Governo Lula volta da Índia sem abrir mercado para aves, uma das principais pautas da viagem
Negociação para destravar exportações de frango e ovos não avançou e ficou travada por contrapartidas pedidas pelos indianos; governo e setor discutem alternativa de cotas com tarifa menor
23/02/2026 às 07:37por Redação Plox
23/02/2026 às 07:37
— por Redação Plox
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A viagem oficial do governo brasileiro à Índia, tratada internamente como uma das principais apostas para ampliar mercados do agronegócio, terminou sem o resultado mais aguardado. O governo Lula voltou de Nova Délhi sem conseguir destravar o acesso do Brasil ao mercado indiano de aves e ovos, uma das pautas centrais da missão e hoje considerada estratégica para o setor.
O peso dessa negociação decorre do fato de o Brasil ser líder global nas exportações de frango e buscar diversificar destinos, reduzindo dependência de poucos compradores e a exposição a eventuais barreiras sanitárias e comerciais impostas por parceiros já consolidados.
Foto: Reprodução
Negociação travada em torno de contrapartidas
Segundo relato com base em apuração da Folhapress, a comitiva brasileira não conseguiu concluir a negociação para liberar a entrada de aves e ovos brasileiros no mercado indiano durante a passagem por Nova Délhi. Nos bastidores, integrantes do governo e do setor atribuíram parte da resistência indiana a uma lógica de “trocas” comerciais.
De acordo com a reportagem, o lado indiano teria condicionado avanços na pauta de aves e ovos a contrapartidas envolvendo produtos como romã, lentilha e lácteos, sem que se chegasse a um acordo final. Na prática, a Índia manteve fechada uma porta que o Planalto tratava como prioridade na agenda da viagem.
Tarifas altas também travam o frango brasileiro
Paralelamente à tentativa de abrir espaço para aves e ovos, outra frente da conversa foi a busca por condições mínimas para viabilizar exportações de carne de frango à Índia. Em reportagem da Reuters, publicada pela Forbes Agro, é relatado que o Ministério da Agricultura e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) discutiram alternativas como cotas com tarifa reduzida ou zerada.
Hoje, as alíquotas cobradas pela Índia são consideradas proibitivas para o frango brasileiro e inviabilizam a competitividade do produto, mesmo havendo entendimento sanitário entre os dois países. Por isso, a criação de cotas com tarifas diferenciadas aparece como um dos possíveis caminhos para destravar esse fluxo comercial.
Índia é tratada como mercado prioritário
O Ministério da Agricultura vem classificando a Índia como um mercado prioritário e, em missões anteriores, anunciou avanços pontuais na pauta de produtos de origem animal. Entre esses movimentos, houve abertura para itens específicos, como derivativos de ossos bovinos e chifres e cascos, resultado de missão oficial em outubro de 2025.
Esses gestos indicam a existência de um canal técnico e diplomático ativo entre os dois países. Ainda assim, a pauta de aves e ovos permanece mais sensível e, até o momento, sem desfecho positivo. Na agenda mais recente, conforme registrado pela Reuters, governo brasileiro e ABPA levaram a Nova Délhi a demanda por revisão tarifária e criação de mecanismos de cota para o frango, reforçando que a negociação segue em curso, mas sem anúncio de abertura efetiva do mercado indiano para esses itens.
Repercussão para setor, governo e economia
Para o setor de proteína animal, a ausência de avanços mantém a Índia como um mercado de alto potencial, mas de acesso limitado. As barreiras vão desde tarifas consideradas excessivas até a falta de conclusão de protocolos e condições específicas para a entrada de aves e ovos brasileiros.
Na estratégia do governo, o resultado abaixo do esperado aumenta a pressão sobre o Planalto e o Ministério da Agricultura. A expectativa, agora, é que sejam apresentadas “entregas” alternativas — como aberturas menores, redução tarifária pontual ou habilitações específicas — que possam justificar politicamente a missão e sustentar o discurso de ampliação de mercados.
Para o consumidor e para a economia em geral, os efeitos são indiretos. Sem novos destinos em um mercado considerado gigantesco, o Brasil perde uma possível válvula de escape para sua produção. Por outro lado, a abertura de grandes mercados costuma influenciar planejamento de produção, investimentos e preços ao longo do tempo, sem impacto imediato no varejo.
Negociação continua em dois trilhos
Nos próximos passos, a tendência é que o governo mantenha a estratégia em dois eixos principais: de um lado, tentar concluir as condições para acesso de aves e ovos ao mercado indiano; de outro, insistir na redução de tarifas e na construção de cotas para o frango, como sugerido pela ABPA e descrito pela Reuters.
A apuração indica ainda que a Índia busca avanços em produtos de interesse próprio, o que deve recolocar na mesa eventuais “trocas” comerciais, possivelmente envolvendo decisões regulatórias e sanitárias do lado brasileiro.
Até que haja novos anúncios — em forma de notas oficiais do Ministério da Agricultura, do Itamaraty ou de comunicados conjuntos após rodadas técnicas —, o quadro permanece o de negociação em andamento, sem confirmação de abertura do mercado indiano para aves e ovos do Brasil.