'Achei que ia morrer': mulher relata efeitos graves após comprar caneta emagrecedora online sem avaliação médica

Emma Dyer, com histórico de anorexia e bulimia e IMC normal, diz ter desmaiado, tido alucinações e vomitado sangue após aplicar dose intermediária recebida em março de 2024

25/02/2026 às 13:51 por Redação Plox

Emma Dyer se lembra exatamente do momento em que clicou em “comprar agora” em um anúncio online de canetas emagrecedoras. Não houve consulta médica, verificação de identidade nem qualquer pergunta sobre seu histórico de anorexia e bulimia. Ela apenas preencheu alguns dados e finalizou a compra, como se estivesse fazendo uma despesa comum na internet.

Poucos dias depois de começar a usar as injeções, Emma desmaiou no chão do banheiro e achou que iria morrer.

Aos 40 anos, moradora de Carlton, em Nottinghamshire, ela tinha um longo histórico de transtornos alimentares, mas conta que havia chegado a um peso saudável, se sentia estável e trabalhava em um emprego de que gostava. Tudo mudou após o comentário de uma cliente, que afirmou que ela “ficava muito melhor quando era mais magra”. A frase desencadeou uma nova espiral destrutiva.

De volta para casa, em uma noite, Emma digitou “injeções para emagrecer” na internet, decidida a perder peso o mais rápido possível. Pagou 115 libras (cerca de R$ 800) pelo que acreditava ser Saxenda, uma caneta à base de liraglutida, primeira molécula emagrecedora lançada no mercado e associada à perda de até 8% do peso corporal.

Ela conta que o site não oferecia qualquer tipo de garantia. Apenas pedia seu índice de massa corporal (IMC) — informação sobre a qual pôde mentir sem dificuldades. Apesar de ter IMC considerado normal e um histórico de transtorno alimentar, nada impediu a conclusão da compra.

Emma acredita que, se o fornecedor tivesse checado seu histórico com o médico de família, a compra não teria sido autorizada. Para ela, naquele momento, não havia condições emocionais para tomar uma decisão lógica.


Emma Dyer afirma que desmaiou no chão do banheiro e começou a vomitar sangue depois de comprar injeções online.

Emma Dyer afirma que desmaiou no chão do banheiro e começou a vomitar sangue depois de comprar injeções online.

Foto: Freepik


Reação grave após o uso da caneta emagrecedora

As injeções chegaram em março de 2024. Segundo Emma, as instruções de uso estavam “mal impressas” e pouco claras. Sem perceber que precisava iniciar com uma dose baixa, aplicou diretamente uma dose intermediária.

No primeiro dia, perdeu totalmente o apetite e interpretou isso como sinal de que o produto estava funcionando como desejava. No dia seguinte, porém, começaram os efeitos mais intensos. Emma desmaiou no banheiro, não conseguia se mexer, falar nem abrir os olhos. Teve alucinações e vomitou tanto que chegou a expelir sangue. Em sua percepção, poderia morrer ali.

Envergonhada e apavorada, decidiu não contar a ninguém o que estava acontecendo. Temia ouvir que não precisava daquele medicamento, enquanto, em sua mente, ainda acreditava que não estava bem com o próprio corpo. Sem apoio, lidou sozinha com a situação.

Mais tarde, decidiu tornar sua história pública para que outras pessoas pensem duas vezes antes de encomendar canetas emagrecedoras pela internet, sem acompanhamento profissional.

Uso crescente de injeções para emagrecer

Pesquisadores da University College London estimam que cerca de 1,6 milhão de adultos no Reino Unido usaram injeções para emagrecimento no último ano. Algumas dessas pessoas conseguem acesso às canetas — como Ozempic e Mounjaro — pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), mas a maioria recorre à compra particular.

Esses medicamentos atuam como supressores de apetite, imitando o hormônio GLP-1, responsável pela sensação de saciedade. As injeções são consideradas altamente eficazes, mas especialistas alertam para o risco de ganho de peso após a interrupção do uso, além de outros possíveis efeitos colaterais.

A direção médica nacional do NHS na Inglaterra manifesta preocupação com relatos de vendedores não verificados e com a promoção dessas injeções sem supervisão adequada, exames médicos ou acompanhamento. A avaliação é de que a ausência de controle pode colocar a saúde dos pacientes em risco, inclusive pela possibilidade de produtos de baixa qualidade ou falsificados.

O serviço de saúde britânico reforça ainda que o uso desses medicamentos deve estar associado a apoio comportamental e cuidados abrangentes, com foco em nutrição adequada e aumento da atividade física, e não apenas na prescrição isolada da caneta emagrecedora.

Alerta sobre riscos e fiscalização

A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido publicou orientações sobre como obter essas injeções com segurança e os riscos envolvidos no uso. Já no Brasil, a comercialização das canetas emagrecedoras é permitida somente com receita médica, mas a venda pela internet, muitas vezes a partir de produtos manipulados ilegalmente ou vindos do Paraguai, preocupa autoridades de saúde.

Instituições especializadas em transtornos alimentares relatam aumento na demanda por atendimento relacionado ao uso de injeções de emagrecimento. Em uma entidade que atua nessa área, o número de encaminhamentos de adultos chegou a 1.339 em 2024 e 2025, um crescimento de 57% em comparação com os 852 registros do período anterior.

Segundo a instituição, observa-se um padrão: pessoas que recorrem às canetas emagrecedoras, com ou sem acompanhamento profissional, e acabam acionando serviços de apoio após o surgimento de complicações físicas ou de recaídas em problemas com a alimentação e a imagem corporal. A entidade passou a treinar a equipe especificamente sobre esses medicamentos e sobre como a mudança nos ideais de corpo ideal, impulsionada pela popularização das injeções, tem reativado dificuldades em pessoas que haviam se recuperado anos atrás.

A preocupação é que os serviços de apoio acabem sobrecarregados, ficando com a tarefa de lidar com as consequências de um uso pouco regulado desses remédios.

Farmácias, segurança e protocolos de acompanhamento

Na rede de farmácias em que trabalha a farmacêutica Grace Pickering, em Alfreton, no condado de Derbyshire, o relato de Emma não é visto como um caso isolado. Ela conta que já atendeu pessoas que mostraram produtos adquiridos fora do ambiente médico, em canais considerados pouco confiáveis, sem comprovação de procedência.

Grace afirma que a farmácia segue as diretrizes do Conselho Geral de Farmácia ao oferecer programas de emagrecimento com injeções, exigindo uma consulta presencial inicial antes da prescrição e um acompanhamento mensal posterior. A profissional defende que todos os fornecedores deveriam adotar padrões semelhantes, com serviços liderados por profissionais de saúde, consultas presenciais, monitoramento constante e suporte imediato em caso de efeitos colaterais.

Emma também defende uma regulamentação mais rígida. Para ela, seria necessário exigir evidências fotográficas, verificação do IMC, checagem de medicamentos em uso e acesso a prontuários médicos antes da liberação das canetas. Não se trata apenas da etapa de compra: na visão dela, o suporte precisa ser contínuo — antes, durante e depois do início do tratamento.

Hoje, Emma espera que seu relato funcione como um alerta. Ela considera a compra das canetas emagrecedoras o maior erro que já cometeu: a recaída em seu transtorno alimentar quase lhe custou a vida — algo que ela não deseja que ninguém enfrente.

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