“Alimentos falantes” com voz de IA viralizam nas redes e dão conselhos duvidosos
Vídeos de comida e objetos com rostos dramáticos gerados por IA se espalham no TikTok e Instagram com linguagem infantilizada, misturando humor, informação questionável e estética brain rot, e reforçam alerta sobre checagem de dados
23/01/2026 às 12:47por Redação Plox
23/01/2026 às 12:47
— por Redação Plox
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Alimentos e objetos com rostos carrancudos, vozes dramáticas e muitos conselhos práticos têm tomado conta de redes como TikTok e Instagram. Criados com inteligência artificial, esses vídeos misturam humor e informação, mas também levantam dúvidas sobre a confiabilidade do que é ensinado ao público.
Criados com inteligência artificial, vídeos misturam humor, dicas e personagens 'falantes', mas levantam dúvidas sobre a confiabilidade das informações.
Foto: Reprodução / Redes sociais.
Em um dos vídeos mais vistos, com 159 mil visualizações no TikTok, a própria casca de banana, em tom raivoso, defende seu destino no lixo orgânico ao sugerir que seja picada e usada como adubo para plantas. Em outro, publicado no Instagram, um pão de forma reclama da geladeira e diz que seu lugar é fora dela.
Essas produções fazem parte de uma leva de conteúdos gerados por IA que se espalham pelas redes, a ponto de já existirem perfis dedicados exclusivamente a esse tipo de publicação. Em comum, trazem alimentos ou objetos “falantes”, geralmente com expressões ranzinzas, dando dicas de uso ou conservação – quase sempre sem indicar de onde vêm as informações.
Ferramentas de IA por trás dos vídeos
Levantamento do g1 identificou que parte desses vídeos foi criada com o Veo 3, inteligência artificial do Google que gera vídeos ultrarrealistas e que já tinha sido usada em outros virais em 2025, como a apresentadora fictícia Marisa Maiô.
Embora geladeiras, pastas de dente e esponjas de lavar louça também apareçam nessas produções, a maioria dos posts traz dicas ligadas a alimentos como macarrão, morango, brócolis, salsicha, alho, cenoura e abacaxi. No TikTok, já são centenas de publicações marcadas com as hashtags #alimentosfalantes e #objetosfalantes.
Nos comentários, o público costuma se dividir entre quem acha o conteúdo “fofo”, quem se diverte com o alimento “dando bronca” e quem elogia a suposta utilidade das dicas compartilhadas.
Quando o alimento falante vira “autoridade”
Para entender o impacto desse tipo de trend, o g1 ouviu Angelica Mari, especialista em cyberpsicologia, área que estuda os efeitos da tecnologia no comportamento humano. Segundo ela, o formato cria a ilusão de que, por ser uma geladeira falando, o eletrodoméstico automaticamente saberia como os alimentos devem ser guardados – mesmo quando as regras apresentadas não têm base técnica.
Ela observa que muitos desses conteúdos trazem orientações questionáveis, sobretudo sobre conservação de alimentos, o que torna fundamental checar os conselhos oferecidos pelos personagens digitais.
Outro ponto destacado por Mari é o uso de linguagem simples e acessível, mesmo quando o alimento está “brigando” com o público. Esse tom coloquial, quase infantil, ajuda a criar proximidade com quem assiste e faz com que as mensagens pareçam mais fáceis de ser lembradas e seguidas.
De acordo com a especialista, instruções oficiais sobre temas como higienização de alimentos, quando apresentadas em formato técnico e institucional, costumam ter menos apelo. Já conteúdos gamificados, infantilizados ou narrativos tendem a circular muito mais nas redes.
O fenômeno também alimentou uma nova trend no TikTok: pessoas que, em clima de humor, passam a seguir literalmente os “conselhos” dos alimentos falantes em suas rotinas.
A conexão com a estética “brain rot”
Os vídeos de alimentos e objetos falantes se aproximam do chamado brain rot, termo usado para descrever a sensação de desgaste mental ligada ao consumo exagerado de conteúdos superficiais, especialmente nas redes sociais.
A expressão se popularizou a ponto de ser escolhida como palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, após registrar cerca de 130 mil buscas ao longo daquele ano.
O brain rot virou fenômeno principalmente no TikTok e no YouTube, em vídeos que mostram objetos ou animais com características humanas, inseridos em narrativas simples e repetitivas. Entre os personagens que mais se destacaram estão “Tralalero Tralala”, um tubarão de tênis; “Ballerina Cappuccina”, uma xícara vestida de bailarina; e “Tum Tum Tum Sahur”, uma madeira com um taco.
Em geral, esses personagens não têm a função de transmitir informações úteis. Ainda assim, os vídeos seguem uma lógica de continuidade, com histórias recorrentes, como se cada publicação fosse um novo episódio de uma série. Os alimentos falantes, agora com conselhos e “broncas”, entram nessa mesma onda de conteúdo leve, repetitivo e altamente compartilhável.