Polilaminina pode virar nova terapia para lesões na medula e entra em fase de estudo clínico oficial
Pesquisada há quase 30 anos na UFRJ, substância mostrou relatos de recuperação motora em testes com pacientes e agora terá ensaio formal autorizado pela Anvisa
23/02/2026 às 07:46por Redação Plox
23/02/2026 às 07:46
— por Redação Plox
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Imagine um trem. Ele só avança porque os trilhos estão conectados, contínuos e em ordem. Se a sequência é interrompida, a locomotiva para e só volta a andar quando o caminho é reconstruído. Essa é a metáfora usada para explicar a lógica de uma nova solução para o desafio de milhares de brasileiros que perderam os movimentos do corpo após lesões na medula.
Estudo da polilaminina apontam que proteína pode ajudar a devolver movimentos para quem tem lesões na medula
Foto: Reprodução/TV Globo
A medula funciona como a via por onde os comandos do cérebro se espalham pelo corpo. Quando sofre uma lesão, esses estímulos deixam de passar. Durante muito tempo, não havia perspectiva de “reconectar esses trilhos”. Hoje, essa esperança tem nome: polilaminina.
É uma droga que vai ser um divisor nas águas do tratamento do traumatismo raquimedular hoje em dia
Dr. Victor
A “pista” para o neurônio voltar a crescer
A pesquisa com a substância começou há quase 30 anos, com a bióloga Tatiana Sampaio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em laboratório, ela produziu uma rede de proteínas chamadas lamininas. O conjunto dessas proteínas forma a polilaminina, capaz de ajudar na recuperação dos axônios — a parte dos neurônios que funciona como ponte para a transmissão das informações.
Segundo a bióloga, a lógica é direta: o axônio cresce sobre uma “pista” de laminina. Quando ocorre uma lesão, essa pista deixa de existir. Ao oferecer novamente essa estrutura, o crescimento pode ser retomado. Para ela, não há segredo sofisticado nesse princípio.
Estudos com a polilaminina apontam que a proteína pode ajudar a devolver movimentos a pessoas com lesões na medula.
Antes do início dos testes com a polilaminina, pacientes estão acionando a Justiça em busca do tratamento
Foto: Reprodução/TV Globo
Resultados em humanos: de 10% para 75%
Nos testes com pacientes, a substância trouxe de volta movimentos discretos, mas considerados fundamentais para a autonomia. Em um estudo acadêmico com oito pessoas que tinham lesão completa, os resultados foram descritos como históricos.
Com lesão completa, o que se vê na literatura é que apenas 10% das pessoas recuperam função motora. No nosso estudo acadêmico foi 75%
Tatiana Sampaio
De acordo com o médico Dr. Marco, esses ganhos mudam o dia a dia dos pacientes. Ele relata que pessoas que viviam exclusivamente na cadeira de rodas conseguiram ficar em pé com auxílio de tutor, e que outras passaram a pedalar passivamente uma bicicleta, algo que antes não era possível.
Um desses casos é o de Diogo, que trabalhava instalando vidros quando levou um choque e caiu de um prédio. O raio-X mostrou que a medula havia se rompido totalmente. Inconformada, a irmã dele iniciou uma busca por alternativas até encontrar a polilaminina. Depois de passar por três hospitais, ele finalmente recebeu a aplicação. Algumas semanas mais tarde, notou a primeira resposta.
De madrugada, mexendo no celular, ele relata que decidiu tentar mover o pé. Ao concentrar o esforço no pé direito, viu o membro responder, indo para frente e para trás. Emocionado, chamou a esposa, e os dois choraram ao perceber que aquele movimento era real.
Hoje, Diogo já tem controle da bexiga e consegue realizar movimentos como joelhadas e o chamado “gol de coxa”. A sensibilidade, que antes parava na altura do bico do peito, chegou ao diafragma. Ele também relata conseguir contrair a barriga.
“Uso compassivo” e a corrida na Justiça
Antes mesmo do início dos testes clínicos formais com a polilaminina, pacientes começaram a acionar a Justiça em busca do tratamento. Até agora, 55 pessoas entraram com ações judiciais e 30 foram autorizadas a receber a substância, entre elas Diogo e Mirian, que fraturou a coluna após cair da escada de casa.
A Anvisa reforça que apenas ensaios clínicos controlados podem demonstrar de forma robusta a segurança e a eficácia da polilaminina. Ainda assim, permite o chamado “uso compassivo” quando o paciente não se enquadra nos critérios de um estudo clínico. A farmacêutica responsável pela patente explica que o termo se refere à ideia de, diante da falta de alternativas, oferecer o que for possível ao paciente.
O fator tempo e a cicatriz na medula
A aplicação da polilaminina é feita por neurocirurgiões que percorrem o país para atender os pacientes. Profissionais como o Dr. Bruno viajam entre cidades e estados para realizar o procedimento e retornar no mesmo dia, em uma rotina intensa.
Há, porém, um limite considerado crítico pelos pesquisadores: o tempo. Para ter maior chance de eficácia, a substância deve ser injetada preferencialmente até três dias após o trauma. Isso porque a medula começa a formar uma cicatriz em torno dos axônios. Quanto mais avançado esse processo de cicatrização, mais difícil se torna a ação da polilaminina, de acordo com os especialistas.
Esse intervalo fez a diferença para Bruno, tratado em 2018, menos de 24 horas depois do acidente em que quebrou o pescoço. Ele conta que, três semanas após a aplicação, conseguiu mexer o dedão pela primeira vez. Um ano depois, já andava com bengala e, em seguida, passou a caminhar de forma independente.
Bruno saiu da classificação “A” — quando não há movimentos — diretamente para a categoria “D”, em que há força e sensibilidade para quase todos os movimentos.
A medula transmite os sinais do cérebro para todo o corpo
Foto: Reprodução/TV Globo
Riscos, controvérsias e limites do tratamento
Nem todos os médicos concordam com uma expansão acelerada do uso da substância antes da conclusão dos testes finais. Profissionais ligados a instituições de reabilitação, como a AACD, alertam que a aplicação em larga escala, sem o devido controle e rigor científico, impede entender exatamente como a droga funciona e dificulta o manejo de possíveis eventos adversos.
Quatro pacientes que receberam a polilaminina morreram recentemente. A equipe responsável pela pesquisa afirma que não há, até o momento, evidência de relação entre essas mortes e o tratamento.
Outro ponto importante é que a polilaminina não é indicada para casos de lesão incompleta. Pessoas com esse tipo de quadro, que ainda mantêm algum grau de sensibilidade e movimento, relatam o temor de perder as funções que já têm se fossem submetidas a um procedimento para o qual não há indicação.
Além disso, a substância sozinha não resolve. A fisioterapia intensa é considerada indispensável. Em Londrina, Mirian faz sessões seis vezes por semana e já apresenta reflexos e áreas de sensibilidade em recuperação.
Diogo, por outro lado, enfrenta dificuldades em Nova Friburgo por não ter acesso a um centro de reabilitação especializado. Pesquisadores apontam que faltam estruturas de qualidade para atender esse tipo de paciente pelo país.
Próximos passos: estudo clínico e futuro no SUS
A Anvisa autorizou o início de um estudo clínico oficial com a polilaminina para o próximo mês. Se as três fases de testes forem bem-sucedidas, a previsão é que o produto possa estar disponível em até cinco anos.
Os responsáveis pelo desenvolvimento projetam que, no futuro, a tecnologia seja incorporada ao Sistema Único de Saúde, permitindo que pacientes de todo o país tenham acesso ao tratamento.