Contrabando de canetas emagrecedoras do Paraguai vira ameaça à saúde pública no Brasil
Mercado paralelo de R$ 600 milhões movimenta venda ilegal de canetas emagrecedoras sem controle sanitário; apreensões somam 30 mil unidades em 2023 e já há casos graves de internação em UTI
26/01/2026 às 06:25por Redação Plox
26/01/2026 às 06:25
— por Redação Plox
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A popularização das canetas emagrecedoras no Brasil já ultrapassou as fronteiras — e de forma ilegal. O contrabando de medicamentos vindos do Paraguai, vendidos sem receita e sem qualquer controle sanitário, transformou-se em um problema de saúde pública.
Canetas emagrecedoras devem ser aplicadas com indicação médica
Foto: Reprodução / TV TEM
Esses produtos são negociados em plena rua, oferecidos em sites e redes sociais e até divulgados em propagandas improvisadas de supostos laboratórios, algumas com danças e apelos virais. Em um flagrante em Porto Alegre, um vendedor afirmou não precisar de receita médica e disse comprar, em média, de 40 a 60 caixas por vez.
Para escapar da fiscalização, os contrabandistas recorrem a artifícios variados: escondem as canetas em estofamentos de carros e ônibus, em fundos falsos e até dentro de pneus.
Contrabando em expansão e mercado milionário
Os dados oficiais revelam o crescimento desse comércio ilegal. Em 2024, a Receita Federal apreendeu 2.500 unidades de canetas emagrecedoras. No ano anterior, foram 30 mil unidades, em uma carga avaliada em mais de R$ 30 milhões.
Pesquisas apontam, porém, que apenas cerca de 5% de tudo o que entra ilegalmente no país é apreendido. A estimativa é que esse mercado paralelo movimente aproximadamente R$ 600 milhões.
O brasileiro que compra essas canetas de forma irregular pode ter praticamente a certeza de que está adquirindo um suposto medicamento que chegou ao país sem a devida refrigeração e sem condições adequadas de uso. Ele pode não ter os efeitos esperados ou ainda causar danos à saúde
Daniel Link, auditor fiscal da Receita Federal
Riscos graves à saúde e caso de paciente internada
Os riscos não são apenas teóricos. Em novembro, Kellen Oliveira, de 42 anos, usou uma caneta vinda do Paraguai, proibida no Brasil. Dias depois, passou a sentir fortes dores abdominais e precisou ser internada. Os médicos diagnosticaram síndrome de Guillain-Barré, doença rara e autoimune que provoca fraqueza muscular e pode levar à paralisia do corpo. Kellen está internada em uma UTI.
Especialistas alertam que, em situações como essa, não é possível saber com precisão se o efeito adverso foi causado pelo medicamento em si, por outra substância misturada, por algum contaminante ou por má conservação do produto. Os efeitos colaterais podem ser tão severos que chegam a causar a morte do paciente.
Regras da Anvisa e brechas para uso individual
A Anvisa informou, em nota, que medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados no país. A única possibilidade de uso de um produto não aprovado é a importação excepcional por pessoa física, para tratamento da própria saúde, mediante prescrição médica.
Investigação no Paraguai e estrutura do contrabando
Uma equipe do programa “Fantástico” foi ao Paraguai investigar a venda de canetas emagrecedoras proibidas no Brasil. Em território paraguaio, laboratórios investem pesado na promoção de produtos vetados no mercado brasileiro. Em alguns casos, a negociação acontece ali mesmo, nas ruas de Ciudad del Este.
Os contrabandistas montaram uma estrutura organizada para revenda no Brasil. Eles criaram grupos de mensagens usados para monitorar e driblar a fiscalização nas fronteiras. O acesso a esses grupos custa R$ 100.
De acordo com autoridades, em situações que envolvem falsificação, alteração ou corrupção de medicamentos, o responsável pode responder por crime contra a saúde pública, com pena de reclusão que varia de 10 a 15 anos.
Pressão por cooperação binacional e fiscalização
Para especialistas e órgãos de controle, o contrabando de canetas emagrecedoras já se consolidou como tema de saúde pública. O enfrentamento passa por reforço da fiscalização nas áreas de fronteira e pela harmonização de protocolos entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil e o órgão regulador do Paraguai, o que poderia facilitar o controle sobre esses produtos.
Além disso, autoridades defendem ações paralelas: de um lado, campanhas de conscientização para a população sobre os riscos de comprar medicamentos ilegais; de outro, o fortalecimento da atuação dos órgãos públicos para coibir tanto o contrabando quanto o comércio irregular.
Alerta sobre tirzepatida e uso médico controlado
A Agência de Vigilância Sanitária do Paraguai divulgou um alerta sobre a tirzepatida, princípio ativo presente em algumas das canetas emagrecedoras. Segundo o documento, a substância representa grave risco à saúde pública quando vendida em esquemas ilegais, já que não há garantia sobre sua composição, qualidade, segurança e eficácia.
Para a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, o uso regulado de canetas emagrecedoras representa um marco no tratamento da diabetes e da obesidade. Esses medicamentos, quando aprovados, são produzidos em laboratórios autorizados pela Anvisa e passam por diversas etapas de controle de qualidade e pureza antes de chegar às farmácias.
O problema não está na tecnologia em si, mas no uso inadequado, sem orientação médica, e na compra em fontes duvidosas, onde o produto pode não ser o declarado, ter baixa qualidade ou estar contaminado. Nessas condições, o que poderia ser um avanço no tratamento se transforma em um risco concreto à saúde.