Mercado espera início do corte da Selic só em março e vê espaço para diversificar renda fixa

Com BC cauteloso diante de riscos externos e incertezas fiscais em ano eleitoral, projeções indicam Selic em 12,25% no fim do ano e reforçam estratégias com prefixados e títulos atrelados à inflação

26/01/2026 às 07:00 por Redação Plox

A expectativa de que o Banco Central do Brasil (BC) inicie o ciclo de cortes de juros ainda no primeiro trimestre deste ano abre uma nova janela para revisão das carteiras de renda fixa. Hoje, a taxa básica (Selic) está em 15% ao ano.


Como montar uma carteira de investimentos diversificada

Como montar uma carteira de investimentos diversificada

Foto: Divulgação


De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a principal aposta do mercado é que a reunião desta semana do Comitê de Política Monetária (Copom) mantenha a Selic inalterada, com sete em cada dez bancos projetando o início da redução apenas em março.

Nesse cenário, investidores começam a avaliar como reposicionar suas aplicações e o que esperar dos próximos movimentos de juros.

Riscos no exterior e incertezas fiscais entram no radar

Especialistas consultados apontam que a postura mais cautelosa do BC na condução da política monetária está ligada às incertezas geopolíticas e aos riscos em torno das contas públicas brasileiras.

O cenário global desse ano começou um pouco conturbado, e algumas dessas questões podem afetar a avaliação de risco por parte do BC Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP

Entre os fatores externos, estão as tensões no Oriente Médio, que podem pressionar os preços do petróleo no mercado internacional. Uma alta da commodity tende a impactar a inflação global e, consequentemente, a brasileira.

Também pesam as seguidas disputas envolvendo o governo americano e o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. O mercado observa com cautela quem será o nome indicado pelo presidente Donald Trump para comandar o Fed após o fim do mandato de Jerome Powell.

No cenário doméstico, investidores acompanham o possível aumento de gastos em ano eleitoral e as incertezas sobre quem ocupará a Presidência da República, fatores que influenciam a percepção de risco e as expectativas para as contas públicas.

Segundo a estrategista da XP, há elementos que podem aliviar a inflação, como a perspectiva de enfraquecimento do dólar, mas permanecem dúvidas sobre quais reformas fiscais poderão ser propostas pelo próximo governo. O balanço entre cenário externo, política interna e trajetória fiscal será determinante para o ritmo de cortes da Selic.

Ainda assim, o mercado financeiro projeta que o ciclo de queda de juros deve começar neste ano. De acordo com o Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo BC, a estimativa é que a Selic encerre o ano em 12,25% ao ano — queda de 2,75 pontos percentuais em relação ao patamar atual.

Como ajustar a carteira para antecipar a queda dos juros

Diante dessa perspectiva, especialistas veem espaço para uma estratégia de diversificação em renda fixa, aproveitando o momento anterior ao início efetivo do corte de juros.

Um estudo da XP Investimentos mostra que períodos de queda da Selic tendem a ser mais favoráveis para títulos prefixados e para papéis indexados à inflação (IPCA+).

Nessa classe de ativos, destacam-se:

Títulos prefixados: têm taxa de rendimento definida no momento da aplicação, permitindo ao investidor saber quanto receberá no vencimento.

Títulos indexados à inflação: rendem a inflação do período acrescida de uma taxa fixa, protegendo o poder de compra no longo prazo.

De acordo com o estudo, esses títulos tendem a superar o CDI — taxa usada como referência para boa parte dos investimentos de renda fixa no país — não apenas durante o ciclo de cortes, mas também nos meses que o antecedem.

Na média dos ciclos de queda desde 2005, o retorno do índice de prefixados (IRF-M) foi de 13,3% no primeiro ano após o início das reduções, frente a 10,7% do CDI (IMA-S) no mesmo intervalo.

O relatório indica ainda que, para cada 1 ponto percentual de queda na Selic, a valorização adicional média estimada é de 0,40% para títulos atrelados à inflação de curto prazo e de 0,50% para prefixados no mês em que ocorre o corte. Nessa análise, foram considerados o IMA-B 5, que acompanha títulos públicos indexados ao IPCA com vencimento de até cinco anos, e o IRF-M, que mede o desempenho de títulos prefixados.

Para a estrategista da XP, este é um momento oportuno para o investidor “rebalancear o mix de indexadores” da carteira, combinando ativos prefixados, atrelados à inflação e pós-fixados, como os que acompanham o CDI.

Ela destaca que o CDI segue tendo papel relevante, especialmente se o ciclo de cortes for mais brando, por oferecer menor volatilidade. A recomendação central é diversificar os indexadores para equilibrar risco e retorno.

Passo a passo para organizar a carteira

Para o planejador financeiro certificado pela Planejar, Carlos Castro, a alocação de recursos precisa seguir uma lógica estratégica que independe do momento do ciclo econômico.

Ele aponta três etapas principais para construir uma boa estratégia de investimentos:

1. Definir prazos e objetivos: separar as metas em curto, médio e longo prazo. Isso ajuda a identificar se a carteira deve ter perfil mais conservador, moderado ou arrojado.

2. Distribuir entre classes de ativos: a partir do perfil de risco, decidir quanto será aplicado em renda fixa, renda variável, multimercados e ativos alternativos.

3. Escolher os produtos: depois de definida a divisão entre classes, selecionar quais produtos financeiros específicos irão compor cada parte da carteira.

Marcação a mercado e o risco de precisar do dinheiro antes

Outro ponto de atenção é o horizonte de investimentos. O especialista de renda fixa do Inter, Rafael Winalda, ressalta que alinhar o prazo da aplicação à necessidade de liquidez é fundamental para evitar prejuízos decorrentes da marcação a mercado.

Marcação a mercado é o preço calculado de um investimento como se ele fosse vendido naquele dia, atualizado diariamente de acordo com as condições do mercado.

Segundo o especialista, o erro mais frequente ocorre quando o investidor aplica em títulos de prazo longo, como papéis IPCA+ com vencimentos em 2035 ou 2045, sem ter certeza de que poderá manter o dinheiro investido até o fim. Em situações de necessidade de resgate antecipado, pode ser obrigado a vender com deságio.

Além disso, ele destaca a importância de separar os investimentos de longo prazo da reserva de emergência, destinada exclusivamente a cobrir imprevistos.

Como separar a reserva de emergência do restante da carteira

Especialistas recomendam alguns cuidados práticos na hora de estruturar a reserva e os demais investimentos:

• Manter a reserva de emergência em ativos líquidos e conservadores, de fácil resgate e baixo risco.

• Investir em títulos de prazo mais longo apenas com recursos que não serão necessários no curto e médio prazo.

• Diversificar vencimentos, evitando concentrar todo o patrimônio em um único prazo ou estratégia, o que reduz o impacto de eventuais oscilações de mercado em momentos específicos.

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