Toffoli centraliza ações do Banco Master e vira alvo de protestos e pedidos de CPI
Ministro do STF concentra casos ligados à Operação Compliance Zero, após revelação de negócios de fundos do Banco Master com irmãos em resort no PR e críticas por decisões que restringiram atuação da PF
23/01/2026 às 10:51por Redação Plox
23/01/2026 às 10:51
— por Redação Plox
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O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), assumiu a centralização das ações relacionadas ao Banco Master em dezembro de 2025, ao puxar para sua relatoria todas as investigações sobre o caso em tramitação na Justiça. Desde então, decisões consideradas incomuns por integrantes do meio político e jurídico passaram a ser alvo de críticas.
Nos últimos dias, veio à tona que fundos ligados ao Master compraram a participação de irmãos de Toffoli em um resort na cidade de Ribeirão Claro, no Paraná. A operação foi revelada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” e confirmada pela TV Globo, ampliando o foco sobre a atuação do ministro no caso e sobre seus vínculos familiares com o empreendimento.
Fundos ligados ao Master compraram a participação de irmãos do ministro em um resort na cidade de Ribeirão Claro, no Paraná. Toffoli é relator das investigações sobre fraudes do Banco Master.
Foto: Reprodução / STF.
Entenda o caso Banco Master
A Polícia Federal investiga, na Operação Compliance Zero, suspeitas de operações financeiras ilegais envolvendo o Banco Master. Entre as principais irregularidades apontadas está a emissão de R$ 50 bilhões em CDBs, com promessa de juros acima das taxas praticadas no mercado e sem comprovação de liquidez suficiente para honrar esses títulos no futuro.
Para reforçar a aparência de solidez financeira, o banco aplicou parte dos recursos desses CDBs em ativos que não existiriam de fato, por meio da compra de créditos de uma empresa chamada Tirreno. O dono do Master, Daniel Vorcaro, chegou a ser preso na operação e posteriormente foi solto pelo TRF-1, com imposição de tornozeleira eletrônica e obrigação de comparecimentos periódicos à Justiça enquanto durarem as investigações.
Participação de irmãos de Toffoli em resort no Paraná
O empreendimento em questão é o resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro (PR). Os irmãos de Dias Toffoli, José Carlos e José Eugênio, foram sócios do negócio entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025.
A entrada deles se deu por meio da empresa Maridt Participações, de propriedade dos dois, registrada na Receita Federal com capital social de R$ 150. As operações foram realizadas com as empresas Tayayá e DGEP Empreendimentos, integrantes da estrutura societária do resort, ambas fundadas pelo primo do ministro, Mario Umberto Degani.
Registros da Junta Comercial do Paraná indicam apenas a compra de cotas no Tayayá, sem detalhamento do valor pago pelos irmãos do ministro. Em uma das operações, referente à aquisição de cotas da DGEP, consta que a transação ocorreu por “compensação de crédito detido por ela [Maridt Participações] contra a Sociedade [do resort]”, mecanismo que funcionou como quitação de créditos por meio de participação societária.
Como o caso Master se conecta ao resort
A Reag, operadora de fundos investigados no escândalo do Banco Master, é apontada pelas autoridades como parte de um suposto esquema de operações combinadas com o banco, envolvendo circulação de recursos entre fundos previamente estruturados para gerar lucros artificialmente inflados.
Em agosto de 2025, a Reag também foi alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, que mirou um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa PCC. Nesse contexto, a Reag utilizou o fundo Arleen para comprar, dos irmãos de Toffoli, participação na Tayayá e na DGEP.
O fundo Arleen não aparece como alvo da Operação Carbono Oculto nem é mencionado nas investigações sobre o Banco Master. De acordo com dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Arleen investiu ao todo R$ 20 milhões na Tayayá e na DGEP Empreendimentos.
Em setembro de 2021, o Arleen comprou parte das cotas pertencentes aos irmãos de Toffoli no resort. Nessa transação, o fundo pagou mais de R$ 3 milhões por metade da participação que eles detinham nas empresas. Como os valores originais pagos pelos irmãos não constam nos registros da Junta Comercial, não é possível saber se houve lucro para eles. A família permaneceu com uma fração de participação no negócio.
Com isso, o fundo Arleen e parentes do ministro seguiram como sócios do Tayayá entre setembro de 2021 e 2025. A família de Toffoli deixou a sociedade em fevereiro de 2025, enquanto o Arleen saiu em julho do mesmo ano.
Endereço da empresa e questionamentos à família
O endereço da Maridt, informado na Junta Comercial de São Paulo, corresponde ao imóvel onde vive José Eugênio Toffoli. De acordo com relato publicado por “O Estado de S. Paulo”, a reportagem esteve no local e constatou que ele mora ali com a esposa, Cássia Pires Toffoli.
Ela afirmou ao jornal desconhecer qualquer relação da casa com a empresa ou ligação do marido com o resort. Em vídeo divulgado pela publicação, Cássia contestou as informações registradas na junta comercial.
Moço, dá uma olhada na minha casa. Você está vendo a situação da minha casa? Eu não tenho nem dinheiro para arrumar as coisas da minha casa. Se você entrar dentro, vai ficar assustado. O que está lá (na junta comercial), eu não sei. Eu sei que moro aqui há 24 anos e não sei de nada que é sede (da maridt) aqui. Aqui é onde eu moroCássia Pires Toffoli
Uso de seguranças em viagens ao entorno do resort
Reportagem do jornal “O Globo” revelou que o STF arcou com 128 diárias para seguranças em viagens à região onde fica o resort Tayayá, entre 2022 e 2025, em períodos de feriados, fins de semana prolongados e recesso do Judiciário. O custo total chegou a R$ 460 mil. Em regra, ministros do Supremo se deslocam acompanhados de equipes de segurança.
Decisões de Toffoli no processo do Master
No âmbito judicial, a atuação de Dias Toffoli à frente do caso Master inclui medidas que ampliaram a polêmica em torno de sua relatoria. Entre as decisões estão a restrição ao acesso da Polícia Federal a celulares apreendidos em operações relacionadas ao banco e a determinação de uma acareação entre técnicos do Banco Central — responsável pela liquidação do Master — e executivos ligados a Daniel Vorcaro.
Protestos em São Paulo pedem impeachment de Toffoli
Em meio ao avanço das investigações, manifestações foram convocadas contra o ministro. Na noite desta quinta-feira (22), centenas de pessoas se reuniram na Rua Elvira Ferraz, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, onde fica a sede do Banco Master, para protestar contra o escândalo financeiro e contra a atuação de Dias Toffoli.
O ato foi organizado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e teve como alvo direto o ministro do STF. Imagens divulgadas nas redes sociais do grupo mostram um cartaz com a frase “Toffoli, vergonha suprema”. Em publicação no Instagram, o movimento defendeu o impeachment do magistrado com a mensagem “Fora Dias Toffoli”.
Master, prejuízo bilionário e pressão por CPIs
A relação entre o Master e o ministro também se dá no campo jurídico, já que Toffoli é o relator, no STF, do processo que trata do escândalo envolvendo a instituição, liquidada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Como relator, ele colocou o caso sob sigilo.
As investigações apontam que o banco teria realizado durante anos operações ilícitas, causando uma fraude superior a R$ 20 bilhões ao sistema financeiro. Daniel Vorcaro chegou a ser preso, mas permaneceu 12 dias na cadeia. Ele foi solto em 29 de dezembro por decisão da desembargadora Solange Salgado da Silva, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, e desde então cumpre medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica.
O escândalo motivou um pedido de criação de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito no Congresso Nacional. O requerimento foi apresentado pelo deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), que afirma ter o apoio necessário para instalação do colegiado. Na capital paulista, a vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), integrante da coordenação do MBL, protocolou um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara Municipal para investigar o caso. Ela participou do protesto na Rua Elvira Ferraz exibindo cartaz com defesa do impeachment de Toffoli.