatura médica, envolvendo um paciente de 43 anos, nos Estados Unidos, que desenvolveu a síndrome cinco meses após iniciar o uso de Mounjaro e perder cerca de 30 quilos. Nesse episódio, não foi possível excluir outros fatores de risco.
Cleriston ressalta ainda que a perda muito rápida de peso pode confundir a avaliação das causas. Essa redução acelerada, por si só, já é descrita na literatura científica como possível fator de risco para a Síndrome de Guillain-Barré ou neuropatias semelhantes, muitas vezes associadas à deficiência aguda de vitaminas.
O neurologista frisa que, até o momento, não há associação comprovada nem suspeita consistente entre agonistas do GLP-1 e a síndrome. Estudos indicam que o uso adequado dessas canetas pode inclusive melhorar quadros como a polineuropatia diabética. Os raros relatos de neuropatias parecem estar ligados ao emagrecimento muito rápido e ao controle excessivamente acelerado da diabetes, e não ao princípio ativo em si.
Efeitos esperados com uso correto
Quando prescritas corretamente, as canetas aprovadas apresentam efeitos colaterais conhecidos e, em geral, leves. Entre eles estão:
Náusea;
Diarreia;
Constipação;
Tontura;
Cefaleia.
A náusea é o sintoma mais frequente, sobretudo no início do tratamento. Por isso, o esquema de uso prevê escalonamento de dose: começa-se com uma quantidade baixa, que é aumentada gradualmente — normalmente a cada quatro semanas, podendo ser em intervalos maiores se necessário.
O cenário muda quando há automedicação. Mancini lembra que esses fármacos foram estudados em pessoas com obesidade, muitas vezes com peso médio entre 105 e 110 quilos. Quando alguém com cerca de 55 quilos utiliza a mesma dose para “perder dois ou três quilos”, o risco de efeitos graves cresce significativamente.
Há registros de pacientes que buscaram atendimento de emergência por vômitos persistentes, incapacidade de se alimentar ou se hidratar, evoluindo para desidratação. Também podem ocorrer diarreia, constipação e, em alguns casos, gastroparesia — paralisação do estômago —, especialmente em pessoas com predisposição.
Uso com indicação traz benefícios
Para quem tem indicação médica, Mancini destaca que as medicações aprovadas pela Anvisa são desenvolvidas para uso em longo prazo e apresentam benefícios claros. Em indivíduos com risco cardiovascular aumentado, o tratamento está associado à redução de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade. Pessoas em acompanhamento adequado morrem menos, têm menos infarto e menos AVC.
Já quem se automedica costuma recorrer ao produto por períodos curtos, com foco estético e resultado imediato, sem acompanhamento e sem critérios. Nesses casos, não há um risco endocrinológico específico relacionado ao fármaco em si, mas sim um risco elevado de efeitos colaterais graves, potencializado quando o produto é ilegal ou falsificado.
O caso da mulher internada após usar uma caneta comprada no Paraguai evidencia um problema que vai além da busca por emagrecimento rápido: a ausência de controle sobre o que está sendo injetado no organismo.
Para o especialista, medicamentos desse tipo devem ser utilizados apenas com prescrição, acompanhamento regular e garantia de procedência. O controle médico e o uso de produtos aprovados são a principal barreira contra complicações graves.