Governo Lula prepara troca de ministros para impulsionar candidaturas em 2026

Com prazo de desincompatibilização se aproximando, ao menos 17 ministros avaliam deixar cargos para disputar as eleições, em estratégia do Planalto para ampliar base aliada e enfrentar influência de Bolsonaro no Congresso

22/01/2026 às 10:00 por Redação Plox

A proximidade do prazo legal de desincompatibilização deve provocar uma troca em série no primeiro escalão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Até abril, ao menos 17 dos 38 ministros avaliam deixar os cargos para disputar as eleições municipais e gerais, como exige a legislação.

Visão aérea da Esplanada dos Ministérios

Visão aérea da Esplanada dos Ministérios

Foto: Agência Senado


A estratégia do Palácio do Planalto é usar a Esplanada dos Ministérios como trampolim eleitoral para ampliar a base aliada no Congresso Nacional em um eventual quarto mandato de Lula.

Gleisi deve disputar Senado e deixar articulação política

Um dos movimentos mais sensíveis envolve a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), que deve deixar o cargo para disputar uma vaga no Senado pelo Paraná. A sucessão em uma das pastas mais importantes do governo, responsável pela articulação política com o Congresso, ainda é incerta.

Pelo desenho tradicional, o posto tende a ser ocupado pelo secretário-executivo, o diplomata Marcelo Costa. No entanto, ainda não há definição sobre quem assumirá a função.

Inicialmente, Gleisi cogitava buscar a reeleição para a Câmara dos Deputados, mandato do qual está licenciada. A mudança de planos ocorreu após um pedido direto de Lula. O presidente considera a candidatura ao Senado estratégica para reforçar a presença do PT na Casa e contrapor o projeto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de formar maioria com força para avançar em processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Haddad resiste, mas Lula quer candidatura em São Paulo

Lula também tem planos eleitorais para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP). O presidente deseja que ele dispute uma vaga no Senado por São Paulo ou o Palácio dos Bandeirantes, mesmo após o ministro reiterar publicamente que não pretende concorrer em 2026.

O nome mais cotado para chefiar a equipe econômica caso Haddad deixe o governo é o do secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan.

Eu disse em todas as ocasiões que não pretendia me candidatar em 2026. Isso vale para qualquer cargo

Fernando Haddad, em entrevista ao UOL News

Casa Civil, Planejamento e Comunicação em movimento

Outro auxiliar de peso que deve sair é o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT-BA), um dos principais articuladores internos do governo. Ele é cotado para disputar uma vaga no Senado ou até voltar à corrida pelo governo da Bahia, embora o atual governador, Jerônimo Rodrigues (PT), esteja no primeiro mandato e possa tentar a reeleição. A secretária-executiva da Casa Civil, Miriam Belchior, é a favorita para assumir o comando da pasta.

No Ministério do Planejamento, a expectativa é de saída de Simone Tebet (MDB). Ela pode ser substituída pelo assessor especial da Casa Civil Bruno Moretti. A intenção de Simone é disputar novamente uma vaga no Senado. Desde que apoiou Lula no segundo turno de 2022, porém, ela perdeu espaço em seu reduto, o Mato Grosso do Sul, de perfil conservador, e aliados avaliam a possibilidade de uma candidatura por São Paulo.

Na área de comunicação, o secretário de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, também deve se afastar do cargo para coordenar a campanha de Lula à reeleição. Responsável pela estratégia de comunicação da campanha de 2022, ele não pretende disputar cargo eletivo e, por isso, não está submetido ao prazo de desincompatibilização.

Igualdade Racial, Cultura e Educação na mira das urnas

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco (PT), deve deixar o governo para disputar, pela primeira vez, uma vaga na Câmara dos Deputados. A saída precisa ocorrer até abril, respeitando o prazo legal.

No campo cultural, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, defende que a ministra da Cultura, Margareth Menezes, concorra a deputada federal. A cantora, que ganhou projeção nacional antes de assumir o cargo, foi convidada a se filiar ao PT e ainda avalia a proposta, sem resposta definitiva até o momento.

Na Educação, o ministro Camilo Santana (PT), senador licenciado, é pressionado a disputar o governo do Ceará caso Ciro Gomes entre na corrida pelo Palácio do Planalto. Camilo afirma que não pretende ser candidato e que deve atuar na campanha de reeleição do governador Elmano de Freitas (PT). Ele tem mandato garantido no Senado até 2031, o que reduz a pressão por uma nova disputa proporcional.

Alckmin pode disputar governo de SP; Janja articula candidaturas

No tabuleiro paulista, uma das hipóteses avaliadas no Planalto é lançar o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) ao governo de São Paulo, caso o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) dispute a Presidência. Por ora, Lula trabalha com a permanência da chapa atual, mas admite que o cenário pode mudar.

Mesmo que permaneça na vice-presidência, Alckmin terá de se afastar do comando do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. A tendência é que a vaga seja ocupada pelo secretário-executivo Márcio Elias Rosa.

Ministros de partidos aliados também devem sair

Outros ministros de siglas da base já sinalizaram que deixarão seus postos para entrar na disputa eleitoral. O ministro das Cidades, Jader Filho (MDB), informou que pretende concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Pará.

No mesmo grupo estão André de Paula (PSD), da Pesca; Silvio Costa Filho (Republicanos), de Portos e Aeroportos; e Waldez Góes (PDT), da Integração, que, segundo o texto original, já comunicaram ao Planalto a intenção de sair para disputar cargos eletivos.

Trabalho, Meio Ambiente, Transportes e áreas estratégicas

No Ministério do Trabalho, Luiz Marinho (PT) chegou a avaliar uma candidatura à reeleição para a Câmara dos Deputados, mas recuou em dezembro do ano passado. Em publicação nas redes sociais, ele atribuiu a decisão a um pedido de Lula. No lugar de Marinho, o PT terá como candidato o atual presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges.

Na área ambiental, a ministra Marina Silva (Rede-SP) é citada como possível candidata ao Senado por São Paulo, o que exigiria sua saída do Ministério do Meio Ambiente no prazo legal. Ela também deve trocar de partido, de acordo com as movimentações relatadas.

O ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), já confirmou que deixará o governo para disputar o comando do Estado de Alagoas nas eleições deste ano.

No Ministério dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara (PSOL) trabalha para tentar a reeleição como deputada federal por São Paulo. Já o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD), planeja concorrer novamente a uma vaga no Senado por Mato Grosso.

Nas palavras de Luiz Marinho, em vídeo divulgado nas redes sociais, a opção por não concorrer neste momento foi tomada em nome da continuidade do projeto político liderado por Lula, em detrimento de planos pessoais de retorno à Câmara. A declaração sintetiza a lógica que orienta a reorganização do primeiro escalão diante da próxima disputa eleitoral, com o Palácio do Planalto usando a própria estrutura ministerial para impulsionar candidaturas e tentar consolidar maioria no Congresso.

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