Irritado com atuação de Toffoli no caso Banco Master, Lula diz a aliados que ministro deveria deixar o STF

Presidente critica sigilo do inquérito sobre o Banco Master, questiona vínculos de familiares de Dias Toffoli com fundos ligados ao banco e teme esvaziamento das investigações, mas é visto como improvável que peça afastamento formal do ministro

26/01/2026 às 10:02 por Redação Plox

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem demonstrado crescente irritação com a atuação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), na relatoria do inquérito que investiga o Banco Master. Segundo relatos, Lula acompanha de perto o avanço das apurações e o impacto das revelações sobre o comportamento do magistrado.

Nos últimos dias, o petista deu sinais de que não pretende sair em defesa de Toffoli diante das críticas que o ministro vem recebendo. Em conversas reservadas com ao menos três auxiliares, Lula fez comentários considerados duros e chegou a dizer que o ministro deveria renunciar ao cargo no STF ou se aposentar, de acordo com relatos colhidos pela Folha.

Dias Toffoli, ministro

Dias Toffoli, ministro

Foto: Foto: Andressa Anholete/SCO/STFNascido em Marília (SP), José Antonio Dias Toffoli, foi indicado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro foi empossado no final de 2009, assumindo a vaga aberta com a morte do ministro Carlos Alberto Menezes Direito, dias antes.ToffEste trecho é parte de conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link https://valor.globo.com/politica/artigo/quem-indicou-dias-toffoli-ao-stf.ghtml ou as ferramentas oferecidas na página.Textos, fotos, artes e vídeos do Valor estão protegidos pela legislação brasileira sobre direito autoral. Não reproduza o conteúdo do jornal em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do Valor ([email protected]). Essas regras têm como objetivo proteger o investimento que o Valor faz na qualidade de seu jornalismo.


Lula quer nova conversa com Toffoli sobre o inquérito

Lula afirmou a aliados que pretende chamar Toffoli para uma nova conversa sobre sua conduta no caso Master. Os dois já haviam discutido o tema no fim do ano passado. Apesar dos desabafos do presidente, pessoas próximas avaliam que é pouco provável que ele peça diretamente ao ministro que deixe o tribunal ou abandone a relatoria.

O presidente se mostra incomodado com o desgaste institucional ao Supremo provocado por reportagens que expuseram vínculos de parentes de Toffoli com fundos ligados à rede de negócios do Banco Master. Ainda segundo aliados, Lula também reclamou do sigilo imposto ao processo e do risco de que a investigação seja esvaziada.

A auxiliares, Lula tem defendido a continuidade das apurações e sustenta que o governo precisa demonstrar que combate fraudes sem poupar figuras influentes, evitando acusações de interferência. Na sexta-feira (23/1), ele afirmou que não é aceitável que a população mais pobre continue sendo penalizada enquanto um envolvido no esquema do Banco Master é acusado de um golpe superior a R$ 40 bilhões.

Investigação atinge aliados e opositores

Entre integrantes do governo, há a percepção de que o caso pode atingir políticos de oposição, mas também respingar em governistas, e que, mesmo assim, a investigação deverá seguir seu curso. O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, mantém relações com políticos do centrão e com aliados do PT na Bahia.

O empresário baiano Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, é próximo do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado. Essa teia de relações políticas reforça a avaliação interna de que o caso tem potencial explosivo no cenário de Brasília.

Sigilo e suspeitas de “pizza” no STF

Desde o fim do ano passado, Lula monitora a evolução do inquérito. Ele teria ficado intrigado com a decisão de Toffoli de impor sigilo ao processo e de acolher pedido da defesa de Daniel Vorcaro para levar as investigações ao STF. A medida foi tomada uma semana antes de vir a público que o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, tinha um contrato de R$ 3,6 milhões mensais para defender interesses do Banco Master.

Entre aliados de Lula, ganhou força a desconfiança de que o caso poderia terminar em uma “grande pizza”. Em dezembro, o presidente convidou Toffoli para um almoço no Palácio do Planalto, do qual também participou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A conversa foi descrita como amistosa pelo próprio Lula.

Na ocasião, Lula afirmou que tudo o que fosse desvendado pelo governo no caso Master deveria ser levado “às últimas consequências” e buscou saber se essa também era a disposição no Supremo, mesmo após a decretação do sigilo. Segundo relatos, o ministro respondeu que nada seria abafado e que o sigilo era justificável. Lula, então, disse acreditar que Toffoli adotaria a conduta adequada e avaliou que a relatoria poderia ser uma oportunidade para o ministro “reescrever sua biografia”.

Pressão sobre Toffoli e defesa de imparcialidade

Essa conversa antecedeu novas revelações que intensificaram as dúvidas sobre a postura de Toffoli. O ministro passou a ser alvo de críticas pela forma como conduz o inquérito: além do rígido sigilo, pesam contra ele uma viagem em jatinho com um dos advogados ligados ao caso e negócios que associam seus familiares a um fundo de investimentos vinculado ao Banco Master.

A interlocutores, Toffoli afirmou que, neste momento, descarta se afastar do processo por não enxergar motivos que coloquem em questão sua imparcialidade. Ele indicou que nem a viagem em jatinho na companhia do advogado, nem a sociedade de seus irmãos com o fundo de investimentos comprometem sua atuação no inquérito.

Como lembrou a Folha, na história do STF, o reconhecimento de impedimento ou suspeição de ministros tem ocorrido, em geral, em situações de autodeclaração. Ou seja, são os próprios integrantes da Corte que decidem se devem se afastar de determinados processos.

Relação marcada por indicações e frustrações

Responsável por indicar Dias Toffoli ao Supremo, Lula acumula frustrações com o ex-advogado do PT. Um dos episódios mais sensíveis foi a decisão do ministro que impediu o então ex-presidente, preso em Curitiba, de comparecer ao velório de seu irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, morto em janeiro de 2019.

O pedido de desculpas veio apenas em dezembro de 2022, após a eleição de Lula. Naquele momento, o ministro do STF se desculpou por não ter autorizado a ida de Lula ao velório, episódio que marcou negativamente a relação entre os dois e que ainda hoje é lembrado no entorno do presidente como exemplo das decepções acumuladas ao longo dos anos.

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