Governo aumenta Imposto de Importação de mais de mil produtos; veja lista
Resolução Gecex nº 852/2026 reajusta a TEC para 1.252 códigos NCM, com aplicação escalonada entre fevereiro e março e alíquotas que podem chegar a 25% em alguns itens
Uma pequena mancha na glande foi o primeiro sinal. Não doía, não incomodava. Jorge, de 63 anos, comerciante, lembra que percebeu a alteração em 2022 e preferiu esperar. Com o passar dos meses, a mancha evoluiu lentamente para uma ferida. Continuava sem dor, mas já causava desconforto.
Como muitos homens, ele adiou a ida ao consultório. Calcula que levou cerca de um ano entre notar o problema e procurar um médico.
Quando finalmente buscou atendimento, o diagnóstico praticamente saltava aos olhos: a lesão era evidente. A biópsia confirmou o pior: câncer de pênis.
Jorge admite que foi postergando o cuidado e hoje reconhece que o diagnóstico precoce teria sido sua principal defesa. A demora custou caro. Ele passou por uma amputação parcial e perdeu metade do pênis depois que a doença avançou. Acredita que, se tivesse procurado ajuda ao perceber os primeiros sinais, o desfecho poderia ter sido menos agressivo.
Além de comprometer os linfonodos inguinais, na região da virilha, o tumor também se infiltrou na pelve.

câncer de pênis
Foto: Freepik
O câncer de pênis é considerado raro em grande parte do mundo, com incidência inferior a 1 caso por 100 mil homens em países como os Estados Unidos e na maior parte da Europa. No Brasil, porém, a taxa chega a cerca de 6,8 casos por 100 mil habitantes, uma das mais altas registradas globalmente.
Para o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, esse cenário representa um “desconforto epidemiológico”, por evidenciar fragilidades estruturais do sistema de saúde e falhas na prevenção de uma doença amplamente evitável.
Dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) mostram a dimensão do problema. Nos últimos cinco anos, quase 2.900 homens passaram por amputação parcial ou total do pênis no país. Na última década, foram mais de 6.500 procedimentos desse tipo. Em média, cerca de 600 homens por ano perdem parte do órgão.
De acordo com o urologista Ricardo Vita, doutor em Urologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro titular da SBU, cerca de metade dos casos de câncer de pênis está associada à infecção pelo papilomavírus humano (HPV), sobretudo pelos subtipos 16 e 18, considerados de alto risco oncogênico.
Ele ressalta, no entanto, que o vírus não é o único fator em jogo.
A fimose — condição em que a pele que recobre a glande impede sua exposição adequada — dificulta a higiene íntima e favorece o acúmulo de secreções, como o esmegma. Isso cria um ambiente de inflamação crônica. Ao longo dos anos, esse processo irritativo pode levar a alterações celulares e aumentar o risco de transformação maligna.
Doutora em Ciências Cirúrgicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e diretora de comunicação da SBU, Karin Anzolch acrescenta que fatores socioeconômicos e culturais também pesam.
Segundo ela, homens com menor acesso à informação e aos serviços de saúde costumam chegar aos centros especializados com a doença em estágios mais avançados.

imagem ilustrativa
Foto: Freepik
Diferentemente do câncer do colo do útero, que pode evoluir de forma silenciosa, o câncer de pênis costuma apresentar lesões visíveis. Stefani explica que se trata de uma doença de evolução lenta. Quando uma ferida não cicatriza, não melhora com o tratamento inicial ou persiste por semanas, o sinal de alerta está aceso.
Segundo especialistas, os sintomas iniciais mais comuns incluem:
Em geral, o tumor inicial é indolor, o que contribui para o atraso na busca por atendimento.
Presidente da SBU e médico responsável pelo tratamento de Jorge, Roni de Carvalho Fernandes reforça que qualquer ferida na glande ou no prepúcio que não cicatrize em uma ou duas semanas deve ser avaliada por um urologista. A confirmação do diagnóstico é feita por meio de biópsia.
Ele destaca que o tumor tem comportamento loco-regional, podendo infiltrar tecidos vizinhos e se espalhar para linfonodos da região inguinal. Quando os gânglios estão comprometidos, o prognóstico piora significativamente.
Segundo Vita, a sobrevida em cinco anos varia de 96% nos estágios iniciais para 20% nos mais avançados, quando há metástases à distância.
Imagem ilustrativa
Foto: Freepik
Após o diagnóstico, Jorge iniciou quimioterapia neoadjuvante — tratamento realizado antes da cirurgia — para reduzir o tamanho da lesão e tentar preservar o máximo possível do órgão.
Ele relata que o tratamento foi desgastante. A cirurgia, feita em outubro de 2025, também incluiu a retirada dos linfonodos inguinais. A recuperação foi dolorosa.
No caso de Jorge, foi possível realizar uma amputação parcial. Segundo Fernandes, a quimioterapia reduziu o tumor e permitiu uma abordagem mais conservadora, com retirada apenas da glande e do prepúcio, preservando os corpos cavernosos — estruturas responsáveis pela ereção.
Jorge conta que consegue urinar normalmente. Ainda assim, descreve um impacto psicológico importante e diz que se viu diante de uma escolha extrema: manter o pênis ou manter a vida.
Em um momento de maior fragilidade, chegou a cogitar abandonar o tratamento. Ao ser confrontado com imagens de casos avançados, percebeu que o atraso poderia tê-lo levado a uma situação muito mais mutilante.
Ele reconhece que o medo de encarar o problema contribuiu para a demora.
A gente tem medo de encarar a verdade Jorge
A incidência do câncer de pênis é maior nas regiões Norte e Nordeste, onde o acesso a saneamento, informação e serviços de saúde é mais limitado.
Fernandes afirma que a doença é mais frequente em populações vulneráveis. Ele ressalta que a circuncisão na infância reduz significativamente o risco, pois elimina o acúmulo de esmegma e a irritação crônica da pele. Nos homens não circuncidados, a higiene adequada — com retração do prepúcio para limpeza da glande — é fundamental para prevenir processos inflamatórios persistentes.
Além da cirurgia, casos avançados podem exigir quimioterapia, radioterapia e, em contextos específicos, imunoterapia. O uso de novas drogas ainda está em investigação, com estudos clínicos em andamento no Brasil e em outros países.
Um artigo de revisão publicado em 2025 no periódico científico IJIR: Your Sexual Medicine Journal aponta que o câncer de pênis e seus tratamentos podem provocar efeitos profundos na qualidade de vida, incluindo disfunção sexual, alterações urinárias, ansiedade, depressão e isolamento social. Os autores defendem modelos de cuidado multidisciplinar e suporte psicossocial estruturado para esses pacientes.
Jorge afirma que ainda enfrenta desafios emocionais, mas segue realizando exames de acompanhamento e acredita que, até o momento, o quadro está sob controle. Para ele, a experiência reforça a importância de prestar atenção a qualquer alteração e buscar ajuda sem demora.
Informações relatadas pelo portal de notícias G1.