Sociedades médicas alertam sobre fake news de “epidemia de micropênis” e risco de hormônios em crianças
Nota conjunta aponta que não há aumento de casos, critica medições caseiras e diz que vai acionar órgãos para apurar publicidade e condutas que coloquem menores em risco
25/03/2026 às 22:38por Redação Plox
25/03/2026 às 22:38
— por Redação Plox
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Quatro das principais sociedades médicas do Brasil divulgaram na quarta-feira (25) uma nota conjunta para alertar a população sobre a disseminação de informações falsas nas redes sociais a respeito de uma suposta "epidemia de micropênis". Segundo as entidades, conteúdos enganosos têm incentivado pais a medirem o pênis dos filhos em casa e, a partir disso, a administrarem hormônios em crianças sem acompanhamento médico adequado.
Imagem ilustrativa
Foto: Freepik
O documento é assinado pela SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e Cipe (Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica). De acordo com as sociedades, as publicações nas redes têm induzido famílias a um diagnóstico incorreto e, frequentemente, vêm acompanhadas de anúncios de terapias hormonais vendidas diretamente ao público.
Entidades negam aumento de casos e criticam “narrativa” nas redes
A gente não está passando por uma epidemia de micropênis, os casos não estão aumentando na população. Toda a literatura recente mostra que o tamanho da medida peniana ao longo das três últimas décadas tem sido muito estável.
Veridiana Andrioli
A urologista Veridiana Andrioli, coordenadora do departamento de urologia pediátrica da SBU, avalia que a ideia de aumento nos diagnósticos se relaciona à falta de conhecimento sobre a anatomia masculina, a erros na forma de medir o órgão e ao interesse comercial na promoção de terapias hormonais.
Segundo o alerta, quanto maior o peso, a idade e a circunferência abdominal da criança, maior a tendência de o pênis ser percebido como menor do que realmente é.
Medição fora do consultório pode gerar ansiedade e tratamentos indevidos
A nota conjunta afirma que a medição fora de ambiente clínico não é recomendada por apresentar alta margem de erro. Isso, segundo as entidades, pode aumentar a ansiedade dos pais e levar a tratamentos desnecessários. A recomendação é que qualquer avaliação do desenvolvimento genital masculino seja feita exclusivamente por médicos especialistas.
As sociedades também chamam atenção para os riscos do uso indiscriminado de hormônios na infância, com possibilidade de danos irreversíveis, como infertilidade futura, alterações no crescimento e desequilíbrios hormonais permanentes.
Como ocorre o desenvolvimento peniano
O crescimento do pênis segue um padrão descrito pelas entidades: há um aumento mais perceptível nos primeiros três a seis meses de vida, período conhecido como “minipuberdade”, seguido de uma fase praticamente estável até o início da adolescência.
O desenvolvimento peniano depende da testosterona, que não é produzida em níveis significativos antes da puberdade. De acordo com o texto, o primeiro sinal de entrada nessa fase é o aumento dos testículos.
O que é micropênis e como é feito o diagnóstico
O micropênis é descrito como uma condição clínica rara e complexa. A definição considera um pênis com formato habitual, mas com medida inferior a 2,5 desvios-padrão abaixo da média para a idade. Em um bebê de um ano, por exemplo, a média do comprimento peniano esticado é de cerca de 3,5 cm; medidas entre 2 cm e 2,5 cm nessa idade já levantariam suspeita clínica.
Segundo a nota, o diagnóstico correto exige avaliação multidisciplinar, exame físico detalhado, análise do histórico de saúde e, quando indicado, exames laboratoriais e genéticos.
As entidades ressaltam que muitos casos que preocupam famílias não são micropênis, mas sim o chamado “pênis embutido”, quando o órgão fica escondido sob a gordura da região suprapúbica. Por isso, a orientação é não comparar a anatomia da criança com a de outras e, diante de discrepância evidente, procurar um especialista — sem tentar medir ou concluir um diagnóstico em casa.
Causas possíveis e tratamentos disponíveis
O micropênis pode ter origem em alterações genéticas, cromossômicas e hormonais que, na maioria das vezes, se manifestam ainda na vida intrauterina — o que significa que o bebê já nasce com o desenvolvimento peniano comprometido. Entre as causas citadas estão síndromes genéticas como a de Klinefelter, disgenesia gonadal, defeitos na produção de enzimas e doenças como a hipoplasia de células de Leydig.
De acordo com Ricardo Barroso, endocrinologista e diretor da Sbem em São Paulo, essas condições costumam estar associadas a alterações hormonais que resultam no micropênis, e dificilmente a própria família percebe a condição.
O texto destaca que o micropênis pode ser funcional, com sensibilidade, ereção e relações sexuais na vida adulta. Quando há impacto, ele tende a ser mais psicológico. Há tratamentos disponíveis, incluindo terapia hormonal ou, em casos específicos, procedimentos cirúrgicos. Barroso afirma que, quando o diagnóstico é feito por um especialista até os 2 anos de idade, é possível obter melhoras significativas.
Órgãos serão acionados para apurar condutas e publicidade
As sociedades informaram que vão acionar o Ministério da Saúde, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Ministério Público para investigar condutas que contrariem a ética médica e coloquem em risco o bem-estar de crianças e adolescentes.